07 Novembro 2024
Devemos preparar no conjunto do movimento social, um calendário unitário para enfrentar o pacote, organizando assembleias e plenárias para armar tal batalha. Esta é a única forma coerente de enfrentar a extrema direita, que cresce em meio à crise apostando na desesperança e no individualismo. Não aceitaremos mais retrocessos que vão impactar diretamente na vida da classe trabalhadora, especialmente suas camadas mais vulneráveis.
O artigo é de Israel Dutra e Roberto Robaina, publicado pela revista Movimento, 05-11-2024.
Israel Dutra é sociólogo, secretário de movimentos sociais do PSOL, membro da Direção Nacional do partido e do Movimento Esquerda Socialista (MES/PSOL).
Roberto Robaina é dirigente do Movimento Esquerda Socialista (MES), vereador e presidente do PSOL de Porto Alegre.
Eis o artigo.
A luta contra as propostas de austeridade fiscal do governo federal deve ser a prioridade da esquerda neste momento.
Concluído o processo eleitoral, a agenda política se atualiza. Por um lado, arrancamos de um processo de balanço e perspectivas, que tem sido feito com bastante interesse do ativismo; por outro, existem necessidades imediatas que devem ser atendidas, como a urgência de um plano de lutas contra o ajuste que se aprofunda.
Nos próximos dias, contudo, além de preparar a luta contra o chamado Pacote Antipopular, as atenções estarão voltadas para as definições estratégicas das eleições estadunidenses, onde Trump busca retomar o poder.
Diante desse cenário, as tarefas da esquerda socialista no PSOL apontam para seguir o enfrentamento à extrema direita e organizar uma forte resistência ao ajuste fiscal.
A esquerda deve debater e lutar
O efeito imediato da vitória do campo conhecido como “Centrão” no processo eleitoral, onde o PSD e o MDB se destacam, é uma maior chantagem sobre o governo para seguir mais ao centro, ou seja, aprofundar o ajuste já encomendado por Haddad e Tebet conforme a orientação aprovada no Novo Arcabouço Fiscal.
Para o comando da Câmara, o nome acordado entre o governo (com apoio do PT) é o do deputado Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba. Figura conservadora e pragmática, expressa a sucessão de Lira e o controle de grandes fatias de recursos para manutenção do esquema milionário de emendas que hoje o parlamento dispõe.
Após especulações, nesta semana, Haddad deve apresentar a forma final do pacote, também chamado de “revisão do teto de gastos”. O ministro cancelou uma viagem para a Europa para poder finalizar seu projeto. Os editoriais dos jornais liberais vociferam para mais cortes, mesmo rito de setores como a Febraban e outros próceres do capital financeiro.
No bojo do debate de balanço acima citado, por conta de importantes derrotas como a de Porto Alegre, São Paulo, Belém, setores petistas como Washington Quaquá e Jilmar Tatto advogam uma ida ao centro. No caldo de cultura crítico, afirmamos que a esquerda deve dizer seu nome, ou seja, debater e lutar. A luta agora, além de pautas centrais como a de justiça por Marielle e contra qualquer anistia aos golpistas de 8 de janeiro, passa por resistir ao pacote antipopular.
Manifesto e luta
Um corajoso e primeiro passo foi dado pela articulação do Manifesto, organizado por figuras importantes como o economista David Deccache, em parceria com a Revista Movimento e reunindo centenas de acadêmicos, economistas, pesquisadores, comunicadores populares, sindicalistas e parlamentares lançam o Manifesto Contra o Pacote Antipopular, iniciativa condenando publicamente os cortes sociais anunciado pelos ministros Fernando Haddad e Simone Tebet para o final deste ano.
Reunindo intelectuais como Vladimir Safatle, Ricardo Antunes, Lena Lavinas, Paulo Nakatani, ex-ministros como Roberto Amaral e José Gomes Temporão, além de parlamentares como Luiza Erundina, Sâmia Bomfim, Fernanda Melchionna, Glauber Braga, Tarcísio Motta, Chico Alencar e Luciana Genro, presidente da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco, o texto condena a política de austeridade fiscal do governo federal que afeta diretamente gastos sociais nas áreas da saúde, educação, assistência social, previdência, entre outras.
A boa repercussão inicial na imprensa e dentro da intelectualidade mostra o espaço que existe, inclusive com a adesão de setores de outros partidos de esquerda e centro-esquerda, apontando para uma luta que está apenas começando.
Devemos preparar no conjunto do movimento social, um calendário unitário para enfrentar o pacote, organizando assembleias e plenárias para armar tal batalha. Esta é a única forma coerente de enfrentar a extrema direita, que cresce em meio à crise apostando na desesperança e no individualismo. Não aceitaremos mais retrocessos que vão impactar diretamente na vida da classe trabalhadora, especialmente suas camadas mais vulneráveis.
Assine também o Manifesto contra o Pacote Antipopular e seja parte desta luta! Assine clicando aqui.
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