A propósito da Odisseia. Artigo de Leda Tenório da Motta

Matt Damon em 'A Odisseia' / Crédito: Divulgação/Universal Pictures

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31 Julho 2026

"O ponto de inflexão é: há nos diferentes discursos, verbais ou não, um fundo perdido que a literatura e as artes não cessam nunca de extraviar. A intertextualidade tem algo a ver com isso."

O artigo é de Leda Tenório da Motta, publicado por A Terra é Redonda, 29-07-2026. 

Leda Tenório da Motta é professora do Programa de Estudos Pós-graduados em Comunicação e Semiótica da PUC-SP, autora, entre outros livros, de Cem anos da Semana de Arte Moderna: o gabinete paulista e a conjuração das vanguardas (Perspectiva).

Considerações sobre o filme A Odisseia, de Christopher Nolan.

1.

Não há nenhum interesse especial da parte do diretor Christopher Nolan pelo episódio das sereias, narrado no canto 12 da Odisseia. Na econômica sequência que lhe é dedicada, em seu filme, tudo o que temos é a imagem dos marinheiros tapando os ouvidos com cera para se proteger dos sons mortais, o silêncio que para eles, e só para eles, se faz a bordo, quando da aproximação do perigo, a reação de Ulisses preso ao mastro de sua embarcação, sacudido pelo que acaba de ouvir, mas bem seguro no convés.

Entretanto, esse é um dos motivos homéricos mais relidos pela tradição. Por exemplo, serve de argumento à tese bem conhecida de Max Horkheimer e Theodor Adorno na Dialética do esclarecimento, segundo a qual, até pela famosa astúcia do herói, sua capacidade de resolver problemas por conta própria, na luta contra os obstáculos divinos da longa volta para casa, a segunda parte da epopeia já evolui para o desencantamento do mundo, a substituição da magia pelo trabalho, o homem técnico etc.

Muito embora este seja outro ponto pelo qual Christopher Nolan, que não deve ter lido Theodor Adorno, visivelmente se desinteressa, considerando-se que há mais peso na alma que esperteza em sua personagem, como muito se tem notado, isso enseja repassar alguns dos formidáveis comentários e/ou retomadas a que esta provação do guerreiro de Troia deu lugar. E aliás segue dando, considerando-se uma recente publicidade da Citroën em que o condutor se desamarra do veículo e se lança nas águas, atrás de Marina Ruy Barbosa.

A exemplo desta ocorrência vinda do baixo repertório, cita-se muito esse Homero das sereias. Mudando de repertório, há inclusive uma reescritura da cena toda por Franz Kafka. Ora, técnica ou semioticamente, a reescritura é intertextualização. No momento em que o cineasta de Batman vai aos gregos, esse é um bom motivo não somente para se recuperar a cena kafkiana, mas para se perguntar: o que é isso, a intertextualidade?

Retomada semiótica daquilo que por muito tempo nos limitamos a ver, muito abstrata e imprecisamente, como influência ou inspiração de um texto sobre outro, a partir do giro linguístico francês, o conceito passa a recobrir conexões materialmente existentes entre textos, que podem dar-se por alusão, glosa, pastiche, interpretação... São trânsitos de que não se exclui a tradução.

2.

A terminologia é introduzida por Julia Kristeva, em seu livro Sémeiotiké, obra da primeira fase da autora, datada de 1969, em que ela se dedica a apontar uma produtividade própria da linguagem poética, da mesma índole daquela dos anagramas ou gramas moventes de Ferdinand de Saussure, como registra o Dicionário enciclopédico das ciências da linguagem de Oswald Ducrot e Tzvetan Todorov, que lhe dedicam toda a sua parte final.

Somos aí remetidos à primeiríssima inscrição da nomenclatura no corpus kristeviano e na da crítica francesa. Nestes termos: "O significado poético remete-nos a significados discursivos outros, de tal sorte que no enunciado poético vários outros discursos são audíveis. Cria-se assim, em torno do significado poético, um espaço textual múltiplo cujos elementos são suscetíveis de serem aplicados ao texto poético concreto. Chamaremos esse espaço intertextual".

O ponto de inflexão da semioticista é que o sentido poético não se prende a um código único, mas a um cruzamento de códigos. Desde então, esse remetimento ad intra dos discursos aos discursos é assunto para novos críticos e sua visão da negatividade da linguagem enquanto sistema de relações internas, sem conexão referencial com os objetos.

Trocando noções impalpáveis do ato criador por um agenciamento tangível de linguagem, o reparo metodológico ganha amplitude no âmbito dos trabalhos de representantes dessa nouvelle critique, tais que Roland Barthes e Gérard Genette e, no Brasil, de Leyla Perrone-Moisés, que tem todo um volume sobre o assunto, sob o título Texto, crítica, escritura, com desenvolvimentos sobre suas relações com o "dialogismo" de Mikhail Bakhtin e com a "função metalinguística" de Roman Jakobson.

Ainda no Brasil, Silviano Santiago o vê sepultando o método universitário enraizado do estudo das fontes, que segundo ele reduz os artistas latino-americanos e sua criação à condição de parasitas. Todos o entendem como instrumento conceitual para uma redefinição do estilo como escritura, e para uma outra redefinição da escritura como tomada de consciência dos limites da linguagem e, ato contínuo, de si mesma.

Através de diferentes nomenclaturas, eventualmente irônicas, prototextualidade, arquitextualidade mas também palimpsestuosidade, o referido Genette foi um exuberante fomentador da redefinição da literatura como eterna réplica à literatura, nos dois sentidos da palavra, de imitação e resposta. Dedicou ao assunto textos-chave de uma era de mutação da cultura universitária francesa tais que Introduction à l'architexte (1979) e Palimpsestes: La littérature au second degré (1992).

Na primeira, vê a intertextualidade funcionando nas recepções letradas que o Ocidente fez, por séculos, da Poética de Aristóteles, acrescentando-lhe à classificação dos gêneros uma forma lírica que jamais figurou nas páginas da obra fundadora, até pela expulsão dos poetas da cidade ideal grega, e que é a intervenção da tradição nessa passagem de testemunho; daí a tríade clássica épico-dramático-lírico, no lugar do épico-trágico-cômico gregos arquitextuais. Na segunda, atravessa a história da literatura como quem vai ao primeiro extrato ou ao fundo de um pergaminho, buscando os primeiros grafos.

Freudianizado pelos críticos desconstrucionistas de Yale, vai dotar-se de clara índole edipiana. Nesse contexto, passa a denotar o assédio da parte de um escritor paradoxalmente em busca de voz própria a um predecessor obsedante, lido, relido e "deslido" nos termos do "misreading" de Harold Bloom. Conceito bem resumido como "leitura forte" por um estudioso do autor de Um mapa da desleitura, entre nós, Arthur Nestrovski, no prefácio da tradução brasileira deste volume.

3.

Na maior parte das traduções e comentários a que este prototexto grego que é a Odisseia deu lugar, inclusive nas páginas da Dialética do Esclarecimento, Ulisses vai de ouvidos bem abertos ao encontro do perigo. Na tradução para o português de Odorico Mendes temos que: "As orelhas aos teus com cera tapes / ensurdeçam de todo, / ouvi-las podes / Contanto que do mastro ao longo estejas, de pés e mãos atado; e se desavisado no prazer ordenares que te soltem, / liguem-te com mais força os companheiros". É bem porque ouve os ameaçadores sons que, no texto homérico, o herói enfeitiçado acena aos marinheiros para que o soltem, para poder lançar-se ao mar, atrás das perseguidoras.

Nada disso está em Christopher Nolan, o que já é transtextualização de sua parte. Mas veja-se o que um moderno assediador da tradição tal que Franz Kafka pode fazer com Homero! Está tudo num menos conhecido pequeno conto das narrativas do espólio, do período 1914-1924, entre nós organizadas e traduzidas por Modesto Carone, sob o título "O canto das sereias".

Franz Kafka simplesmente curva Homero ao seu absurdo. Em outras palavras, trai espetacularmente o original, degenera e regenera o que cita. Fato nem assim tão grave, de desautorização da autoridade autoral, considerando-se que Homero talvez não tenha existido, só restando de referência certeira, neste caso, a rede rapsódica dos aedos.

Segundo o conto de Kafka, embora tivesse ouvido coisas a respeito da capacidade das sereias de rebentar cadeias e mastro, Ulisses escolhe fiar-se num punhado de cera nos ouvidos e num molho de correntes que o prendam para, com "alegria inocente", ir ao encontro das malévolas, munido de seus modestos meios de defesa.

Mas que, de seu lado, tendo uma arma ainda mais terrível que o canto, que era o seu silêncio, com o silêncio as sereias quiseram desarmar a defesa do comandante. Aqui, de fato, por decisão do narrador, Ulisses traz os ouvidos tapados. E acontece, desta feita, que as sereias não cantaram.

Introduz-se assim, kafkianamente, na trama do texto, uma situação bizarra que entreabre a possibilidade do disparate de se dizer que, não ouvindo as árias não cantadas, Odisseu não ouviu o silêncio. A menos que o tenha ouvido, como acrescenta o escritor do absurdo, e fingido não ouvir. Que tenha assim imposto aos deuses, esses peritos em disfarces, o seu próprio jogo de aparências.

O ponto de inflexão é: há nos diferentes discursos, verbais ou não, um fundo perdido que a literatura e as artes não cessam nunca de extraviar. A intertextualidade tem algo a ver com isso.

Por mais que possamos recepcionar o filme de Christopher Nolan, e o recepcionamos, até pelo decoro dos atores e por Helena negra, ele seria ainda melhor se, de algum modo, como no cinema de Jean-Luc Godard, o realizador assinasse embaixo de sua remarcação, sua da paródia, o canto ao lado.

Essa é a diferença que vai do autoral ao blockbuster.

Bibliografia

ADORNO, T.W; HORKHEIMER, M. Dialética do esclarecimento. Tradução Guido de Almeida. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

BLOOM, H. Um mapa da desleitura. Tradução de Thelma Medici Nóbrega. Rio de Janeiro: Imago, 1995.

CARONE, M. Lição de Kafka. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

TODOROV, DUCROT. Dictionnaire Encyclopédique des Sciences du Langage. Paris: Éditions du Seuil, 1972.

GENETTE, G. Palimpsestos: a literatura no segundo grau. Paris: Seuil, 1982.

HOMERO. Odisseia de Homero. Tradução de Manoel Odorico Mendes (1799-1864), prefácio de Silveira Bueno. Fonte digital. São Paulo: Atena Editora, 2009.

Referências

A Odisseia (The Odyssey). EUA, 2026, 172 minutos. Direção e roteiro: Christopher Nolan. Elenco: Matt Damon, Tom Holland, Anne Hathaway, Robert Pattinson, Elliot Page, Lupita Nyong'o, Mia Goth, Corey Hawkins, Jarreth J. Merz.

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