A violência submersa. Homens e mulheres, a coragem de ver

Foto: Pexels

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Novembro 2024

"Há violência mesmo que não haja crime e, na maioria dos casos, de qualquer forma, trata-se de crime. Há violência em tudo que fere a dimensão íntima de uma mulher, que uma mulher sofre contra sua vontade e que limita ou condiciona sua liberdade. E mais: no espaço escavado por essa violência cotidiana - sorrateira, subestimada, muitas vezes mantida em segredo por medo, humilhação, vergonha – encontram raízes o ódio e a maldade que, como gêiseres, muitas vezes explodem no horror absoluto dos abusos, dos espancamentos e dos feminicídios". 

O artigo é de Viviana Daloiso, Antonella Mariani e Chiara Vitali, jornalistas, publicado por Avvenire, 21-11-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Não, não é normal. Não é normal que um colega dê um tapinha na bunda de sua colega de mesa ou que, na frente de outros em uma reunião, faça piadas sobre suas roupas. Não, não é normal que um rapaz instale um rastreador no celular da namorada ou navegue pelos chats privados dela no WhatsApp. Não é normal que uma mulher, ao voltar do trabalho ou de um jantar, seja perseguida até a entrada de casa, ou que um ex-namorado a espere escondido sob o pretexto de um “último esclarecimento”. Não é normal, acima de tudo, que tudo isso seja considerado normal: “O que poderia ser?”, “Isso não é violência”, “Exagerada, é só um elogio”, “Foi você que usou uma saia curta demais”, “Mas você o provocou”. É como se, para poder falar de violência, uma mulher precisasse necessariamente ser morta, estuprada ou espancada.

Tem se discutido muito sobre isso nos últimos dias: o patriarcado não existe mais no papel, porque algumas leis que subordinavam as mulheres ao poder dos homens foram superadas (o ius corrigendi abolido em 1956, o crime de honra em 1981, o estupro que se tornou um crime contra a pessoa em 1996, quando, aliás, foi oportunamente codificada uma visão ampliada e “inclusiva” da violência sexual). Mas é inegável que - chame-o como quiser, patriarcado ou machismo, não é uma questão de definições - resiste nas dobras de nossa cultura compartilhada, nos meandros de nossa sociedade. Italianos ou estrangeiros, é uma distinção que nos desvia do assunto.

As mulheres mais velhas se lembram dos assediadores em série nos transportes públicos (hoje é violência sexual), dos exibicionistas com os sobretudos abertos sobre a nudez fora da escola (idem), dos stalkers profissionais nos parques. As mais jovens vivenciam os mesmos fantasmas e muito mais: controles obsessivos dos celulares, manipulações psicológicas, sexo extorquido com a cumplicidade de álcool e drogas, armadilhas sentimentais montadas pelos meios tradicionais e por aqueles contemporâneos das redes sociais.

Neste 25 de novembro, Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, decidimos pedir a algumas amigas, conhecidas e colegas que contassem “sua” violência. Foi em parte chocante e em parte não para nós constatar que todas tivessem um episódio de assédio ao longo de suas vidas: pequeno ou grande, ele as marcou de várias maneiras, fazendo com que se sentissem pisoteadas, esmagadas, violadas. As histórias estão publicadas nas páginas a seguir: muitas leitoras se espelharão nelas, alguns leitores (homens) ficarão horrorizados ao pensar que suas esposas, irmãs, mães e filhas também têm, estatisticamente, uma grande probabilidade de terem passado por algo semelhante. Outros ainda - esperamos que poucos - pensarão que, afinal, há coisa pior do que ser apalpada ou perseguida até a porta de casa. E aí está, o maior erro: normalizar comportamentos que não são normais. Há violência mesmo que não haja crime e, na maioria dos casos, de qualquer forma, trata-se de crime. Há violência em tudo que fere a dimensão íntima de uma mulher, que uma mulher sofre contra sua vontade e que limita ou condiciona sua liberdade. E mais: no espaço escavado por essa violência cotidiana - sorrateira, subestimada, muitas vezes mantida em segredo por medo, humilhação, vergonha – encontram raízes o ódio e a maldade que, como gêiseres, muitas vezes explodem no horror absoluto dos abusos, dos espancamentos e dos feminicídios. É a “cultura do estupro” que resiste e degrada a nossa sociedade, minando desde as profundezas o jogo da igual dignidade entre homens e mulheres. A partir de 2017, o movimento #MeToo teve o mérito de ter deixado claro, em uma espécie de autoconsciência coletiva global e não sem alguns excessos, que as prevaricações masculinas, as chantagens e as prepotências são generalizadas, também resultado de relações de poder desiguais, e afetam uma porcentagem impressionante de mulheres. E que, no entanto, é possível reagir. Falar.

Curar. E os homens? Seu papel é crucial. Eles podem interromper os ciclos de violência nos contextos em que vivem: na família, no trabalho, na rua. Podem dar um “basta” às dinâmicas mais reacionárias, questionar seus próprios comportamentos e emoções, educar-se, formar-se, escutar.

Acreditar no que as mulheres contam, nas suas sensações e experiências, mesmo quando, por sermos diferentes, pode parecer difícil entender completamente. Até se libertar - quem ainda não o fez - dos resquícios obsoletos de uma cultura antiga, sim, patriarcal e machista. É isso que Gino Cecchettin questiona, nas páginas talvez mais íntimas e comoventes de seu livro “Cara Giulia”, sobre sua própria infância e adolescência ao lado de um pai - em muitos aspectos, filho de seu tempo - para quem as mulheres tinham apenas um lugar para se expressar, a casa, e apenas uma maneira de estar no mundo, a serviço dos homens. Somente assim, libertos, os homens podem fazer a diferença e ser realmente aliados das mulheres. E, quem sabe, talvez nesse processo eles também possam descobrir novas partes de si mesmos e, por sua vez, ser mais livres. Por Giulia Cecchettin e por todas as vítimas desses feminicídios que antes se alimentaram de pequenos abusos cotidianos, decidimos dedicar o “nosso” 25 de novembro às violências escondidas. Ou melhor, submersas. Elas devem ser reconhecidas em nossas vidas e nas vidas de quem está ao nosso lado.

Somente ao reconhecê-las, ao chamá-las pelo seu nome e ao nos convencermos de que não, não é normal que aconteçam, poderão ser eliminadas antes que resultem no irreparável.

Leia mais