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As hienas do mercado financeiro e os aloprados bolsonaristas: as eleições brasileiras sob ataque calculado

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27 Outubro 2022

"No horizonte tático-estratégico, a derrota eleitoral de Bolsonaro deve se traduzir na contestação popular e jurídica do conjunto das medidas de exceção pró-mercados de Temer e Bolsonaro, com a convocatória de um movimento articulado por um revogaço, na forma de um plebiscito popular para varrer o entulho ultraliberal e neofascista dos últimos anos. São vastas as resistências latentes e ativadas contra o arranjo neofascista de mercado no Brasil. No dia 30 de outubro, essas forças estarão conjugadas para derrotar Bolsonaro para além do campo eleitoral", escreve Luis Fernando Novoa Garzon, sociólogo, doutor em Planejamento Urbano e Regional e professor da Universidade Federal de Rondônia.

Eis o artigo.

Apresento aqui o que considero ser duas coreografias coincidentes. Um movimento é o dos órfãos do autogolpe de Bolsonaro, ensaiado no 7 de setembro de 2021:  entre indultados e abandonados lá estão Daniel Silveira, Oswaldo Eustáquio, Sara Giromini, Roberto Jefferson e congêneres, acusados de orquestrarem milícias paramilitares e digitais em ataques frontais ao Supremo Tribunal Federal. Outro movimento é o dos mercados financeiros condutores do rally eleitoral de 2022 em estado de euforia com o que chamam de “ativos estatais eleitorais”, com ações da Petrobras e Banco do Brasil batendo recordes de valorização até a última sexta-feira, dia 21 de outubro.

No dia 23 de outubro, os paralelismos se explicitaram. Jefferson, assumindo o papel do bolsonarismo desimpedido, procurou oferecer um espetáculo de vitimização de todos os “defensores da liberdade de expressão” no intuito de desautorizar o STF e por decorrência o TSE. Os estilhaços das granadas e tiros de fuzil, além de ferirem dois agentes da Polícia Federal, atingiram em cheio a mentoria da campanha subterrânea.

Os agentes de mercado tiveram que levantar cedo neste domingo para calcular o tamanho da queda das ações da Petrobras e do Banco do Brasil no dia seguinte. O exemplo vem da LEVANTE, uma plataforma cara a traders e chief executive officers (CEOs) de agências financeiras. Às 14h deste mesmo dia, é remetida uma imprevista newsletter a seus apostadores com a chamada: “Você deve lidar com a indefinição”. O trader responsável pelos lances que bombaram na semana anterior, Enrico Cozzolino, procurou se antecipar à mudança de viés, suavizando o peso da má notícia que viria: “Opiniões pessoais à parte, a reeleição do atual presidente é vista como melhor nos bastidores da Faria Lima para as empresas estatais. Uma salada mista de fatores positivos para o seu bolso como investidor ou investidora. Sim, sim, sim. Porém... [o consultor destas apostas faz aqui a marcação da passagem de cenário, que ocorria naquele momento] “Não devemos nos esquecer de que as eleições ainda não acabaram, e nada está verdadeiramente definido. Mais ainda: o Brasil, apesar de um bom ‘recanto de investimento’ no cenário macroeconômico global, não é um mar de flores.” Hora de cair na real e de retomar posições contra a moeda nacional, com o “problema fiscal de novo no radar”, conclui Cozzolino.

Os posicionamentos desencontrados do Presidente e das redes bolsonaristas, fiadoras do mesmo tipo de “liberdade” defendida com artilharia pesada por Jefferson, aumentaram a percepção do país em modo golpe. A atuação farsesca de pseudo-religiosos do lado de dentro e de fora da casa, respaldando e abençoando ações criminosas, deu mostras do que é a “guerra santa” encampada pelo bolsonarismo. Kelmon, o “padre que caiu do céu” para Bolsonaro, estava ali para desarmar ou para armar Jefferson? A pastora e ex-deputada Lilian Sá, declara em meio a uma aglomeração de incautos de camisa amarela: “Ele [Roberto Jefferson] deve ser libertado porque não fez nada demais, não matou ninguém, não roubou”. Bandidos são sempre os outros, é o lema neofascista brasileiro que se imiscui nos templos produzindo uma colagem de sentimentos segregadores em busca da “purificação” da nação. O crime maior é projetar o crime nos sujeitos mais estigmatizáveis, prosseguindo impune, sem mácula visível.

Em tempos de exceção continuada, em que a regra é a ruptura de qualquer laço ou pacto social, que limite a rentabilidade dos investimentos, que “alternância de poder” se pode esperar? Tornado admissível o método de extravasar a ordem liberal-institucional para consolidar butins sobre direitos e territórios, particularmente nesta extensa periferia dos capitais globais, é inócuo demarcar procedimentos do que seja representação política legítima. Eleição, para ultraliberais e milicianos associados, é guerra por outros meios, e com todos os meios disponíveis.

Não é por acaso que o método criado pela Levante para maximizar ganhos financeiros em ano eleitoral, com “operações de tiro rápido”, se chama “Lucro acima de tudo”. Assim se locupleta o bordão presidencial: o (negócio) Brasil acima de tudo. O âmago do negócio é a extensão da ponte do futuro, iniciada em 2016, com o teto de gastos não-financeiros e a reforma de precarização trabalhista. Logo vieram a plena autonomia do Banco Central, a privatização definitiva do saneamento básico, a reforma previdenciária dos sonhos dos banqueiros, novas rodadas de flexibilização dos marcos regulatórios de infraestrutura e a entrega de um volume inédito de concessões ao setor privado.

Assim como Jefferson é a face de Janus de Bolsonaro, as operações financeiras de tiro de rápido é que predefinem os movimentos mais caudalosos do IBOVESPA. É como uma corrida de cavalos sem possibilidade de azarão. É o que vocaliza Guedes com os três Ds, o programa redux, ao modo Ku Klux Klan (KKK), das altas finanças: desvincular, desobrigar, desindexar. O que significa o acionamento de mecanismos automáticos de gestão transnacional e financeirizada de nossa economia, instituindo a indexação compulsória da renda, do patrimônio e do capital às custas da desindexação crescente dos gastos sociais. Obrigações e vinculações rentistas em troca de desobrigações e desvinculações sociais, é o que está em jogo.

Os defensores dessas descosturas se agarraram a Bolsonaro e à sua guerra suja. A criatura forjada nos porões da Ditadura tem o aval do financismo de choque para apressar a marcha da desdemocratização, uma espécie de desconstituinte permamente, que torne indistinguível o limite do intolerável, e assim novas dimensões de mercadorização e de militarização lhe são acrescentadas. Os agentes de mercado, em busca da intermediação de ativos estatais e da livre expansão da fronteira de commodities, não duvidam que distopias valem mais, aqui e agora.

Os grandes bancos e fundos de pensão – com suas agências – de “tiro rápido”, pleiteiam um impedimento prévio que sobrepassa o Presidente que for eleito. Impedir proteções que resguardem as remanescentes cadeias industriais. Impedir vínculos orçamentários para serviços essenciais e restrições à sua privatização. Impedir políticas tecnológicas aglomeradoras. Impedir políticas creditícias voltadas para a geração de empregos e para a mobilização de negócios locais e regionais através dos bancos públicos. Impedir restrições aos investimentos estrangeiros e seus fluxos de entrada e saída. Querem manter intocadas as operações da dívida pública e subsequentemente o sucateamento expresso do Estado e dos direitos dos trabalhadores para lastrear mercados derivativos e fazer avançar a financeirização da natureza e dos territórios.

No horizonte tático-estratégico, a derrota eleitoral de Bolsonaro deve se traduzir na contestação popular e jurídica do conjunto das medidas de exceção pró-mercados de Temer e Bolsonaro, com a convocatória de um movimento articulado por um revogaço, na forma de um plebiscito popular para varrer o entulho ultraliberal e neofascista dos últimos anos. São vastas as resistências latentes e ativadas contra o arranjo neofascista de mercado no Brasil. No dia 30 de outubro, essas forças estarão conjugadas para derrotar Bolsonaro para além do campo eleitoral.

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