01 Abril 2025
Não os chamem de acordos de paz. O que o governo Trump está buscando em vários países devastados por conflitos são mais negócios econômicos. Da Ucrânia ao Afeganistão e à República Democrática do Congo, a mão estadunidense visa ganhar dinheiro. O negócio imobiliário da Riviera Gaza é apenas o exemplo mais flagrante.
A reportagem é de Anna Maria Brogi, publicada por Avvenire, 28-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Das terras raras e usinas nucleares da Ucrânia aos minerais do Congo, a corrida para garantir recursos energéticos e matérias-primas para tecnologias de defesa e espaciais, bem como sucessos em prol do consenso interno, dita a agenda da política externa dos EUA. Como “negócios são negócios”, qualquer um pode se tornar interlocutor. O enviado estadunidense Adam Boehler negociou diretamente com o Hamas, que até mesmo para Washington é uma organização “terrorista”.
O principal dossiê é aquele dos minerais críticos e das terras raras, os 17 elementos químicos cruciais para a construção de caças F-35, drones e submarinos nucleares. A China controla 70% da mineração global e 85% do processamento. O Wall Street Journal lembra que dois terços das terras raras extraídas nos EUA são enviados à China para processamento. Quanto aos minerais essenciais, a China refinava 65% do cobalto do mundo em 2018, aumentando para 83% em 2024. “Temos uma necessidade enorme de terras raras. Eles as têm em grandes quantidades”, disse Trump sobre a Ucrânia. A barganha não é apenas garantir para si novos locais de mineração, mas instalar instalações de processamento no lugar.
Em nome da paz. Que melhor garantia de segurança, disse Trump a Zelensky, do que empresas estadunidenses em solo ucraniano? A mineração de terras raras causa erosão e perda de biodiversidade. Uma tonelada de “terras” refinadas produz duas mil toneladas de resíduos tóxicos, além de poluição hídrica.
“O problema não é a perfuração, mas o refino”, explicou o especialista do setor John Ormerod ao WSJ.
Nos EUA, o setor de processamento tem que lidar com as regulamentações ambientais. Uma unidade de beneficiamento de níquel prevista para o Minnesota foi transferida para Dakota do Norte devido à oposição local, e as obras ainda não começaram. O projeto de outra no Texas da australiana Lynas, financiada com US$ 258 milhões, está parado há dois anos. Trump assinou uma ordem executiva para acelerar os licenciamentos e financiar novas unidades, mas os resultados levarão tempo. “Uma das coisas que faremos muito rapidamente”, garantiu ele, “é concluir um acordo sobre as terras raras de Kiev, que são muito valiosas”.
Na África, o baú do tesouro dos minerais se chama República Democrática do Congo. Aqui também há uma guerra no Leste, dos milicianos do M23 apoiados por Ruanda contra o governo de Kinshasa. E aqui, também, o interesse estadunidense entra em jogo, em direta competição com a China.
Na década passada, as empresas estadunidenses saíram do Congo, que era considerado pouco lucrativo devido à instabilidade política e regulatória e à corrupção. A China se aproveitou desse fato. Agora, Washington avalia o acesso aos direitos de exploração mineral em troca do apoio político e militar pedido por Kinshasa para enfrentar Ruanda, até então apoiada, vejam só, pelos EUA.
“A colaboração com empresas estadunidenses fortaleceria ambas as economias”, disse um porta-voz do Departamento de Estado ao Financial Times, “integrando a RDC às cadeias de suprimentos globais”. Não é coincidência que os presidentes “inimigos” Félix Tshisekedi e Paul Kagame tenham se encontrado no Catar.
Eles dispensaram a mediação de Angola em favor do papel do aliado de Washington. Foi também em Doha que o acordo entre os EUA e o Talibã foi assinado durante o primeiro governo Trump, prelúdio para a retirada do Afeganistão. Nos últimos dias, o enviado dos EUA, Boehler, reuniu-se com o ministro das Relações Exteriores do Talibã, Amir Khan Muttaqi. E ele trouxe para casa um cidadão estadunidense que estava preso há três anos em Cabul. Por sua vez, Washington retirou a recompensa de dez milhões de dólares pelo ministro do Interior, Sirajuddin Haqqani, e a recompensa de cinco milhões de dólares por dois outros líderes.
O preço é justo? Há algumas coisas que não podem ser compradas, parecem responder o Canadá e os groenlandeses, depositários de recursos energéticos e minerais que o derretimento das geleiras e a tecnologia subitamente deixam acessíveis, além de tornar aquelas terras locais estratégicos na corrida militar ao Ártico. Aqui não há acordos de “paz” a serem assinados.
Resta saber quais cartas tirará da manga o negociante Trump. E, acima de tudo, quem pagará a conta.