Não são migrações, são um êxodo. Artigo de Maria Antonieta Calabrò

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22 Setembro 2023

Aqueles que enganam a população italiana com hipotéticos bloqueios navais devem lembrar que o bloqueio continental também se revelou um bumerangue para Napoleão.

A opinião é de Maria Antonieta Calabrò, jornalista, em artigo publicado por Huffington Post, 21-09-2023.

Eis o artigo.

O Papa Francisco parte amanhã para dois dias em Marselha para encontros no Mediterrâneo em grande parte dedicados ao tema das migrações. É interessante que numa das suas últimas declarações Francisco sublinhou que a abordagem não deve ser assistencial, na qual mesmo uma grande parte das associações, especialmente as católicas, permaneceram limitadas durante todos estes anos.

O Papa tem razão e não porque seja um “ipse dixit”. A questão é que já passaram dez anos desde que a coroa de flores foi lançada ao mar de Lampedusa (que foi a primeira viagem do pontificado) pouco ou nada se “pensou” e “agiu” sobre a real extensão do fenômeno. Culpada por parte da política. A direita que se refugiou em gritos de segurança como “estrangeiros não podem passar”, até que o “problema” explodiu nas suas mãos em 2023, com um número recorde de desembarques.

A esquerda, por outro lado, tem apostado em cooperativas de “acolhimento” que “ganham” dezenas de euros por migrante e que muitas vezes resolvem o problema de quem aí trabalha: ajudam certamente, como um “pronto-socorro”, mas não impedem que os migrantes sejam recrutados em redes criminosas e de tráfico de drogas, nem retirá-los da degradação humana que alimenta a violação e a violência, despertando o alarme dos cidadãos, em particular dos mais pobres, aqueles que vivem nas periferias das nossas cidades. Em suma, a esquerda não foi capaz de desenvolver uma estratégia política e social. Sem falar na relação fracassada com a Líbia, apesar dos vários anos passados no governo do país.

Entretanto, na Itália e na Europa a população está a envelhecer inexorável e estruturalmente e pequenos subsídios não ajudarão. Em especial, porque só recentemente a opinião pública começou a perceber que ter poucos filhos (abster-se da revolução de 1968 e dos movimentos feministas) não é nada bom, enquanto o nosso país foi reduzido a uma economia spritz. Sem falar no mundo acadêmico italiano (e no Vaticano, que também tem muitas academias e um centro de pensamento como a Universidade Católica cuja revista se chama “Vita e Pensiero”). É uma pena que em 2013 (há dez anos, e mais recentemente Gordon Hanson e Craig McIntosh, dois eminentes economistas americanos da Universidade da Califórnia, num ensaio publicado no Journal of Economic Perspectives, e também baseado no processamento de dados das Nações Unidas pelo Bnl Study Center), afirmaram que a Nigéria em 2040 terá sozinha tantos habitantes como os países da zona euro. E ilustraram como as diferenças nas tendências demográficas e nas perspectivas de desenvolvimento econômico, que ao longo dos últimos trinta anos impulsionaram uma forte pressão migratória do México para os Estados Unidos, da mesma forma que as diferenças nas tendências das taxas de fertilidade e das condições de emprego continuarão a sustentar a pressão migratória da África Subsaariana em direção à Europa nos próximos trinta anos (isso mesmo, nos próximos trinta anos).

Entretanto, é claro que no Sahel a situação piorou muito devido às alterações climáticas, com as temperaturas a tornarem-se intoleráveis para qualquer assentamento humano, e devido à guerra na Ucrânia, onde o trigo é apenas mais uma arma de destruição maciça nas mãos de Moscou.

Aqueles que enganam a população italiana com hipotéticos bloqueios navais deveriam lembrar que o bloqueio continental também se revelou um bumerangue para Napoleão. Só aliando-se a África a Europa será capaz de sobreviver e retirar o continente que domina o nosso mar do desejo de poder dos russos e chineses, e sobreviver a si própria.

Aqui é preciso tomar consciência de tudo isto: não são migrações, são êxodos.

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