Patriarca Bartolomeu repreende líderes ortodoxos russos durante visita à Hungria

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29 Setembro 2023

Durante uma visita de cinco dias à Hungria, o “primeiro entre iguais” da Ortodoxia global se pronuncia contra a invasão russa da Ucrânia e contra aqueles que a defendem.

A reportagem é de Alexander Faludy, publicada em La Croix International, 27-09-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O patriarca ecumênico de Constantinopla, Bartolomeu I, emitiu uma firme repreensão à Igreja Ortodoxa Russa pelo seu apoio à invasão da Ucrânia promovida pelo presidente Vladimir Putin.

“Vemos os nossos irmãos e irmãs eslavos na Rússia sendo forçados à guerra e à crueldade contra seus irmãos e irmãs ucranianos. Apelamos ao fim desta guerra injusta e aos líderes da Igreja Russa que parem de encorajar a hostilidade. Mas, até hoje, sem sucesso”, disse Bartolomeu no dia 24 de setembro, durante uma visita de cinco dias à Hungria.

O patriarca de 83 anos – considerado o primus inter pares ou “primeiro entre iguais” do cristianismo ortodoxo – fez seus comentários enquanto presidia a Divina Liturgia na Abadia Beneditina de Pannonhalma, cerca de 130 km a oeste de Budapeste.

A celebração eucarística, que contou com a presença de ortodoxos, católicos e representantes da tradição reformada, ocorreu no fim de um congresso ecumênico internacional que a abadia promoveu sobre o tema “Buscai a paz e segui-a”.

“Alguns bravos padres russos”

Bartolomeu, que é o patriarca ecumênico de Constantinopla desde 1991, evocou o padroeiro de Pannonhalma, São Martinho de Tours, para eximir os fiéis e clérigos da Igreja Ortodoxa Russa que se manifestaram contra a invasão de Putin.

“Houve alguns bravos padres que resistiram à maré de derramamento de sangue e brutalidade apoiada pelos seus bispos e algumas corajosas almas russas que compreenderam São Martinho quando ele falou assim: ‘Sou um soldado de Cristo: não devo lutar!’”, disse ele.

São Martinho viveu de 316 a 397 e é venerado por ter renunciado ao serviço militar no Império Romano para servir a Cristo como presbítero e bispo.

Ao longo dos seus cinco dias na Hungria, que começaram no dia 20 de setembro em Pannonhalma, o patriarca repetidamente articulou posicionamentos sobre a Ucrânia que eram discordantes dos de seus coanfitriões do governo húngaro.

Seu itinerário continha um programa diversificado, que incluiu reuniões com o clero ortodoxo local e conversas com outros líderes religiosos. Ele também proferiu o discurso principal na abertura do congresso ecumênico no dia 22 de setembro na abadia beneditina de mais de 1.000 anos de idade.

Honras russas a funcionários do governo húngaro

O tema da paz debatido no congresso era politicamente sensível, diante da guerra na vizinha Ucrânia e as aberturas amistosas que o governo de extrema direita do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, fez em relação a Putin e à Igreja Ortodoxa Russa. O posicionamento do governo húngaro contrasta fortemente com as opiniões que Bartolomeu articulou antes e durante a sua visita.

O vice-primeiro-ministro da Hungria, Zsolt Semjén, líder do Partido Popular Democrata Cristão, na órbita do Partido Fidesz, abriu o congresso em Pannonhalma. Poucos dias antes, o Patriarca Kirill de Moscou, aliado próximo de Putin, concedeu a “Ordem da Glória e da Honra” ao próprio vice de Semjén, Miklós Soltész, secretário de Estado para os Assuntos Religiosos. O político foi reconhecido por seus serviços prestados à Igreja Ortodoxa Russa. A concessão do prêmio foi vista como um reforço adicional dos laços entre os governos de Moscou e de Budapeste.

De fato, Semjén e Orbán já foram homenageados com o prêmio no passado. O primeiro-ministro húngaro encontrou o favor de Kirill em junho de 2022 quando, citando preocupações com a “liberdade religiosa”, vetou o esforço da União Europeia de incluir o principal líder da Igreja da Rússia em uma lista de pessoas a serem punidas por ajudarem Putin em sua agressão contra a Ucrânia.

Posteriormente, a Hungria continuou importando grandes quantidades de petróleo russo, explorando em longo prazo o que deveria ser uma isenção estritamente temporária a um embargo em nível da União Europeia. Budapeste também obstruiu os esforços da Ucrânia de reforçar a cooperação com a Otan, alegando preocupações com o bem-estar da minoria húngara na região fronteiriça da Transcarpática na Ucrânia.

“Nacionalismo” ou “direitos das nações, minorias e grupos culturais”?

Essa última questão foi utilizada para justificar um tom retórico geralmente hostil em relação ao governo do presidente Volodomyr Zelensky no discurso público húngaro. Isso apesar do número proporcionalmente grande de etno-húngaros que se voluntariaram para lutar no front oriental em apoio ao governo de Kiev em distintas “Unidades Húngaras”.

Semjén e o Patriarca Bartolomeu apresentaram notas contrastantes em seus discursos no congresso da última sexta-feira em Pannonhalma. O vice-primeiro-ministro, ao falar com aparente referência tanto à minoria húngara na Transcarpática quanto à população de língua russa da região do Donbass, sublinhou que era vital reconhecer os “direitos coletivos das nações, minorias e grupos culturais” enquanto se busca a paz.

“Estes são direitos humanos”, disse Semjén. “Aqueles que só podem ser concedidos por Deus”.

Por outro lado, Bartolomeu alertou que “a luta para salvar as identidades culturais, o nacionalismo, o chamado ‘choque de civilizações’, o fanatismo religioso cria e alimenta novos confrontos, violência e conflitos militares”. Com referência implícita à posição do Patriarcado de Moscou, ele lamentou “a bênção do conflito por parte dos líderes religiosos”, salientando que “hoje temos exemplos concretos disso”.

Uma nota papal de encorajamento

O Papa Francisco enviou uma mensagem aos participantes do congresso de Pannonhalma, encorajando seus esforços para promover a paz.

“Vocês estão fazendo isso enquanto, infelizmente, a humanidade globalizada é ferida e ameaçada por uma guerra mundial fragmentada que, travada diretamente em algumas regiões do globo, tem consequências que prejudicam a vida de todos, especialmente dos mais pobres”, disse ele.

A mensagem, que foi lida pelo núncio papal na Hungria, o arcebispo Michael Banach, referia-se à ambientação do congresso em uma antiga abadia beneditina.

“‘Buscai a paz e segui-a’: São Bento recomenda calorosamente essas palavras do Salmo a seus monges desde o prólogo de sua Regra”, disse o papa.

E embora tenha observado que a Regra não contém um discurso explícito sobre a paz, ela “pode servir como um excelente guia para uma pacificação informada e prática”, devido à atenção que Bento dá aos desafios da “diversidade e desigualdade entre os membros da comunidade”.

Cobertura da mídia húngara sobre a visita de Bartolomeu

Na segunda-feira, seu último dia na Hungria, o Patriarca Bartolomeu falou em um congresso na Universidade Católica Pázmány Péter, em Budapeste, na segunda-feira, sobre respostas baseadas na fé à crise ecológica. O líder ortodoxo, que tem sido frequentemente chamado de “patriarca verde” devido à sua grande atenção às questões ambientais, regressou a Istambul à tarde.

Como foi vista a visita de Bartolomeu à Hungria? János Reichert, comentarista de assuntos religiosos do semanário independente Magyar Hang, disse que o poderoso aparelho de comunicação de Viktor Orbán basicamente fingiu que ela nunca ocorreu.

“A mídia controlada pelo Fidesz praticamente ignorou a visita do Patriarca Bartolomeu”, disse Reichert.

"Não houve nenhuma cobertura antecipada e apenas uma breve menção ao congresso da sexta-feira – que enfatizou o discurso de Bartolomeu sobre ‘paz’ ao lado do vice-primeiro-ministro”, observou.

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