28 Março 2025
"A maior culpa de Ballal não é apenas ter documentado como se vive, oprimidos e ameaçados, em um vilarejo da Cisjordânia. É ter realizado o seu filme com um pequeno coletivo israelense-palestino, demonstrando, nos fatos, que não apenas a convivência, mas também a consonância, a solidariedade e até mesmo a ação comum são possíveis: bastaria querer", escreve Michele Serra, jornalista, escritor e roteirista italiano, em artigo publicado por Domani, 26-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O espancamento e a prisão do jovem cineasta palestino Hamdan Ballal é praticamente uma sequência de seu documentário No Other Land, com o qual acaba de ganhar um Oscar. O filme relata o clima de intimidação, subjugação e violência imposto aos palestinos da Cisjordânia, o vasto território (maior do que Gaza) ocupado por Israel em 1967 e o teatro, especialmente nos últimos anos, do supremacismo étnico (como defini-lo de outra forma?) por parte dos colonos que o consideram, de forma totalmente ilegítima e armas em punho, propriedade deles. A começar pela renomeação arcaica dos lugares: Judeia e Samaria, como está escrito na Bíblia.
Colono judeu ameaça est*prar cineasta palestino Hamdan Ballal "em nome de Deus".
— FEPAL - Federação Árabe Palestina do Brasil (@FepalB) March 27, 2025
Em vídeo de 4 agosto de 2024, colono judeu Shem Tov Luski invade a casa do palestino vencedor do Oscar Hamdan Ballal na Cisjordânia Ocupada.
Shem, o mesmo colono que atacou Hamdan essa semana, faz… https://t.co/Yu5Xy1SQGJ pic.twitter.com/IJXEFj8LMo
Ao voltar para sua casa (sua casa!), Ballal foi primeiro ameaçado, depois espancado por alguns colonos (encapuzados como a Ku Klux Klan) e, por fim, preso pelo exército israelense, de modo que ficou claro que esse exército, que nasceu para fins defensivos, agora age em trágica sintonia com os atores mais agressivos e intolerantes da sociedade israelense. Ele foi libertado depois de algumas horas, também em virtude da indignação da opinião pública de meio mundo.
A maior culpa de Ballal não é apenas ter documentado como se vive, oprimidos e ameaçados, em um vilarejo da Cisjordânia. É ter realizado o seu filme com um pequeno coletivo israelense-palestino, demonstrando, nos fatos, que não apenas a convivência, mas também a consonância, a solidariedade e até mesmo a ação comum são possíveis: bastaria querer. Isso é intolerável para os fanáticos, que vivem de ódio e isolamento, e sem ódio e isolamento se sentem perdidos. E os fanáticos, hoje, são os donos da cena.
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