02 Julho 2026
"Se a busca é pela verdade, só a reciprocidade pode produzir perguntas e respostas equilibradas — e, diriam alguns, correctas. Como escreveu outrora o poeta americano E.E. Cummings: "A resposta mais bela é sempre aquela que vem de quem faz a pergunta mais bela."
O artigo é de Phyllis Zagano, investigadora na Universidade de Hofstra, publicado por 7Margens, 01-06-2026.
Phyllis Zagano integrou a Comissão para o Estudo do Diaconado das Mulheres (2016-2018). É investigadora na Universidade de Hofstra, Hempstead, Nova Iorque, e o seu livro mais recente é The Vatican and Women Deacons (Orbis, 2026).
Eis o artigo.
As análises generalizadas da encíclica do Papa Leão XIV, Magnifica Humanitas, ignoram um aspecto: a inteligência artificial é, por natureza, masculina. A maioria das pessoas encara a IA como uma ferramenta para resumir informação através dos chamados modelos linguísticos de larga escala [LLM, na sigla em inglês].
O problema: os LLM são treinados por homens e a maior parte dos dados e informações disponíveis foi criada por homens. A maioria dos programadores que ensinam a IA a "pensar" são homens. Assim, os comportamentos de tomada de decisão e previsão da IA são essencialmente masculinos. Não admira que o Papa tenha apelado ao "desarmamento" da IA. Os homens vão para a guerra.
O mundo está uma confusão. Será que a IA pode ajudar? Talvez sim. Talvez não. Estas são as respostas do Papa Leão na Magnifica Humanitas, que divulgou em 25 de maio juntamente com três cardeais, duas professoras e Christopher Olah, cofundador da gigante da IA Anthropic. Olah é especialista em engenharia reversa de redes neurais na Anthropic. Isso significa que ele analisa o interior da máquina, por assim dizer, tentando compreender como ela aprende, como "pensa" e como toma decisões. Mas quase tudo o que ele estuda provém do ponto de vista masculino. A perspectiva masculina domina as respostas, os algoritmos, as previsões e as decisões da IA do início ao fim.
Será que "neutro em termos de gênero" seria melhor? Não. Se os formadores tiverem como objectivo a eliminação total do gênero, se o gênero for retirado da equação e tudo o que for introduzido nas máquinas de IA for não-binário, as respostas e decisões da IA continuarão provavelmente a ser orientadas para o masculino, uma vez que o padrão geral na linguagem é o masculino. Então, existe uma solução? Onde pode ser encontrada?
Sugestão: sinodalidade e reciprocidade sinodal. "Reciprocidade" é uma palavra que permeia todo o documento final do Sínodo sobre a Sinodalidade, que se prolongou por vários anos (e continua), iniciado pelo Papa Francisco em 2021. A reciprocidade exige que as perspectivas dos homens e das mulheres sejam consideradas de forma positiva, se não de forma igualitária. Trata-se de uma questão de epistemologia — de como conhecemos e compreendemos. Os seres humanos são seres com género, dotados de um corpo, e possuem perspectivas diferentes.
A reciprocidade procura fundir essas perspectivas. O conceito de "reciprocidade" refuta o erro epistemológico que vê o masculino e o feminino como existindo e sendo definidos apenas em oposição um ao outro. Defende também que a combinação de pontos de vista tem mais probabilidades de conduzir a uma resposta equilibrada a qualquer questão que surja.
Poderá a sinodalidade sobreviver na Igreja Católica, e poderá a IA ser útil, quando tanto a Igreja como a IA assumem por definição um ponto de vista masculino? Se a busca é pela verdade, só a reciprocidade pode produzir perguntas e respostas equilibradas — e, diriam alguns, corretas. Como escreveu outrora o poeta americano E.E. Cummings: "A resposta mais bela é sempre aquela que vem de quem faz a pergunta mais bela."
O Papa Leão está colocando as questões certas. Ele escreveu: "Quando os sistemas de IA se apresentam como neutros e objetivos, acabam por refletir e reforçar os estereótipos ou preconceitos ideológicos dos seus criadores e programadores." (#102) Resta esperar que as perspectivas das mulheres sejam incluídas nesta equação.
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