‘A Odisseia’, escrita há 3 mil anos, mostra que preocupações humanas não mudaram muito, diz Christopher Nolan

Foto: Divulgação

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17 Julho 2026

Sem dúvida, este é um dos filmes mais aguardados do ano: "A Odisseia" chega esta semana às telas de vários países, entre eles o Brasil. Liderada por uma constelação de astros norte-americanos, esta adaptação é assinada pelo britânico Christopher Nolan. O diretor vencedor do Oscar por "Oppenheimer" explica como revisitou essa epopeia mitológica com os códigos do blockbuster.

O filme "A Odisseia" leva às telas uma nova versão da epopeia mitológica de Ulisses, narrada no poema de Homero. A trama acompanha o turbulento retorno de Ulisses (Matt Damon) à sua ilha de Ítaca, onde sua esposa Penélope (Anne Hathaway) e seu filho Telêmaco (Tom Holland) enfrentam os ataques dos pretendentes ao trono. A produção conta ainda com Zendaya e Charlize Theron no elenco.

Filmada em seis países (Grécia, Marrocos, Itália...), com algumas cenas em alto-mar e o uso de câmeras IMAX, formato que oferece uma resolução única, a produção foi uma proeza técnica com orçamento estimado em US$ 250 milhões (quase R$ 1,3 bilhão).

A entrevista é de Sophie Torlotin, publicada por Rfi, 15-07-2026.

Eis a entrevista.

"A Odisseia" é um poema grego de Homero escrito há mais de 2.700 anos. O que o fascina tanto nessa narrativa e de que maneira ela ainda dialoga conosco no século XXI?

Acho que, quando estudamos “A Odisseia” de Homero, encontramos nela verdades universais e atemporais. Essa obra fundamental da literatura está na origem de toda a cultura ocidental. Esse poema fascina geração após geração há quase 3.000 anos porque é simples e possui essas qualidades acessíveis e atemporais da natureza humana. Nossas preocupações humanas não mudaram tanto assim. Ao adaptá-lo, percebi que havia temas e modelos narrativos que ecoavam meus filmes anteriores. A narrativa do retorno ao lar, por exemplo, é algo que já abordei em "A Origem" e "Interestelar". Na trilogia "Batman" também encontramos o tema da jornada do herói. É sua simplicidade e sua abordagem da natureza humana que permitem a cada geração interpretá-la de uma maneira relevante para sua própria época.

É uma grande história de aventura, com elementos fantásticos e monstros, mas que você torna muito realista...

Eu queria que o filme tivesse uma textura realista para que os espectadores acreditassem na história. Mas era um desafio: como abordar os elementos fantásticos? No caso do Cavalo de Troia, pensei em como isso poderia ter funcionado na vida real. Meu público e eu sabemos que o cavalo está cheio de gregos, então é preciso “vendê-lo” de alguma forma. Minha solução foi pensar: se ele parecer um monumento em ruínas, meio enterrado na areia e prestes a ser destruído pelo mar, não parecerá algo projetado para ser levado para dentro da cidade. O mesmo vale para o Ciclope, filmando em uma caverna real e buscando soluções concretas. Como meu amigo Guillermo del Toro mostrou muito bem, um monstro nunca é apenas um monstro. Mas, se você consegue expressar suas emoções, começa a acreditar nele; há peso e gravidade, e então ele se torna ameaçador e assustador porque parece real.

Você dirigiu um filme de ficção científica, “Interestelar”, filmes de super-herói com “Batman” e um filme de guerra com “Dunkirk”. O que o inspirou a investir no peplum, esse gênero de épicos ambientados na Grécia e na Roma antigas?

Eu tinha como referência grandes filmes épicos como “Lawrence da Arábia”, “Gladiador” e “Barry Lyndon”. Mas não havia uma narrativa moderna da mitologia grega. Diretores como Ray Harryhausen se aventuraram nesse universo, mas com orçamentos e recursos de produções mais reduzidos. Ter a oportunidade de fazer isso pela primeira vez em grande escala, com um orçamento e um elenco importantes, é uma oportunidade única para um diretor.

Você escolheu filmar em película IMAX, o que tornou as filmagens mais complexas do ponto de vista técnico. Por que essa escolha?

Queria filmar um longa inteiramente em película IMAX desde que tinha cerca de 16 anos. A nitidez da imagem, as cores incríveis, a ausência de granulação, a tela ampla que mergulha o espectador de maneira realmente fundamental, tudo isso me pareceu imediatamente adequado para grandes produções hollywoodianas.

Mas são câmeras enormes e barulhentas. Para este projeto, fui até a IMAX e disse: “Vocês podem encontrar uma forma de tornar as câmeras silenciosas? Porque eu realmente quero fazer o filme inteiro dessa maneira”. Eles projetaram uma carcaça de alta tecnologia na qual eu podia colocar a câmera, uma estrutura muito grande, mas que a tornava silenciosa. Ainda assim, era preciso trocar os rolos de filme a cada três minutos.

Isso teve impacto na forma de atuar dos atores?

Nós dissemos aos atores que eles teriam essa máquina gigantesca diante do rosto e precisariam parar no meio de uma cena e suspender a emoção enquanto recarregávamos a câmera o mais rápido e discretamente possível. Se eles não quisessem fazer isso ou não achassem que funcionava para eles, teríamos seguido outro caminho. Mas, na verdade, acho que eles consideraram isso muito estimulante. O nível de concentração na atuação, com essas limitações, era muito intenso.

Se você filma em formato digital, no qual pode gravar durante horas, consegue obter um bom trabalho de todos no set, mas em momentos diferentes. Já quando essa câmera está rodando e todos estão concentrados, sabendo que o tempo é limitado e que tudo precisa convergir naquele instante, cada técnico dá o melhor de si e alcança esse ponto de concentração intensa. Todo formato escolhido tem vantagens e desvantagens; o segredo é tentar construir o filme em torno das vantagens.

O que foi mais complicado durante as filmagens?

Do ponto de vista físico, estar em barcos é sempre extremamente difícil no cinema, especialmente em uma embarcação antiga reconstruída navegando em águas agitadas. Mas algumas cenas mais tranquilas, cenas dramáticas de maior intensidade, foram de longe as mais difíceis de filmar para mim. Era preciso fazer com que a equipe de fotografia entendesse como mover a câmera como qualquer outra, embora ela fosse 50 vezes maior. E também permitir que os atores continuassem concentrados apesar das interrupções. Esse foi um dos maiores desafios do filme.

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