27 Março 2025
A história da humanidade é a história de suas migrações. No entanto, a imigração se transformou no cavalo de batalha em todo o espectro político. Após três décadas de pesquisas, o sociólogo holandês Hein de Haas publicou Los mitos de la inmigración (Península), um vasto ensaio no qual desfaz os falsos mantras que circulam sobre o que ele chama de “o tema que mais nos divide”.
A entrevista é de Mariana Toro Nader, publicada por Ethic, 24-03-2025. A tradução é do Cepat.
Quando perguntados sobre qual é o principal problema que existe na Espanha hoje, um em cada três espanhóis respondeu: “A imigração”. Em questão de meses, a inquietação passou do nono para o primeiro lugar, de acordo com dados do Centro de Pesquisas Sociológicas. Por que a imigração é a principal preocupação da opinião pública hoje?
Isso reflete principalmente o discurso político. Nas pesquisas de opinião pública na Europa, a imigração aumenta e diminui como um assunto de preocupação pública, independentemente das tendências migratórias. Por exemplo, na Espanha, durante anos, não foi um tema público importante, embora o país tenha vivido níveis bem altos de imigração nas últimas décadas.
Portanto, a ascensão repentina ao topo da agenda política reflete principalmente o fato de os políticos utilizarem cada vez mais o tema para conquistar apoio e vencer eleições. É claro que, além dos benefícios econômicos, a imigração pode causar problemas reais, mas os políticos tendem a exagerar sua dimensão em uma tentativa de retratá-la como uma grande ameaça e transformar os imigrantes em bodes expiatórios por problemas sociais que não causaram.
Você diz que os políticos estão sucumbindo à concorrência para “ver quem consegue assustar mais recorrendo à imigração”...
Transformar os imigrantes em bodes expiatórios desvia a atenção da busca por soluções reais para problemas reais, como salários baixos, instabilidade no emprego, desemprego, insegurança e falta de moradia acessível. Estes têm pouco a ver com a imigração, mas os políticos que resistem às reformas em prol da igualdade, da redistribuição econômica e dos direitos dos trabalhadores, efetivamente, utilizam os imigrantes para evitar a realização dessas reformas.
Além disso, cria divisão social ao colocar nativos e imigrantes uns contra os outros. Obviamente, isto é ruim para a coesão social. Quando os imigrantes sentem que não são aceitos, que são rejeitados ou discriminados, isto também impede a sua integração, gerando problemas de segregação e criando uma subclasse de trabalhadores migrantes.
Por que a xenofobia se tornou uma arma política tão eficaz? Uma espécie de cortina de fumaça para acobertar as causas estruturais do mal-estar social…?
Porque enquanto as pessoas acreditarem que a imigração é a principal causa dos problemas, essa “falsa consciência” será uma estratégia eficaz para impedir reformas socioeconômicas que levem a menos desigualdade, maior proteção aos trabalhadores, mais moradias acessíveis e serviços públicos melhores.
Enquanto os imigrantes provenientes do Sul Global são estereotipados e caricaturados, aumentam as cidades no Mediterrâneo e em outras regiões que enfrentam a gentrificação por causa da chegada de trabalhadores remotos do Norte com alto poder aquisitivo, que, aliás, raramente são chamados de imigrantes, mas, sim, de ‘expats’. Quanto do discurso anti-imigração corresponde ao tema da aporofobia?
Este é um bom exemplo do que eu chamo de “indignação seletiva”. A imigração de trabalhadores pouco qualificados procedentes do Marrocos, da América Latina e de outros países não europeus, muitas vezes, é apresentada como indesejável, quando não é segredo para ninguém que, na realidade, fazem todos os tipos de trabalhos “essenciais” em setores como agricultura, construção, serviços domésticos e cuidados. Ao mesmo tempo, a imigração de trabalhadores da “classe alta” é quase universalmente aplaudida, embora isto também possa ter efeitos negativos, particularmente no acesso à moradia.
Contudo, também neste caso seria enganoso apresentar a imigração como a causa principal. Na realidade, outros fatores são mais importantes, como o aumento geral das desigualdades econômicas, a falta de financiamento para moradia social e a liberalização das políticas habitacionais. É o que vemos na Espanha e em toda a Europa: a segregação de classes está aumentando, o que é um fato preocupante, pois é uma ameaça potencial à coesão social. Mas, claro, é mais fácil culpar os imigrantes, ao menos enquanto os políticos estiverem com esta de transformá-los em bodes expiatórios.
Da mesma forma, enquanto alguns afirmam que os imigrantes “roubam os empregos”, outros dizem que são a chave para enfrentar o envelhecimento da população. E ao mesmo tempo em que alguns governos conservadores endurecem o discurso anti-imigração, também facilitam a chegada de mão de obra estrangeira. Você chama isto de “lacuna discursiva”. Como este fenômeno pode ser explicado?
Essa é a enorme lacuna entre o “discurso duro” dos políticos populistas sobre a imigração e suas práticas muito mais complacentes e tolerantes. É o que vemos especialmente na direita, mas, na prática, também se aplica a todos os governos, pois estão sob forte pressão de lobbies econômicos para que estabeleçam políticas migratórias mais liberais e façam vista grossa à exploração dos trabalhadores migrantes legais e indocumentados.
O objetivo principal de muitos políticos é criar uma impressão de firmeza e controle, ao passo que na prática abrem cada vez mais as portas para todos os tipos de migração trabalhista, e os níveis de aplicação da lei são mínimos quando se trata de impedir a contratação de trabalhadores indocumentados. Isto mostra a enorme hipocrisia política em torno do tema.
“Dado que em geral estão muito interessados em ficar e obter a permissão de residência, os imigrantes tendem a ficar entre os membros respeitosos ao cumprimento da lei”, argumenta em seu livro. Por que, então, tantas pessoas acreditam que há uma correlação direta entre crime e imigração?
A pesquisa comparativa em nível internacional não demonstrou um vínculo entre os níveis de imigração e os níveis de criminalidade. Na verdade, em muitos casos, a imigração está associada a menos criminalidade. Isto ocorre porque a imigração é seletiva: a maioria dos migrantes é empreendedora e ambiciosa, tem uma forte vontade de ter sucesso por meio do trabalho duro e está motivada pelo desejo de ajudar a família em casa e lhe oferecer um futuro melhor. Portanto, ao contrário do estereótipo do “estrangeiro criminoso”, os imigrantes — legais e irregulares — tendem a ser iguais ou menos criminosos do que os nascidos no país.
Quando a criminalidade é um problema, trata-se muito mais de um problema de membros marginalizados da “segunda geração” entre grupos específicos de migrantes discriminados que experimentaram uma “assimilação descendente”, que vivem em bairros segregados e enfrentam problemas de pobreza, evasão escolar e falta de um emprego estável. No entanto, não se trata de uma questão de raça ou etnia, pois suas taxas de criminalidade são semelhantes às de grupos brancos do mesmo nível socioeconômico. Em particular, o desemprego de longa duração, e não a raça ou origem étnica, leva à criminalidade.
Além disso, os preconceitos tornam os grupos minoritários um alvo desproporcional da violência policial, das prisões e do encarceramento, reforçando a segregação e a desvantagem. Então, além de fazer cumprir a lei de forma eficaz, a redução da criminalidade poderia ser alcançada por meio de políticas que ofereçam aos jovens desfavorecidos melhores oportunidades de mobilidade social por meio da educação e do emprego, independentemente de sua origem racial ou étnica.
Vamos falar agora sobre o paradoxo do controle das fronteiras: “Quanto mais difícil for entrar, mais serão os migrantes que optarão por ficar”. Por que tantos governos buscam endurecer as restrições, se isso rompe a circulação de ida e retorno?
É um dilema para o qual não há solução fácil. Até certo ponto, é compreensível e também legítimo que os estados modernos queiram exercer algum nível de controle migratório, no sentido de quem pode vir, ficar, trabalhar e ter acesso à cidadania. A migração livre só é possível dentro de grandes unidades políticas como a União Europeia. Por isso, “fronteiras abertas” é um slogan tão pouco realista quanto “fronteiras fechadas”. As coisas dão particularmente errado quando os governos tentam restringir a imigração, enquanto negam os fatores que a impulsionam. A principal razão de seu aumento não tem nada a ver com refugiados: esses números são relativamente pequenos e estáveis a longo prazo.
Então, qual é a razão?
A verdadeira razão para o aumento da imigração na Espanha e em outros países ocidentais é a persistente escassez de mão de obra. Estive no Senegal e no Marrocos, no verão passado, e os jovens sabem que há empregos na Espanha e que isto é amplamente tolerado. É uma ilusão pensar que é possível impedir que as pessoas venham. Nessas circunstâncias, os controles de fronteira desviam a migração para outros canais. Mas o efeito não desejado mais importante é que impede que as pessoas retornem. Quanto mais caro e arriscado for vir, menos pessoas retornarão por medo de não poder voltar. Assim, as restrições migratórias forçam os migrantes temporários a se estabelecer permanentemente, e a decisão de ficar posteriormente acarretará a migração de membros da família.
É assim que os controles nas fronteiras entre o México e os Estados Unidos transformaram um fluxo que em grande medida era de ida e retorno em uma população estabelecida de cerca de 11 milhões de mexicanos nos Estados Unidos. Da mesma forma, a introdução do visto Schengen, em 1991, transformou o fluxo circular de trabalhadores marroquinos para a Espanha em uma população permanentemente estabelecida. As restrições que ignoram as evidências científicas, muitas vezes, possuem efeitos contraproducentes, pois a concentração apenas nas entradas ignora como as restrições afetam o processo geral de circulação.
É possível sair do “trilema migratório” no qual você alerta que as democracias liberais estão presas?
É muito difícil, pois parece impossível conciliar esses três objetivos políticos: manter uma abertura econômica que estimulou a imigração e, ao mesmo tempo, respeitar as preferências de grupos de cidadãos que exigem mais restrições migratórias, respeitando por sua vez os direitos humanos dos estrangeiros. Os lobbies econômicos pressionam os governos a manter as fronteiras abertas e tolerar a exploração de trabalhadores migrantes, enquanto os direitos humanos significam que os solicitantes de asilo e os trabalhadores indocumentados não podem ser simplesmente deportados e merecem proteções básicas.
Tudo isso é difícil de conciliar com as promessas ousadas dos políticos de que “serão duros” com a imigração. Uma das formas que os políticos adotam para encontrar uma saída é o uso da retórica dura e medidas de controle da fronteira muito visíveis, como a construção de muros e cercas. Esta estratégia pode ajudar a dissimular, mas não resolverá o “trilema” da imigração. Não é possível ter uma liberalização econômica e estimular o crescimento econômico, por um lado, e reduzir drasticamente a imigração, por outro.
E para encerrar, por que é tão importante superar o debate dicotômico e simplista “pró/anti” imigração?
Porque esse debate não só cria divisão ao colocar as pessoas umas contra as outras, como também não resolve nenhum problema. Só piora a situação. Por mais de três décadas, a Europa tenta fechar suas fronteiras para criar uma “fortaleza europeia”. E fracassa sistematicamente. De fato, as políticas estão destinadas a fracassar a longo prazo porque estão entre as próprias causas dos problemas — como a imigração ilegal, o contrabando e a exploração de trabalhadores migrantes — que pretendem resolver. Precisamos de um verdadeiro debate sobre a imigração.
No atual clima polarizado, os setores anti-imigração exageram enormemente os problemas que possam vir dela, ao passo que os setores pró-imigração exageram enormemente em seus benefícios. O que se perde é a ponderação. Precisamos urgentemente que os políticos tenham a coragem de contar uma história real sobre a imigração, como um fenômeno que tem lados positivos e negativos para diferentes grupos da sociedade, mas que é algo que não podemos pensar, nem desejar que desapareça. Isto abrirá as portas para um debate mais criterioso e para o desenvolvimento de políticas que melhorem os benefícios da imigração — e previnam os efeitos negativos —, em vez de políticas de negação do passado que não resolveram os problemas, mas, ao contrário, pioraram.