01 Abril 2025
"Por que aquele “eliminar os palestinos” não escandaliza, como se ideias assim fizessem parte do novo normal? Poderíamos explicar isso com uma aversão genérica aos palestinos ou com uma espécie de desgaste da opinião pública, como se a prontidão para reagir tivesse sido saturada por guerras que já estão acontecendo há muito tempo", escreve Guido Rampaldi, jornalista, publicado por Domani de 27-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Vamos tentar imaginar o que aconteceria se um site italiano hospedasse uma invectiva contra os judeus, um discurso que partisse da tese clássica do antissemitismo - os judeus são perniciosos onde quer que vivam - para chegar a uma conclusão genocida: “Eles devem ser eliminados”. Eliminados até o último, “porque eles são como um câncer, e vocês sabem que não é possível eliminar um câncer em 80%, ele deve ser totalmente extinguido”. Os responsáveis pelo site provavelmente seriam denunciados por instigação ao ódio, os colaboradores seriam considerados estúpidos racistas e os usuários seriam vistos com suspeitas. Seguir-se-ia uma saudável indignação e polêmicas furiosas. Agora, vamos substituir “judeus” por “palestinos” e teremos o vídeo que está há dias na primeira página do site Informazionecorretta.com sem que ninguém até agora tenha protestado, investigado, intimado.
Argumentando que não apenas o Hamas, mas em geral “os palestinos são um câncer e devem ser eliminados”, é a estadunidense-libanesa Brigitte Gabriel. Sua declaração, dada a um entrevistador amigável, foi transmitida por uma estação de TV de Las Vegas. O site italiano que a retransmitiu foi fundado em 2001 por Fiamma Nierenstein, ex-senadora de Forza Italia, e Angelo Pezzana, um radical, e seu frontispício apresenta uma bandeira israelense agitada animadamente.
Todas as manhãs, seu comunicado de imprensa lista os artigos que apareceram na mídia italiana considerados dignos e os execrados. O fator de discriminação é a atitude em relação ao governo Netanyahu, do qual o Informazionecorretta.com é um fervoroso apoiador. No momento, estão na mira da crítica os “falsos judeus”, como Moni Ovadia e Gad Lerner, e os jornalistas do Corriere Giusi Fasano e Davide Frattini, da Rai Lucia Goracci, e da Mediaset Elia Milani: seria preferível, ao que parece, que fossem substituídos por colegas apreciados pelo site.
O Informazionecorretta.com desempenha funções didáticas: mostra sem restrições o que existe no coração da direita israelense, da qual representa uma espécie de filial italiana; e explica, justificando-as, as políticas do governo Netanyahu, quase como se fosse uma ramificação dele.
Mas, acima de tudo, oferece um exemplo dessa direita radical global na qual convergem os apoiadores internacionais de Netanyahu, os EUA trumpianos e os partidos que em Estrasburgo formam o grupo Patriotas pela Europa (da Liga a Orbán, aos espanhóis do Vox, aos franceses de Marine Le Pen, com o Likud recentemente agregado no papel de “observador”). Essa anti-Europa compartilha hostilidades - UE, migrantes, árabes, muçulmanos, LGBT - mas não se pode dizer que tenha elaborado uma ideologia clara, embora os trabalhos estejam em andamento. Mas está criando uma atmosfera.
Que fique claro, argumentar de forma abstrata que um grupo humano deve ser eliminado não é o mesmo que se empenhar para eliminá-lo. Poderíamos considerar este “eliminar os palestinos” uma expressão bombástica vazia, uma provocação arrogante. Mas na medida em que é proposta enquanto uma parcela, ainda que pequena, dos palestinos está sendo efetivamente eliminada, no mínimo devemos suspeitar que aqueles que não a consideram repugnante não protestariam se o massacre fosse estendido ao extermínio total, um genocídio. Ou se outro grupo humano considerado contíguo àqueles a serem exterminados, por exemplo, aqueles no Ocidente que se opõem veementemente à guerra israelense, fosse perseguido, detido e exilado. É por isso que a decisão do Informazionecorretta.com de transmitir o vídeo e, acima de tudo, a falta de reação também dizem respeito a todos nós.
Por que aquele “eliminar os palestinos” não escandaliza, como se ideias assim fizessem parte do novo normal? Poderíamos explicar isso com uma aversão genérica aos palestinos ou com uma espécie de desgaste da opinião pública, como se a prontidão para reagir tivesse sido saturada por guerras que já estão acontecendo há muito tempo. O fato é que parece estar crescendo uma indiferença generalizada em relação aos direitos humanos e às violações dos mesmos. Como, afinal, as pesquisas sobre a guerra na Ucrânia também confirmam: exceto aqueles 15% que incrivelmente estão ao lado de Putin e daqueles 30% que permanecem do lado de Kiev, a maioria se declara “neutra”.
A sobreposição de uma identidade étnica e de uma identidade política é uma operação típica daqueles nacionalismos que retratam o adversário como uma entidade dupla, estrangeira e doméstica. Está diante, mas também às nossas costas, onde opera como uma quinta coluna. É gente estranha à nossa comunidade, mas também um pensamento político. É “o inimigo interno”, uma definição que Trump e Vance atribuem tanto a migrantes ilegais, considerados potencialmente como assassinos e terroristas, e a migrantes naturalizados ou em processo de naturalização, se tiverem crenças do desagrado do governo, quanto a liberais que defendem seus direitos: aqueles que estão do lado do invasor só podem ser traidores.
Essa retórica encontra seus equivalentes na Europa, também naqueles setores moderados e conservadores, onde a categoria de “islamo-gauchisme” está em alta, inicialmente usada para condenar a esquerda radical (que também tem suas culpas), depois direcionada pela academia francesa a escolas de pensamento indesejáveis, como a interseccionalidade, e finalmente usada com desinibição contra qualquer um que defenda causas humanitárias.
Enquanto os governos europeus assistem sem reação apreciável o movimento estadunidense-israelense em direção à “limpeza étnica” na futura Riviera de Gaza, talvez por meio da “deportação voluntária” de uma parte dos habitantes, vale a pena lembrar o sermão do Padre Martin Niemöller: “Quando os nazistas levaram os comunistas, eu me calei, porque, afinal, eu não era comunista. Quando eles prenderam os socialdemocratas, eu me calei, porque, afinal, eu não era socialdemocrata. [...] Quando eles me levaram, não havia mais quem protestasse”.