“Trabalho junto com o Papa Francisco para desmasculinizar a Igreja. Jesus ensina a igualdade perante Deus”. Entrevista com Linda Pocher

Da esquerda para a direita: Jo Bailey Wells, Giuliva Di Berardino e Linda Pocher com o Papa Francisco, após a reunião do Conselho dos Cardeais, a 6 de fevereiro de 2024 | Foto: Instituto Filhas de Maria Auxiliadora

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03 Fevereiro 2025

Freira, teóloga e filósofa, o pontífice confiou a ela a tarefa de trabalhar pela igualdade: “Mulheres diáconas, vamos em frente. Na Igreja, as assimetrias de poder devem ser resolvidas como no resto da sociedade”. “O machismo é uma realidade contrária ao Evangelho, a direção certa é a valorização das mulheres e dos homens”. Palavras do Papa Francisco, que desencadearam um percurso de “desmasculinização” da Igreja, chamado exatamente assim.

A entrevista é de Francesca Visentin, publicada por Corriere Veneto, 19-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Na linha de frente está uma freira, teóloga e filósofa do Friuli, a Irmã Linda Pocher, professora de Cristologia e Mariologia na Pontifícia Faculdade Auxilium em Roma e na Pontifícia Academia Mariana Internacional, a quem o pontífice confiou a tarefa de trabalhar pela igualdade.

A pedido do papa, a irmã Linda Pocher organizou encontros de formação sobre o tema para ele e para o Conselho de Cardeais. Um trabalho reunido no livro Smaschilizzare la Chiesa (Edizioni Paoline) com um prefácio do Papa Francisco, que ilustra as muitas maneiras pelas quais a diferença de gênero foi interpretada e implementada como desigualdade na Igreja. No livro, Linda Pocher, juntamente com Lucia Vantini e Luca Castiglioni, abordam as questões críticas, libertando o Evangelho de interpretações que ocultaram e marginalizaram as mulheres.

O próprio Papa reiterou em várias ocasiões: “Um dos grandes pecados que cometemos foi ‘masculinizar’ a Igreja”, mesmo antes da Comissão Teológica Internacional. Sacerdotes, teólogos e teólogas discutiram essas questões até sábado, 18 de janeiro, em Pádua, na conferência “Desmasculinizar a Igreja? Por uma Igreja de mulheres e homens”, organizada pelo Instituto Superior de Ciências Religiosas de Pádua e pela Irecoop Veneto. E a irmã Pocher reiterou a necessidade de uma presença feminina igualitária na Igreja.

Confira a entrevista.

Irmã Linda Pocher, a igreja marginaliza as mulheres, especialmente no vértice?

O contexto é particularmente masculino e há assimetrias de poder, como em qualquer outra área da sociedade.

O que significa “desmasculinizar” a igreja?

É uma expressão usada pelo Papa Francisco, que sente a necessidade de dar mais espaço às mulheres, eliminar desigualdades. Isso levou a um itinerário de formação com os cardeais. Jesus sempre deu igual dignidade a homens e mulheres. Agora chegou o momento de redescobrir essa boa notícia: igualdade perante Deus.

A senhora explicou que as reflexões contemporâneas partem da comparação crítica do princípio “mariano-petrino” do pensamento de Hans Urs von Balthasar.

É um pensamento que deveria valorizar as diferenças, mas na realidade marginaliza as mulheres ao idealizá-las e funciona como uma legitimação de privilégios e injustiças. Hoje estamos tentando criar uma cultura do 'nós', da complexidade, da interconexão, da liberdade da e na diferença.

E a questão do diaconato feminino?

Os estudos sobre o assunto mostram que não há impedimentos teológicos, mas continua sendo um tema de grande controvérsia, especialmente em nível hierárquico, onde ainda não há acordo. Também foi discutido durante o Sínodo e a grande novidade do Sínodo é justamente o fato de que o Papa deu a possibilidade de discutir em um lugar institucionalmente reconhecido sobre temas que eram quase tabus, como a ordenação das mulheres. Agora um grupo de estudo interno do Vaticano está trabalhando nisso: é um caminho que levará a um resultado.

Quanto tempo mais será necessário para que o diaconato feminino se torne uma realidade?

O Papa quer que haja consenso eclesial suficiente, que ainda precisa amadurecer. Mas é um percurso iniciado.

Hoje, em muitas paróquias, as mulheres, mesmo leigas, devido à escassez de padres, têm a habilitação para dar a comunhão. Uma experiência já em andamento em muitas cidades da Itália, que a diocese de Pádua também está fazendo.

Para a Igreja, a condição da mulher hoje certamente não é a mesma de 70 anos atrás, e esse tipo de realidades já operantes, as ministras e os ministros extraordinários da comunhão, são sinais precisos. O que ainda precisa amadurecer é a parte institucional jurídica.

A igualdade de gênero chegará à Igreja?

É uma questão de justiça. Deve ser realizada porque é justa, não é uma questão de marketing. E no respeito ao Evangelho: Jesus sempre foi além das diferenças de gênero e sempre deu igual dignidade a homens e mulheres. Na origem da experiência cristã há uma forte igualdade perante Deus, é hora de redescobri-la.

A Bíblia é machista?

Se nos desprendermos de visões estereotipadas, na leitura das cenas bíblicas relativas a Maria, vislumbramos uma história de forte protagonismo feminino: além de ser a mãe de Jesus, ela é discípula, educadora, o introduz no mundo experiencial e o leva a abrir suas asas.

Acredita que o diaconato feminino fará aumentar os fiéis ou os afastará?

Haverá novas pessoas que se aproximarão da Igreja e outras ficarão incomodadas com isso e poderão se afastar. Mas é uma mudança justa e necessária.

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