25 Março 2025
Quando o cessar-fogo em Gaza parecia assegurado, o povo que deixara a área e fazia o movimento de retorno ao que restou de suas casas e pensar em reconstrução, eis que bombas e ataques das forças israelenses voltaram a matar... civis, incluindo, segundo notícias, 130 crianças.
A reportagem é de Edelberto Behs.
A diretora do Serviço Mundial da Federação Luterana Mundial (FLM), Maria Immonen, veio a público: “As crianças da Palestina e de Israel merecem crescer em paz, não com medo e ódio. Como pessoas de fé, recusamo-nos a aceitar que a violência é inevitável. A paz não é apenas possível: é o único caminho a seguir”.
Em declaração pública, a FLM expressou consternação e condenou o rompimento do cessar-fogo em Gaza e a retomada dos ataques aéreos israelenses. Condenou, também, o bloqueio de ajuda humanitária à população desalojada de seus lares. Civis devem ser protegidos, assegura o organismo ecumênico, assim como todas a infraestrutura civil de Gaza.
Mas no espectro religioso, há quem não enxergue os acontecimentos em Gaza dessa perspectiva. Ex-professor de Direito na Harvard Law School, o Dr. Alan Dershowitz lançou um manual de 64 páginas dirigido a um público-alvo – a atual geração de estudantes universitários e do ensino médio dos Estados Unidos –, sob o título The Ten Big Anti-Israel Lies and How to Refute them with Truth (As dez grandes mentiras anti-Israel e como refutá-las com a verdade).
O manual foi elogiado e recomendado pelo ex-presidente do Seminário Evangélico do Sul e ex-presidente da Comissão de Ética e Liberdade Religiosa da Convenção Batista do Sul, Dr. Richard Lang, em matéria para o portal The Christian Post.
“Este livro – escreveu Lang – foi criado para ser, e é, uma ferramenta poderosa para divulgar a verdade a uma geração mais jovem de americanos que muitas vezes foram gravemente desinformados sobre o Oriente Médio em geral e Israel em particular”.
Livro "As Dez Grandes Mentiras Anti-Israel: E Como Refutá-las com a Verdade", de Alan Dershowitz (Editora Skyhorse, 2024).
Dershowitz diz no manual que os terroristas palestinos têm usado civis como escudos humanos, até mesmo colocando quartéis militares e esconderijos de armas em escolas e mesquitas. E destaca que em Gaza, “as Forças de Defesa de Israel mataram menos civis em relação aos combatentes do que qualquer nação na história que lutou contra terroristas que usam civis como escudos humanos”. A comprovar!
Mas Dershowitz omite, ou esqueceu de mencionar, por exemplo, que o terrorismo também foi o método usado por quem lutava pela implantação de um Estado de Israel.
Assim, em 22 de julho de 1946, terroristas da organização sionista Irgun (Organização Militar Nacional), em ataque elaborado por Menachem Begin, implodiu sete andares da ala sul do Hotel King David, em Jerusalém, matando 91 pessoas – 28 britânicos, 41 árabes, 17 judeus e cinco de outras nacionalidades –, e ferindo mais de 100 pessoas.
No Hotel King David funcionava a administração do mandato da Palestina, atribuído pela Sociedade das Nações ao Reino Unido. O ataque foi uma represália à ação dos ingleses, que em 29 de junho de 1946 ocuparam as oficinas da Agência Judaica, o que levou o Irgun a atacar o hotel.
Indagado pelo jornalista Russell Warren Howe se poderia ser considerado o pai do terrorismo no Oriente Médio, Menachem Begin, já primeiro-ministro, respondeu: “Não só [no Oriente Médio], mas em todo o mundo!” Então está!
No esclarecedor manual, Dershowitz poderia ter mencionado a controversa política de Benjamin Netanyahu, o primeiro-ministro israelense mais longevo, que apoiou o Hamas em determinado momento para embaralhar o poder palestino, entre o Hamas e a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), por entender que ele era justamente a chave para impedir o surgimento de um Estado palestino.
De acordo com o site conservador israelense Mida, citado por Felix Tamsut, da Deutsche Welle, Netanyahu disse ao seu partido, o Likud, em 2019, que permitir que o dinheiro do Catar chegasse ao Hamas era fundamental para impedir um Estado palestino. “É parte de nossa estratégia: criar uma separação entre os palestinos em Gaza e na Cisjordânia”. Seria mais honesto que o manual de Dershowitz também contasse esses “detalhes”.
Israel reclama a libertação imediata de 59 pessoas, que seguem em cativeiro, vivas ou mortas, de um total de 251 sequestrados em 7 de outubro de 2023 pelo Hamas. São dois cabeçudos medindo forças às custas da população civil palestina.