O socialismo vence em Nova York – e o que isso quer dizer para o Brasil. Artigo de Hugo Albuquerque

Foto: Bryan Berlin | Wikimedia Commons

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07 Novembro 2025

Eleições da principal cidade americana mostram que os socialistas seguem vivos, ousados e viáveis, dentro de um contexto dramático no resto do mundo. Quais as lições de Mamdani que podemos absorver?

O artigo é de Hugo Albuquerque, publisher da Revista Jacobina, editor da Autonomia Literária, mestre em direito pela PUC-SP e advogado, publicado por Jacobina, 05-11-2025.

Eis o artigo.

Se Hollywood sedia a indústria cinematográfica dos Estados Unidos, o carro-chefe do seu aparato cultural, é Nova York a metrópole que representa sua imagem — e do mundo neoliberal. Agora, um socialista vence pela primeira vez na cidade. E não apenas isso: ele é um imigrante e muçulmano, que protagonizou uma campanha sofisticada, irreverante e poderosa. Zohan Mamdani venceu contra tudo e contra todos, seja o presidente Donald Trump ou mesmo a cúpula do Partido Democrata.

Sem medo de abraçar causas tão necessárias quanto duramente reprimidas, como a Palestina ou a especulação imobiliária, Mamdani é uma pulsão de vida em meio a um processo distópico. Ele chega precisamente em um momento no qual a esquerda está em crise em todo o Ocidente — e a extrema direita avança em toda parte como a expressão perfeita, e implacável, do neoliberalismo tardio. Parafraseando Mark Twain, as notícias sobre a morte da esperança foram manifestamente exagerados.

Na metrópole que materializa o estado da arte do capitalismo, a tese de que as circunstâncias nos obrigam a uma escolha de Sofia entre extrema direita e o liberalismo cai por terra. Mamdani venceu as prévias democratas contra Andrew Cuomo, um ex-governador nova-iorquino que sintetiza a decadência da rendição ao realismo capitalista. Depois, nas eleições, enfrentou o mesmo Cuomo, enquanto candidato independente, e os republicanos. Eis que ele ganhou mesmo assim.

Para Donald Trump, um homem da televisão, é uma acachapante derrota. Ainda que esteja hoje sediado na Flórida e tenha o voto da chamada “América profunda”, Trump é um nova-iorquino por exelência e sabe qual a importância de uma fotografia final dessas — vide seu empenho nos últimos dias, mobilizando eleitores contra Mamdani, mesmo que fosse para votar em Cuomo, um rival dentro da polaridade fraca entre extrema direita e liberais.

Para o marxismo, que sabe bem a importância do conceito de tendência real, a vitória de Mamdani aponta para um horizonte possível, depois derrotas duras nos últimos anos. Mas a lição aqui, que se manifestou em parte nas últimas eleições legislativas da França de 2024, é de que o caminho do centrismo e a rendição ao neoliberalismo é uma falácia. Para o Brasil de refluxo das esquerdas, temos uma luz no fim do túnel, e dessa vez não é um trem vindo nos atropelar.

A cidade símbolo do neoliberalismo corroída pela desigualdade e pela pobreza

Como apontamos há alguns meses, quando da vitória de Mamdani nas prévias democratas, Nova York se tornou a expressão real da falência do sonho americano: desigual, com milhões de pobres, migração em massa de moradores que não suportavam mais o custo de vida, mas mantida sob esse funcionamento entrópico pelos ditames do mercado e seus interesses — nada diferente do beco sem saída de metrópoles como São Paulo, Lisboa ou Londres.

Mamdani tem origem étnica indiana, mas nasceu em Uganda — um dos países mais pobres da África e, ao mesmo tempo, terra de uma diáspora importante do Sul da Ásia. Sua trajetória ilustra a de milhões de imigrantes que se tornaram o coração da economia de serviços da Grande Maçã, mas que via de regra estão longe de usufruir da sua riqueza. Ele, em particular, é filho de intelectuais de origem indiana, mas nem por isso deixa de ser impressionante sua vitória.

Com mais bilionários do que todo o Brasil, apesar de ter apenas cerca de oito milhões de habitantes, hoje os pobres e miseráveis somam mais de um milhão na cidade. Enquanto isso, grandes corporações lucram com aluguéis e a economia de serviços da cidade vitrine dos Estados Unidos. O capitalismo, portanto, foi contraditado na sua capital própria, que importa suas inovações para todas as partes, criando um plot twist narrativo.

Sem se isentar de falar sobre Palestina, Mamdani, que é muçulmano, venceu na cidade que também possui a mais importante diáspora judaica do mundo, sobretudo no Queens — que é, por sinal, também o distrito natal dele. Sem tergiversações ou fugas, Mamdani falou de Nova York primeiro, sem colocar o sionismo à frente e marca um poderoso recado a Israel e ao governo particularmente implacável de Benjamin Netanyahu, o carrasco de Gaza.

Nem tudo são flores, como era de se esperar, uma vez que prefeitos têm menos poder nos Estados Unidos do que em um país como o Brasil, e ele dependerá de repasses federais e estaduais que podem ser cortados. Mas sua vitória política é incontornável e boicotes terão um custo pesadíssimo para os resposáveis, principalmente se o governo estadual, que é democrata, resolver endossar a fúria que Trump lhe reserva desde a Casa Branca.

O futuro do socialismo e o que isso quer dizer para o Brasil e a América Latina

O ano de 2024 foi marcado por derrotas importantes nas eleições municipais para as esquerdas. Um ponto que nos atravessa, mesmo em uma realidade, em princípio, superior a americana em termos organizativos a americana — onde não há um partido de massas genuinamente de esquerda — foi adotar uma linha recuada, cortando para o centro, que mesmo assim se saiu derrotada: não atraiu eleitores novos e ainda desanimou as próprias bases.

É certo que é do Sul Global e não do Norte que virá a mudança no mundo. Mas negar a importância da vitória de imigrante muçulmano e socialista, ainda mais na vitrine do capitalismo global, é assumir a dicotomia entre o mundo explorador e o mundo explorado de forma maniqueísta. Ou negar a própria vitória do Sul Global na maior expressão do Norte Global — mas com um programa socialista, e não um populismo vago.

Antes, a vitória relativa da esquerda francesa, nas últimas eleições legislativas daquele país, parecia ser o máximo que uma proposta socialista — que combinasse a defesa da Palestina, dos imigrantes e da classe trabalhadora precarizada no contexto do neoliberalismo tardio — poderia chegar. Ainda há chão, apesar da crises do progressismo latino-americano, que parece ter mais fôlego justamente nas suas vitórias tardias, como Colômbia e México, do que no resto do continente.

Ironicamente, o que resiste na América Latina é, justamente, onde se optou por não recuar — não só em termos retórico como práticos, mesmo sob forte cerco e ameaça dos Estados Unidos. Talvez seja hora de se optar pela coragem e não pela retranca, ainda mais com inúmeras questões para o futuro, e os desgastes insuportáveis de se manter uma tática de defesa passiva, só às vezes recompesada pelos erros dos adversários — como no caso brasileiro, onde a extrema direita é generosa nesse sentido.

Novamente, para os apologistas do Fim da História, temos uma noite ruim — assim como para a extrema direita global, que apesar de todo empenho de seu ramo americano, viu uma derrota não para um liberal, mas para uma figura radicalmente socialista. O campo está aberto, mesmo que estejamos diante de uma dramática emergência global. Os povos, contudo, insistem em resistir, tendo a classe trabalhadora como seu grande motor.

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