A reflexão bíblica é elaborada por Adroaldo Palaoro, padre jesuíta, comentando o evangelho do Batismo de Jesus, ciclo A do Ano Litúrgico, que corresponde ao texto bíblico de Mateus 3,13-17.
“Este é o meu Filho amado, no qual eu pus o meu agrado” (Mt 3,17)
Celebramos hoje o verdadeiro nascimento de Jesus. Ele mesmo nos disse que o “nascimento pela água e pelo Espírito” era o mais importante.
Jesus, já um homem adulto, aproxima-se de João Batista para ser batizado por este profeta, a quem seguramente o escutara atentamente. Provavelmente, a pregação daquele homem de aparência excêntrica, tinha provocado já “algo” no mundo interno de Jesus. Quem sabe, aquelas palavras enérgicas que João gritava com força, junto ao rio Jordão, anunciando a iminente chegada do Messias e a exigência de conversão, tenha lhe despertado uma vibração, desde o mais fundo de seu coração.
Conduzido pela mão do Pai, saiu Jesus de Nazaré e foi batizar-se junto com todos os pecadores e pecadoras de seu tempo, que acudiam a receber o banho regenerador do batismo de João.
Por isso se situou na fila dos pecadores, sem julgar ninguém e sem medo de sua própria humanidade. Assim se mostrou ao mundo e assim reconheceu sua própria vocação de entrega.
Mas Jesus, imediatamente após descer às águas do Jordão, sai do rio, passa da água como lugar da morte à água como símbolo da vida, como no Êxodo de Israel, antecipando sua Páscoa, sua “passagem” da morte à sua gloriosa ressurreição e sua ascensão ao Pai.
O encontro com João Batista foi para Jesus uma experiência que transformou sua vida: ali tomou consciência de ser o Filho amado do Pai, o Messias esperado por gerações. Por isso, depois do batismo, Jesus não voltou mais ao seu cotidiano em Nazaré; tampouco aderiu ao movimento do Batista. Sua vida passou a estar centrada num único objetivo: proclamar a todos a Boa Notícia de um Deus que quer salvar o gênero humano.
O que transformou a trajetória de Jesus não foram as palavras que escutou dos lábios do Batista, nem mesmo o rito de purificação do batismo. Jesus viveu algo mais profundo; sentiu-se inundado pelo Espírito do Pai, aquele mesmo Espírito que pairava sobre as águas no início da Criação. Jesus reconheceu a si mesmo como Filho de Deus. De agora em diante sua vida consistirá em irradiar e contagiar esse amor insondável de um Deus Pai, providente e cuidadoso.
Ao saber-se e sentir-se amado infinitamente por um Deus que o chama “Filho amado”, Jesus descobriu, para si e para todos, o eixo do equilíbrio emocional, mental, espiritual. O amor que experimentou na descida ao Jordão se transforma em chamado vocacional, em investidura para uma missão universal e libertadora.
Cessou o tempo da espera, abriu-se o céu, escutou-se uma voz. E o Homem Jesus, equilibrado pelo Amor que experimentou em seu interior, começou a transformar as mentes e corações desequilibrados por falsas religiosidades que geram temor e submissão.
O batismo e as tentações de Jesus falam da profunda transformação que provocou nele uma experiência que se prolongará durante anos. Duas cenas decisivas que confirmam sua filiação divina e o que Ele devia ser para os demais. Descobriu o sentido de sua vida.
No brevíssimo diálogo entre Jesus e João Batista, Mateus expressa que Jesus rompe todos os esquemas do messianismo judaico. Não é o fato de batizar a Jesus que o Batista custa aceitar, mas o significado de seu batismo, que desloca a ideia do Deus como “juiz poderoso”, que João manifestava em suas pregações.
Só depois de ser batizado, a partir de sua própria experiência interior, Jesus vai além da mensagem de João e começa a pregar sua própria mensagem, na qual a ideia de Messias e de Deus que o Batista havia pregado, fica notavelmente superada.
Tudo isso preparou Jesus para uma experiência única. Os céus se abriram e Ele viu claro que o Pai o confirmava como Filho e o que esperava dele.
Jesus não foi um extraterrestre de natureza divina que estava dispensado da trajetória que todo e qualquer ser humano precisa percorrer para alcançar sua plenitude. Nem sempre levamos a sério essa experiência humana de Jesus. Mas, os primeiros cristãos tomaram muito a sério a humanidade de Jesus. Falar que Jesus fez um ato de humildade ao colocar-se na fila dos pecadores, embora não tivesse pecados, é pensar em um ato teatral que não tem nada a ver com a personalidade de Jesus.
Muitas vezes, nós nos aproximamos do relato do batismo com certos pré-juízos. O primeiro, é esquecer-nos que Jesus era plenamente humano e precisou ir aclarando suas ideias e discernindo sua missão.
Em segundo lugar, o conceito de pecado e conversão não tem nada a ver com o que até então era compreendido. Entendemos a conversão como um sair de uma situação de pecado. O que é narrado no batismo é uma “autêntica conversão de Jesus”, e isso não tem que supor uma situação de pecado, mas uma tomada de consciência daquilo que significa para um ser humano alcançar a plenitude de uma meta, ainda não conseguida.
Muitos dos estudiosos da Bíblia se perguntam se Jesus tinha neste momento de sua vida uma consciência plena de sua missão, ou se a foi descobrindo pouco a pouco, através dos mesmos acontecimentos históricos que seguiram, a partir desta decisão.
Jesus, no batismo, ao receber o Espírito, é ungido, é consagrado para sua missão, é constituído Messias.
Jesus de Nazaré, a partir do batismo, é o Cristo, que significa o “Ungido”. A partir disso, compreende-se o sentido profundo da sua ida ao deserto, que Mateus narra como fruto da moção do Espírito.
Sabemos que todo ser humano sente em seu interior a força do Espírito que rompe as barreiras de seu egoísmo, que o expande para além de si mesmo, que o arranca de seus “lugares estreitos” ...
Nesse sentido, o batismo significa uma experiência de rompimento de fronteiras profundas, de deslocamento para novos horizontes, de alargamento do coração... um movimento de expansão de todo o ser. “Experiência” que implica emoção e descoberta, com sabor do risco, da criatividade, da ousadia...
Da experiência batismal emerge uma pessoa internamente reconstruída, com vontade de sair daquilo que a limita, empobrece, degrada...; é a experiência de alguém que é impelido a lançar-se, a assumir novos riscos, a deslocar-se para as novas encruzilhadas de si mesmo e da história.
Terminado o “tempo natalino”, começamos o tempo litúrgico conhecido como “tempo comum” (Ano C), ou seja, a vida pública de Jesus, sua missão como Filho em favor dos filhos. Toda a liturgia deste ano (2025) deve estar iluminada pelo tema do “Ano Jubilar: Peregrinos de esperança”.
O relato do batismo – que marca a passagem da vida em Nazaré para a vida peregrina – faz referência a uma experiência fundante de Jesus: confirmado pelo Pai, impulsionado pelo Espírito, Ele descobre o sentido de sua vida e a missão que devia realizar.
Com o seu Batismo, Jesus “começa algo novo”, um movimento de vida, fora das estruturas religiosas de seu tempo. É a primeira coisa que os evangelistas deixam claro. Todo o anterior pertence ao passado. Jesus é o começo de um caminho novo e, com uma presença inconfundível, reacende a esperança nas pessoas, sobretudo naquelas mais excluídas.
O relato do evangelho deste domingo afirma que Jesus deixou Nazaré, sua casa e sua comunidade, e se dirigiu para as margens do Jordão, onde fora batizado por João. Começa sua vida itinerante.
A estrada é a vida e a missão de Jesus, enviado para revelar o rosto misericordioso de Deus à humanidade. A sua estrada é marcada pela solidariedade e cuidado para com os mais excluídos e sofridos.
Ele é o “autor” da estrada; Ele é a estrada do cumprimento da vontade de amor e de salvação do Pai; Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Essa estrada deverá ser a mesma também dos discípulos, a do seguimento, a que conduz à plena bem-aventurança. Um Caminho que faz viver e realiza a comunhão em plenitude.
Com os itinerantes Jesus dá início a um movimento a serviço do Reino e Ele mesmo é um itinerante. Não permanece numa casa, não se fecha em um lugar, não fundou uma instituição vinculada a um tipo de templo, sinagoga ou santuário, mas percorre, com um grupo de discípulos(as)/amigos(as), também itinerantes, os povoados e aldeias da Galileia, anunciando e realizando o Reinado do Pai.
Ele é o inspirador de toda itinerância; com sua peregrinação Ele abre possibilidade de outros caminhos. Ele convoca a todos a um seguimento que está profundamente conectado com o seu próprio destino.
“Fazer caminho” não significa apenas deslocamento geográfico. As travessias nunca são apenas exteriores. Não é simplesmente na cartografia do mundo que o ser humano anda. Isso significa não perceber a profundeza do seu ser; “deslocar-se”, querendo ou não, implica uma mudança de posição, uma expansão do próprio olhar, uma abertura ao novo, uma alteração do ângulo habitual, uma adaptação a realidades, tempos e linguagens, um encontro com o diferente, um diálogo inspirador ou deslumbrado, que deixa necessariamente impressões muito profundas.
Seguir Jesus Cristo é aderir a Ele incondicionalmente, é “entrar” no seu caminho, recriá-lo a cada momento e percorrê-lo até o fim. Seguir é deixar-se “configurar”, isto é, movimento pelo qual cada um vai sendo modelado à imagem d’Ele.
Para entrar em sintonia com o Peregrino, é preciso sair dos lugares estreitos, das posições fechadas, das ideias fixas..., e “fazer estrada” com Ele. Aqui está a verdadeira identidade dos(as) seguidores(as) de Jesus: o(as) “adeptos(as) do caminho”.
De fato, em seus inícios, o cristianismo era conhecido como “o Caminho” (At 18,25-26). Tornar-se cristão não era simplesmente entrar numa nova religião; era encontrar o caminho acertado da vida, caminhando sob as pegadas de Jesus, para viver com sentido e esperança. A fé cristã não era entendida como um “sistema religioso” (leis, ritos, doutrinas, hierarquias...), mas um “caminho novo e vivo” que fora inaugurado por Jesus, um caminho que era percorrido com os olhos fixos n’Ele. Ser cristão significava, para eles, “seguir” a Cristo. Isto era o fundamental, o decisivo.
Por isso, não é estranho que ainda hoje podemos encontrar muitas pessoas que se sentem cristãs simplesmente porque foram batizadas e cumprem alguns deveres religiosos, embora nunca tenham considerado a vida como um seguimento de Jesus Cristo. Este fato, bastante generalizado, seria inimaginável nos primeiros tempos do cristianismo.
Então, qual o sentido do batismo de Jesus? Trata-se de um acontecimento que traz uma mensagem nova e que supera radicalmente o Batista. Os evangelistas cuidaram com esmero desta cena. O céu, que permanecia fechado e impenetrável, se abre para mostrar seu segredo. Ao abrir-se, não descarrega a ira divina que João Batista anunciava, mas revela o amor de Deus, o Espírito, que pousa pacificamente sobre Jesus. Do céu se escuta uma voz: “Tu és o meu Filho amado”.
A alusão aos céus que se abrem definitivamente é a expressão de uma esperança de todo o AT: “Quem dera rasgasses o céu e descesses!” (Is 63,19). A comunicação entre o divino e o humano, que havia ficado interrompida por culpa da infidelidade do povo, é, a partir de agora, possível graças à total fidelidade de Jesus. A distância entre Deus e o ser humano fica superada para sempre. Jesus ouviu a voz dentro de si mesmo e esta lhe deu a garantia absoluta de que Deus estava com Ele para levar a missão a bom termo.
A mensagem é clara: com Jesus Cristo o céu permanece aberto; de Deus só brota amor e paz; podemos viver com confiança. Apesar de nossas limitações e de nossa mediocridade, também para nós “o céu se abre”. Também nós podemos escutar com Jesus a voz do Pai: “tu és para mim um filho amado, uma filha amada”. De agora em diante podemos assumir nossa história de vida como a marca da dignidade de filhos(as) de Deus, e que devemos cuidar com zelo e agradecimento.
Para quem vive a fé no Deus que “rasga os céus e desce”, a vida se revela cheia de momentos de graça: o nascimento de uma criança, o encontro com uma pessoa cheia de bondade, o serviço gratuito, a experiência de um amor oblativo, o cuidado com a criação..., que põem em nossa vida uma luz e um calor novos. De imediato nos parece ver “o céu aberto”. Algo novo começa em nós: sentimo-nos vivos, desperta-se o melhor que há em nosso coração, reacende-se uma nova esperança, novas relações interpessoais são vividas...
Talvez aquilo que sonhávamos secretamente, agora nos é presenteado de forma inesperada: um início novo, uma vida diferente, um “batismo de Espírito”. Por detrás dessas experiências está Deus nos amando como Pai, está seu Amor e seu Espírito, doador de vida.
Recebemos o batismo gratuitamente; talvez, por isso mesmo, não damos o devido valor.
Efetivamente, não fomos consultados para ser batizados, mas tampouco fomos consultados para nascer, nem na família que temos. Tampouco nos pediram opinião para amanhecer em determinado lugar do mapa, nem para ser de uma determinada raça. E, no entanto, tudo isso é decisivo e nos constitui como pessoas.
Por que não damos o devido valor ao nosso batismo? Por que não somos mais humildes e nos coloquemos na fila dos demais? Por que não somos mais agradecidos e, com Jesus, mergulhemos nas águas do Jordão para sermos re-batizados?
Esquecemos que “ser cristão” é “seguir” Jesus Cristo: mover-nos, dar passos, caminhar, construir nossa vida seguindo suas pegadas. Nossa vivência cristã, às vezes, permanece numa fé teórica e inoperante, ou se reduz a uma prática religiosa rotineira, estéril, sem maiores compromissos; não transforma nossa vida em seguimento. “Batiza-nos, Senhor, com teu fogo!”
Nutramos nosso “ser peregrino” que carregamos dentro de nós! Deixemos que ele se submerja nas águas da vida, para um novo renascimento.
Despertemos a esperança adentrando-nos em “nosso Jordão”! E desfrutemos da paisagem externa, descobrindo assim a paisagem de dentro. Deixemos emergir nosso mapa interior. Contemplemo-lo e agradeçamos... tudo. O bom. O boníssimo e o difícil ou tortuoso. Assim é o caminho da vida.
- Sua vivência batismal se reduz a algumas práticas religiosas egóicas? Ou ela tem a marca de Jesus que, após seu batismo, viveu o compromisso com os pobres e excluídos até a radicalidade?
Para “viver o batismo”, é preciso tornar-se velejador de mar aberto, livre e desprendido, abrir-se para o novo e diferente, deixando-se conduzir pela correnteza do rio... e “passar para a outra margem”.
Essa “travessia” exige mudança de atitude, pôr-se a caminho, êxodo, sair-de-si... Sair da margem conhecida, velha, rotineira... para encontrar a nova margem da relação, do compromisso, dos sonhos...; lugar provocador de mudanças, de onde brotam as grandes experiências, as intuições, os ideais vitais...
Talvez por isso, também nós não tenhamos reconhecido Cristo em nosso batismo. Porque O temos buscado em outras filas, em outros rios e com outros “joãos”. Falta-nos uma iluminação do céu para escutar a voz do Pai e reconhecer a Cristo detrás de nós, ou adiante, ou ao lado, como um de tantos.
Recolhamos o essencial do relato do Batismo no qual somos convidados a escutar, como Jesus, essa Voz que indica nossa raiz divina e nossa dignidade humana, nossa identidade de filhos e filhas, cuja consequência nos compromete a olhar os outros como irmãos e irmãs, na solidariedade incondicional, na igualdade enquanto dignidade, direitos e oportunidades.
O importante para nós é buscar descobrir o que aconteceu no interior de Jesus e ver até que ponto podemos nos aproximar dessa mesma experiência.
Só aqueles(as) que se submergem nas águas amorosas da graça, saem empoderados de Espírito e filiação. E vão descobrindo o lugar, a sua missão, a sua maneira original de viver o seguimento de Jesus.
- Oxalá, ao ler ou escutar o evangelho de hoje, sintamos uma sacudida interior e nos despertemos ao perceber que, em Jesus, todos fomos citados pelo Deus-Abbá: “tu es meu(minha) filho(a) amado(a)”.
- Oxalá, o Espírito Santo nos ajude a compreender que somos filhos(as) amados(as), não servos(as); e que fomos salvos gratuitamente. Se descobrirmos que todo ser humano é filho(a) amado(a), terá acontecido um milagre.