Eleições 2022 em debate. “As urnas confirmam que o Brasil deixa de ser um país capitalista emergente e se firma como país de capitalismo subalterno e dependente”

Nas entrevistas a seguir, pesquisadores analisam o resultado das eleições e a penetração das forças de esquerda e direita na sociedade brasileira

Foto: Juca Varella | Agência Brasil

Por: Joao Vitor Santos e Patrícia Fachin | 04 Outubro 2022

 

Uma leitura possível para o resultado do primeiro turno das eleições 2022, especialmente considerando o quadro do legislativo, é de que, se 2018 o bolsonarismo eclode no cenário político nacional, em 2022 mostra sua força e coesão. A análise é de Moysés Pinto Neto, na entrevista a seguir, concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. Ele observa que nem a fome e nem tragédia da pandemia foram capazes de arrefecer esse grupo. Pelo contrário, são os dissidentes que levaram a pior nas urnas. “O que prova a força de Bolsonaro é a fidelidade que ele exige e é cumprida pelo séquito, capaz de suportar todas as rupturas e ostracizar quem quer que seja, Janaina, Joyce, MBL, até Moro, que só foi eleito porque se bolsonarizou durante a campanha. Ao mesmo tempo, todos os nomes-chave do movimento, Salles, Damares, Pazuello, Mourão, Mario Frias, todos foram eleitos”, analisa.

 

No entanto, essa não é uma força única. No outro polo, PT e Lula, salvo seus tropeços, ainda mostram capacidade de reação e concepção de uma frente ampla. “Pessoas como eu e outros tivemos que rever nossos equívocos em valorar o PT como obstáculo ao surgimento de uma nova esquerda, pois esta teve espaço e não vingou imediatamente. Lula pode ser uma brecha para nos sustentarmos em um mundo minimamente vivível enquanto novos projetos e novas lideranças não se consolidam”, observa. Enquanto isso, no meio, o centro parece se esfacelar. “O grande derrotado das eleições não foi o PT nem a esquerda, foi o centro, mais especificamente a centro-direita. Todos os centristas sucumbiram diante do bolsonarismo quando resolveram confrontá-lo, e as dissidências foram expulsas com eficácia”, resume Moysés em entrevista concedida por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

 

Apesar da maioria dos votos conquistados pelo ex-presidente Lula no primeiro turno das eleições presidenciais, o balanço geral das eleições de 2022 indica que “as oposições ao regime autoritário de Jair Bolsonaro sofreram extensa derrota eleitoral”, disse o sociólogo José de Souza Martins ao comentar igualmente o resultado das urnas na entrevista adiante, concedida por e-mail ao IHU. “Apesar da aparente pequena diferença porcentual em favor de Lula na candidatura à Presidência da República, a nova composição do Congresso Nacional compromete a governabilidade de um eventual governo de centro-esquerda. Os governadores eleitos e as assembleias legislativas confirmam a inclinação eleitoral para a direita”, constata.

 

Martins pontua que “o povo brasileiro deu visibilidade nunca tida pelo extremismo de direita” e adverte que “as esquerdas precisam deslocar-se do discurso para minorias esclarecidas e definir um discurso de direitos sociais para as maiorias da nova alienação de classe média. Aí incluída a alienação religiosa do cristianismo de mercado”. 

 

Para o historiador Valério Arcary, o resultado eleitoral do primeiro turno deve ser analisado a partir de uma perspectiva histórica, considerando as disputas políticas em curso no país desde 2016. "É nesse contexto que devemos valorizar as vitórias no Nordeste e o apoio majoritário à candidatura Lula entre as mulheres, os pobres, os negros e a juventude", disse. De outro lado, ressalta na entrevista a seguir, concedida via WhatsApp, a eleição de governadores da extrema-direita no primeiro turno indica que a "extrema-direita, em geral, e o bolsonarismo, em particular, revelaram ter implantação social, capilaridade nacional e que se apoiam em uma base social que é composta fundamentalmente pelos estratos das camadas médias que se radicalizaram à direita por variadas razões". 

 

Roberto Andrés, doutor em Arquitetura e Urbanismo, observa a grande luz que conecta diretamente candidaturas vitoriosas com a periferia, a base popular da sociedade. "Em 2016, Áurea Carolina foi eleita vereadora em Belo Horizonte, Marielle Franco no Rio de Janeiro, Talira Petroni em Niterói, Ivan Moraes no Recife, Marquito em Florianópolis e a bancada ativista em São Paulo. Eram experiências pequenas, singelas, mas que tiveram destaque grande naquele contexto de eleições municipais", observa, na entrevista concedida via áudios de WhatsApp ao IHU. "[Agora] vemos a eleição da Célia Xakriabá, primeira deputada federal indígena por Minas Gerais, da Erika Hilton e da Duda Salabert, deputadas federais transexuais. Vemos, ainda, a eleição de uma pessoa como Guilherme Boulos, que é uma liderança do movimento pela moradia com uma votação muito expressiva em São Paulo. Vemos a reeleição de Talira Petroni, a eleição do pastor Henrique Vieira, Fábio Félix como deputado distrital em Brasília mais votado, Max Maciel, Dani Monteiro, Dani Portela no Recife, quantas e quantos deputados eleitos vindos das minorias, das bases. São pessoas que há dez anos não tinham nenhum espaço na política brasileira", acrescenta.

 

Sobre sombras, Andrés concorda que diz respeito ao avanço da extrema-direita. Mas também destaca nossa visão embaçada. "É muito impressionante que não tenhamos sido capazes de enxergar, mais uma vez, que nos subterrâneos da sociedade havia uma mobilização muito forte da extrema-direita para, num último momento, conseguir, mais uma vez, eleger surpreendentemente deputados, senadores e governadores de uma forma que as pesquisas não haviam captado", enfatiza. Quanto ao futuro, o entrevistado diz que esse pode não haver no caso da reeleição de Bolsonaro. E, mesmo Lula sendo eleito, "teremos uma tarefa ainda muito difícil para o governo Lula, que é governar um país com um Congresso mais radicalizado à direita ainda, um senado muito marcado por figuras bolsonaristas, muitos governos estaduais à direita. E, ainda, com o país destroçado, com roubo fiscal gigantesco gerado pelo governo de Bolsonaro, com muitas políticas públicas desestruturadas, um cenário econômico internacional que não parece ser muito favorável e uma necessidade de retomar o crescimento e, ao mesmo tempo, de promover políticas de bem-estar".

 

Confira as entrevistas.

 

José de Souza Martins é graduado em Ciências Sociais, mestre e doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo – USP. Foi professor visitante da Universidade da Flórida e da Universidade de Lisboa e membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, de 1998 a 2007. Foi professor da Cátedra Simón Bolívar, da Universidade de Cambridge (1993-1994) e atualmente é professor titular aposentado da USP. Entre suas obras, destacamos: Exclusão social e a nova desigualdade (São Paulo: Paulus, 1997), A sociabilidade do homem simples: cotidiano e história na modernidade anômala (São Paulo: Contexto, 2000), Linchamentos: a justiça popular no Brasil (São Paulo: Contexto, 2015), Do PT das lutas sociais ao PT do poder (São Paulo: Contexto, 2016) e Sociologia do desconhecimento: ensaios sobre a incerteza do instante (Unesp, 2021).

 

José de Souza Martins durante Aula Magna na Unisinos (Foto: Frame do YouTube)

 

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

 

José de Souza Martins – As oposições ao regime autoritário de Jair Bolsonaro sofreram extensa derrota eleitoral, nas eleições de 2 de outubro, em comparação ao que se esperava e sugeriam as pesquisas de opinião eleitoral. Apesar da aparentemente pequena diferença porcentual em favor de Lula na candidatura à Presidência da República, a nova composição do Congresso Nacional pode comprometer a governabilidade de um eventual governo de centro-esquerda. Os governadores eleitos e as assembleias legislativas confirmam a inclinação eleitoral para a direita.

 

As luzes são poucas, mas significativas. Em princípio, o povo brasileiro deu visibilidade nunca tida pelo extremismo de direita, que, num eventual governo Bolsonaro, no entanto, minimiza numericamente o centrão mas o fortalece nas alianças tópicas e potenciais com a esquerda, que terá cerca de um terço das cadeiras da Câmara. Se o bolsonarismo poderá ter uma Câmara dócil, poderá, também, ter uma Câmara indócil. A fragilidade do novo Congresso em face de um Executivo de Bolsonaro e sua força em face de um Executivo de Lula, são relativas. Tudo vai depender das circunstâncias e dos temas políticos da pauta do governo. Portanto, os municípios e os grupos de interesse político serão um campo de militância política de fortalecimento da esquerda.

 

Aliás, se o PL de Bolsonaro formou a maior bancada da Câmara dos Deputados, o PT elegeu a segunda maior bancada. Sem dúvida, teremos pela frente quatro anos difíceis e muito perigosos para a democracia, com a possibilidade de que Bolsonaro eleja alguém “da firma”, de sua própria família, na sucessão de 2026. O que sugere um longo período de retrocesso populista e personalista. Praticamente, um governo ao mesmo tempo anticapitalista e antissocial.

  

Restam luzes e possibilidades neste curto período de intervalo para o segundo turno. Os votos recebidos por Lula não são desprezíveis. Mais de 6 milhões e 700 mil acima da votação de Bolsonaro. Ele não se elegeu no primeiro turno por faltar-lhe pouco mais de 1,5% dos votos válidos. Terá que conseguir muito mais do que isso para eleger-se no segundo turno, pois a direita tem mais chance de ampliar o número de seus adeptos. É rica e ardilosa, inescrupulosa. Não segue as regras de uma democracia. Além disso, o eleitorado de Bolsonaro é antipolítico e antidemocrático. O protagonismo das igrejas de púlpito sem diferença com caixa eletrônico revelou-se poderoso cúmplice do bolsonarismo. Uma força extrapolítica infiltrada na política e por isso vulnerável à crítica política. Religião na política é ilegal e inconstitucional. Um terreno a ser considerado na militância democrática.

 

 

Ainda assim, para assegurar a democracia, a eleição de Lula é essencial, será um modo de proteger o executivo das ameaças da horda direitista. Isso dependerá muito menos de conversa do que do reconhecimento de que as esquerdas precisam de uma ampla reformulação doutrinária, antecipada por um programa de emergência, e do reconhecimento de que novos sujeitos políticos estão tomando o poder. Uma reformulação que dê sinais ainda em outubro.

 

Isso significa colocar entre parênteses temas irrelevantes para o pleito do dia 30, como os relativos aos costumes, que foram decisivos na vitória de Bolsonaro. Ciro Gomes foi o que melhor se manifestou a respeito, com mais prudência e lucidez ao esclarecer, numa resposta ao falso padre de festa junina, que o questionou sobre aborto. A questão dos costumes não é de um presidente da República. Já está definida na Constituição e nas leis. O presidente nada pode fazer em relação a elas, nem contra nem a favor. A não ser cumprir a lei.

 

As esquerdas precisam deslocar-se do discurso para minorias esclarecidas e definir um discurso de direitos sociais para as maiorias da nova alienação de classe média. Aí incluída a alienação religiosa do cristianismo de mercado.

 

IHU – Quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

 

José de Souza Martins – As sombras são muitas. País partidarizado e não politizado, o Brasil é histórica e politicamente um país de tendência para a direita. O Brasil de esquerda sempre foi minoritário. Suas oportunidades políticas têm decorrido mais de fragilidades ocasionais da direita, suas muitas contradições decorrentes do fato de que o capitalismo brasileiro é um capitalismo subdesenvolvido fundado numa aliança entre o capital e a renda da terra. Uma anomalia no sistema capitalista, que tolhe o desenvolvimento econômico com desenvolvimento social e agrava a exclusão social, isto é a inclusão social perversa. O que faz das vítimas um sujeito político vacilante e frágil, diferente da classe operária histórica.

 

O embate político não é aqui, como é na Europa, entre esquerda e direita. É, sobretudo, entre mais direita e menos direita.

 

 

IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

 

José de Souza Martins – Em primeiro lugar, as urnas confirmam que o Brasil deixa de ser um país capitalista emergente e se firma como país de capitalismo subalterno e dependente. As aspirações de ascensão social da classe média e da classe trabalhadora estão sendo frustradas e a frustração aumentará. Em todos os lugares, é uma situação que arrasta a classe média e mesmo a classe trabalhadora para o extremismo de direita e a intolerância ressentida que lhe corresponde.

 

Há pessoas na elite, sobretudo no empresariado e nas igrejas que se tornaram repressivas, que estão apreensivas com os rumos políticos do capitalismo brasileiro e das igrejas de sua tradição religiosa. Por outro lado, nos municípios do interior do Brasil, uma das poderosas bases do bolsonarismo, há minorias esclarecidas que podem ampliar as bases de uma responsável opção democrática.

 

Antes de 30 de outubro, o Brasil precisa de um levante fundado na cultura e no discernimento, que reconheça o protagonismo possível dos que têm carecimentos radicais, que não são só os dos pobres e não são apenas os econômicos. A esperança é um carecimento radical neste momento brasileiro. Os carecimentos que não serão vencidos e superados pela ideologia neoliberal e reacionária, de inspiração fascista, personificada por Bolsonaro e seus coadjuvantes. Nesse sentido, as eleições de 30 de outubro poderão ser, na prática, uma grande e significativa revolução social e política que salvará o Brasil da alucinação autoritária e socialmente excludente.

 

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Moysés Pinto Neto é doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grade do Sul – PUCRS, tendo realizado períodos de estudos no Centre for Research in Modern European Philosophy, na Inglaterra. É mestre em Ciências Criminais e Especialista em Ciências Penais pela PUCRS e possui graduação em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. É professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Luterana do Brasil – Ulbra, além de atuar como professor nos cursos de graduação de Direito na Ulbra e de diversas especializações em direitos humanos e violência.

 

Moysés Pinto Neto (Foto: arquivo pessoal)

  

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

 

Moysés Pinto Neto – A metáfora das "luzes" não é minha preferida, mas vamos lá. Podemos dizer que o mais interessante foi a renovação interna das bancadas da esquerda, que passaram a incorporar agentes que pertencem a outros universos que não necessariamente o partidário, como representantes dos povos indígenas, do movimento negro, do movimento LGBTQI+ e feminismo, MST, entre outros.

 

 

Além disso, alguns nomes fortes como Guilherme Boulos, Marina Silva e Sonia Guajajara passarão a compor a Câmara, vocalizando pautas que costumam ser soterradas pela bancada BBB [Boi, Bala e Bíblia].

 

Mais do que isso: a eleição desses nomes, inclusive em nível estadual, representa um aprofundamento da luta social, que passa a não ser mais uma luta representada por um sujeito-de-um-partido, mas pelos próprios envolvidos diretamente. As mediações tornaram-se mais diretas e, por mais que ainda continuem não majoritárias, cada vez mais pessoas engajam-se diretamente no nó radical do problema, como o racismo, por exemplo. Esse processo, que vem sendo bem absorvido pelo PSOL, é mais de longo prazo, dependendo de mais alguns anos para realmente produzir seus resultados institucionais – é, aliás, efeito de 2013 e do ciclo lulista no seu aspecto mais subterrâneo de produção de subjetividades.

 

Por isso mesmo, acho que teve muita análise superficial do papel do PSOL – alguns dizendo que estaria se submetendo ao PT, por exemplo – quando, a rigor houve, um amadurecimento e a construção de uma estratégia de longo prazo, com um pragmatismo inicial sendo cozinhado junto com um projeto mais radical de base. Isso pode liberar (não apenas via PSOL, obviamente) possibilidades extraordinárias que vão além do imaginário social-desenvolvimentista da esquerda latino-americana em geral.

 

“Lula pode ser uma brecha para nos sustentarmos em um mundo minimamente vivível”

 

Finalmente, sobre Lula, em especial, é bom lembrar que toda construção da sua candidatura foi tendencialmente contramidiática, esbarrando no permanente discurso da polarização, por uma direita mais civilizada, ou da corrupção, pela direita boçal. Só tardiamente houve um grande consenso de Frente Ampla em torno a Lula. Nesse sentido, pessoas como eu e outros tivemos que rever nossos equívocos em valorar o PT como obstáculo ao surgimento de uma nova esquerda, pois esta teve espaço e não vingou imediatamente. Lula pode ser uma brecha para nos sustentarmos em um mundo minimamente vivível enquanto novos projetos e novas lideranças não se consolidam.

 

  

Mas o PT mostrou-se resiliente e o único canal realmente sólido e de massas capaz de resistir ao fascismo crescente. O que não é garantia de nada, nem exatamente uma boa notícia.



IHU – E quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

 

Moysés Pinto Neto – São muitas, difícil até contá-las. Uma delas é o fenômeno bolsonarista, que se mostrou muito resiliente e capaz de enfrentar o caos total sem se desorganizar. Depois de pandemia, corrupção e inflação, poderia ter enfraquecido. Mas segue vivo e forte, apesar de menos forte que em 2018 – quando, lembremos, eles conseguiram nos intimidar a ponto de não permitir que saíssemos às ruas.

Bolsonarismo, é preciso dizer, não extrema-direita, nem partido militar, nem direita radical, nem tradicionalismo. O que une os bolsonaristas é Bolsonaro mesmo. Basta ver os Weintraubs, tentando ser mais radicais que o chefe, naufragaram. O que prova a força de Bolsonaro é a fidelidade que ele exige e é cumprida pelo séquito, capaz de suportar todas as rupturas e ostracizar quem quer que seja, Janaina [Paschoal], Joyce [Hasselmann], MBL [Movimento Brasil Livre], até [Sérgio] Moro, que só foi eleito porque se bolsonarizou durante a campanha. Ao mesmo tempo, todos os nomes-chave do movimento, [Ricardo] Salles, Damares [Alves], [Eduardo] Pazuello, [Hamilton] Mourão, Mario Frias, todos foram eleitos, causando o pior Senado que se tem notícia até hoje.

 

É um movimento com muitas características semelhantes ao nazismo, embora com conteúdos diversos por razões óbvias. Basta ler "As origens do totalitarismo", da Arendt, está tudo lá.

 

 

 

IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

 

Moysés Pinto Neto – Se Lula vencer, ainda muita coisa está por ser definida. A Câmara parece negociável a partir de um acordo com Tebet que possa trazer o MDB. Sim, o indigesto MDB. Já o Senado, uma incógnita que inclusive poderá produzir fatos quase inéditos na nossa história, como a rejeição de indicações para o Supremo Tribunal Federal.

 

Se Bolsonaro vencer, bom, prefiro nem dizer agora.

 

IHU – Deseja acrescentar algo?

 

Moysés Pinto Neto – O grande derrotado das eleições não foi o PT nem a esquerda, foi o centro, mais especificamente a centro-direita. Todos os centristas sucumbiram diante do bolsonarismo quando resolveram confrontá-lo, e as dissidências foram expulsas com eficácia.

 

O Brasil hoje tem uma esquerda em renovação e uma extrema-direita, com quase nada no meio delas. PSDB, PSB, PDT, Cidadania, Rede, enfim, quase todos de centro perderam muito nas eleições. Veremos muita luta nos próximos anos. Talvez isso não seja ruim.

 

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Valério Arcary é graduado em História pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC-SP e doutor em História Social pela Universidade de São Paulo – USP. É professor aposentado do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP. É autor de Ninguém disse que seria fácil (São Paulo: Boitempo, 2022).

 

Valério Arcary (Foto: Reprodução)

 

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

 

Valério Arcary – A principal luz que surge do processo eleitoral é que devemos olhar os resultados do primeiro turno com perspectiva histórica. Olhemos para a situação reacionária que se abriu em 2016, com o impeachment da Dilma, em condições dramáticas de um golpe parlamentar jurídico, apoiado em mobilizações que levaram às ruas milhões e milhões de pessoas e deram força para a articulação de Eduardo Cunha com Michel Temer no Congresso Nacional. Creio que temos que lembrar 2018, com Lula preso e a apresentação da candidatura Haddad pouco antes do primeiro turno e equacionarmos a evolução das conjunturas desde então, com o impacto da pandemia, que inverteu a trajetória do governo Bolsonaro e abriu a possibilidade para que tivéssemos conquistado a liberdade do Lula e a vitória eleitoral de domingo, que foi importante. Seis milhões de votos são seis milhões de votos.

 

 

É nesse contexto que devemos valorizar as vitórias no Nordeste e o apoio majoritário à candidatura Lula entre as mulheres, os pobres, os negros e a juventude. Vitórias estaduais para governos como os do Rio Grande do Norte, do Ceará, do Piauí, o significado da disputa que vai ocorrer na Bahia, com Jerônimo [Rodrigues] em condições de vencer as eleições, a surpresa de ter Décio Lima no segundo turno em Santa Catarina, o aumento das bancadas da esquerda e a federação liderada pelo PT, elegendo 80 deputados federais, e a federação liderada pelo PSOL, elegendo 14 deputados federais, são elementos que indicam que há uma batalha em curso e que ela prossegue no segundo turno, que, em grande medida, será uma nova eleição em que temos condições de buscar a vitória.

 

IHU – Quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

 

Valério Arcary – As sombras resultam do fato de que o bolsonarismo teve uma derrota eleitoral, mas teve uma vitória política, ou seja, conseguiu conquistar o segundo turno que estava ameaçado e a extrema-direita conseguiu a eleição de [Cláudio] Castro, [Romeu] Zema e Ratinho já no primeiro turno e levou Tarcísio [de Freitas] ao segundo turno na condição de favorito em São Paulo.

 

Portanto, estamos diante de uma situação na qual a extrema-direita, em geral, e o bolsonarismo, em particular, revelaram ter implantação social, capilaridade nacional e que se apoiam em uma base social que é composta fundamentalmente pelos estratos das camadas médias que se radicalizaram à direita por variadas razões. Uma delas é econômica, por causa do peso dos impostos, da inflação dos serviços privados, como saúde e educação, e aquilo que eles interpretam como perda de prestígio social. Mas não é só a economia...

 

Essas camadas médias se entrincheiraram em torno da defesa de um modo de vida e alimentam fortes rancores contra as transformações positivas que estão ocorrendo ao longo dos últimos 35 anos, desde o fim da ditadura. Há uma guerra que é também uma disputa de valores, com uma visão cultural de mundo. É nesse marco que a extrema-direita está entrincheirada no mundo do agronegócio, onde ocorreu uma relativa prosperidade. A fração burguesa ligada ao agronegócio tem um peso social mais forte e arrasta os novos setores médios que surgiram em função da valorização das commodities no mercado mundial. É nesse contexto que temos que considerar o tema das perspectivas.

 

 

IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

 

Valério Arcary – Sobre as perspectivas, estamos em uma situação de máxima gravidade. O perigo que Bolsonaro representa é a dramática ameaça de uma derrota histórica para as forças populares, para a classe trabalhadora, para os oprimidos, para as mulheres, os negros, os LGBTQIA+, para os ambientalistas. Um segundo mandato de Bolsonaro teria um efeito catastrófico e seria uma ameaça às liberdades democráticas e, portanto, ele tem que ser detido.

 

O desafio aberto pelo segundo turno, diante de uma eleição que se inicia fundamentalmente indefinida, é o de levantar a cabeça. Há um desânimo transitório, compreensível; será uma disputa terrível. A campanha será a mais difícil desde o fim da ditadura, mas é possível vencer. Precisamos acreditar que iremos vencer e isso se apoia em uma análise fria das relações de forças. Sabemos que devemos ser conscientes de que subestimar o bolsonarismo tem sido o erro mais grave da esquerda brasileira até agora. Mas também é verdade que uma experiência prática, depois de quase quatros de mandato [de Bolsonaro], levou centenas de milhões a tirarem conclusões. Precisamos nos apoiar nessas conclusões e, claro, que os perigos são os mesmos desde o início da campanha eleitoral, que resumo em três.

 

O primeiro é o "já ganhou". É uma disputa incerta. É fundamental lutar com fúria, com vontade, com decisão, visitar os bairros populares, conversar nos locais de trabalho, dialogar com as famílias. O segundo perigo é reduzir a disputa eleitoral a uma romantização do passado. É preciso apresentar propostas concretas que vão mudar a vida das pessoas: o que vai ser feito para garantir a erradicação da fome, o direito ao trabalho, a recuperação dos trabalhos, a defesa da educação pública, o fortalecimento do SUS, a proteção da Amazônia, a extensão dos direitos das mulheres e LGBTQIA+. Por último, a tentação de "giro ao centro". O "giro ao centro" é quando a esquerda perde a sua autenticidade. A esquerda vence quando, com coragem, defende o seu programa. Ainda que seja legítimo procurar apoios para a candidatura Lula nesse segundo turno, é necessário haver integridade e dignidade na defesa das mudanças que correspondem aos interesses da maioria explorada e oprimida.

 

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Roberto Andrés tem graduação e mestrado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG. Também é doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo – USP. Atua como professor do curso de Arquitetura e Urbanismo da UFMG, pesquisador do grupo Cosmópolis (CNPq) e revisor do Journal of Public Spaces. É coorganizador dos livros Guia morador (2013), Escavar o futuro (2014) e Urbe urge (2018). Foi um dos fundadores da revista Piseagrama e seu coeditor entre 2011 e 2020.

 

Roberto Andrés (Foto: Arquivo pessoal)

 

IHU – Quais são as luzes que se revelam a partir do resultado das urnas?

 

Roberto Andrés – Existe um movimento de um campo político brasileiro de renovação que vem acontecendo desde a metade da década passada e que vem se fortalecendo. Falo de um movimento que se conecta com as periferias, mas maiorias sociais que são subalternizadas e que têm sido capazes de impulsionar candidaturas protagonizadas por esses sujeitos.

 

Em 2016, Áurea Carolina foi eleita vereadora em Belo Horizonte, Marielle Franco no Rio de Janeiro, Talira Petroni em Niterói, Ivan Moraes em Recife, Marquito em Florianópolis e a bancada ativista em São Paulo. Eram experiências pequenas, singelas, mas que tiveram destaque grande naquele contexto de eleições municipais. Essas experiências se conectaram, passaram a formar uma rede de aprendizado com outras experiências.

 

Em certo momento, isso tudo desembocou numa rede que se chamou Ocupa Política, que fez uma série de encontros e foi reunindo outros ativistas, grupos, coletivos sempre ligados a periferias urbanas, movimentos de mulheres, movimentos feministas, os movimentos indígenas, movimento negro, ativismos pelo meio ambiente, pelas cidades, etc. Essa rede, junto de outras em torno do mesmo ecossistema, foi crescendo ao longo dos anos, extravasando os primeiros partidos em que estavam e vemos o resultado dessas diversas redes nas eleições de 2022.

 

Vemos a eleição da Célia Xakriabá, primeira deputada federal indígena por Minas Gerais, da Erika Hilton e da Duda Salabert, deputadas federais transexuais. Vemos, ainda, a eleição de uma pessoa como Guilherme Boulos, que é uma liderança do movimento pela moradia com uma votação muito expressiva em São Paulo. Vemos a reeleição de Talira Petroni, a eleição do pastor Henrique Vieira, Fábio Félix como deputado distrital em Brasília mais votado, Max Maciel, Dani Monteiro, Dani Portela no Recife, quantas e quantos deputados eleitos vindos das minorias, das bases. São pessoas que há dez anos não tinham nenhum espaço na política brasileira. Esse movimento não é irrelevante, tem crescido, tem força, é muito importante no sentido de reconexão das esquerdas com diversos grupos sociais que ficaram alienados dela.

 

 

 

No entanto, eles têm uma caminhada longa para se tornar mais forte, capaz de disputar a sociedade como um todo. Mas devemos nos atentar a esse movimento que vem crescendo, deveríamos fortalecer essas candidaturas, até porque muitas delas têm sofrido ataques fortes depois que passam a exercer seus mandatos. E deveríamos contribuir para que mais e mais candidaturas com povo popular, periférico, da base da sociedade possam emergir e disputar a política nos partidos do campo progressista.

 

IHU – E quais são as sombras que aparecem a partir dessas eleições?

 

Roberto Andrés – Nesta eleição, não faltam sombras. Podemos falar tanto das sombras no nosso modo de enxergar, as sombras epistemológicas, quanto do lado sombrio da política. Começando pelas sombras de nossa visão, é impressionante que não tenhamos sido capazes de enxergar, mais uma vez, que nos subterrâneos da sociedade havia uma mobilização muito forte da extrema-direita para, num último momento, conseguir, mais uma vez, eleger surpreendentemente deputados, senadores e governadores de uma forma que as pesquisas não haviam captado. As pesquisas para o Senado indicavam um número muito alto de indecisos até as vésperas da eleição e apontavam um cenário. De repente, parece que um grande número desses indecisos migrou para candidatos bolsonaristas, num processo avassalador de captura desse eleitorado que nós não conseguimos ainda compreender como se dá.

 

 

Temos, assim, uma sombra no modo de operação dessa forma de comunicação política da extrema-direita. O que aponta, também, para uma sombra de nossa compreensão da própria sociedade brasileira. Depois de uma pandemia, de um governo trágico, destrutivo, incompetente e corrupto, incapaz de realizar qualquer coisa, vemos uma quantidade tão grande de pessoas votando tanto no candidato a presidência Jair Bolsonaro quanto nos candidatos apoiados por ele ao Congresso e ao Senado. Essa quantidade de pessoas considerando isso é um pouco aterrador e aponta para uma diferença de perspectivas de mundo radical no país, e mesmo uma incapacidade do campo progressista de enxergar esse outro mundo, essa outra perspectiva, que leva alguém a votar nesses candidatos.

 

Por fim, tem esse lado sombrio, que mais uma vez mostra sua força no Brasil e no mundo, que é a extrema-direita fascista que conseguiu se fortalecer ainda mais, se enraizar e se colocar num lugar de substituição mesmo, aparentemente muito consolidada, da direita brasileira. Isto acaba transformando a disputa política muito mais violenta, muito menos civilizada, muito mais destrutiva e muito mais difícil para o campo progressista se contrapor.

 

IHU – Quais as perspectivas de futuro que emergem a partir do resultado das urnas?

 

Roberto Andrés – A primeira questão de perspectiva de futuro é a possibilidade de Lula se eleger presidente em 30 de outubro. Essa talvez seja a tarefa mais importante no Brasil dos últimos 30 anos e, se isso não acontecer, é difícil falar de futuro para o Brasil, pois será um futuro que aponta para tendências que misturam Estado Islâmico com Hungria, autocratização com fundamentalismo religioso que, de fato, tende a desestruturar elementos muito básicos da vida democrática. São elementos como o respeito à diversidade religiosa, o respeito e a passividade à diversidade de opiniões, o direito a posição política sem ser assediado pelo Estado. Tudo isso tem risco com a reeleição de Bolsonaro

 

 

Sabemos que a possibilidade de interferência no Supremo, nos órgãos de controle é muito forte com a possível reeleição. Também há possibilidade, se a reeleição ocorrer, de avanço no desrespeito a direitos humanos e a direitos político, por exemplo, a prisão de ativistas e opositores do governo, como vemos acontecer na Hungria, na Polônia.

 

O futuro do Brasil depende dessa eleição de Lula. É muito impressionante que estejamos nessa situação, visto que estamos com o maior líder político da história do país, que montou a maior coalização eleitoral em disputas presidenciais, que reuniu em sua coalização da esquerda à direta liberal, reuniu de [Guilherme] Boulos a [Henrique] Meirelles, passando por Marina Silva, Geraldo Alkmin e André Janones e, mesmo assim, está sendo uma tarefa muito difícil vencer o governo mais incompetente, mais destrutivo da nossa história brasileira.

 

Obviamente não seria fácil vencer um governo que busca a reeleição, que tem a máquina na mão e que despejou bilhões do orçamento secreto na economia, que despejou bilhões na redução dos preços de combustíveis e para diversos tipos de apoio a setores. Ainda assim, é muito impressionante que estejamos no limiar de vencer.

 

Por fim, se vencermos, e espero que vençamos o governo Bolsonaro em 30 de outubro, e vamos precisar um grande esforço para isso, teremos uma tarefa ainda muito difícil para o governo Lula, que é governar um país com um Congresso mais radicalizado à direita ainda, um Senado muito marcado por figuras bolsonaristas, muitos governos estaduais à direita. E, ainda, com país destroçado, com roubo fiscal gigantesco gerado pelo governo de Bolsonaro, com muitas políticas públicas desestruturadas, um cenário econômico internacional que não parece ser muito favorável e uma necessidade de retomar o crescimento e, ao mesmo tempo, promover políticas de bem-estar para o meio da pirâmide que foram uma certa dificuldade do lulismo. É uma perspectiva de futuro que, no melhor dos casos, vai ser muito difícil e é por ela que temos que trabalhar.

 

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