Argentina: a Igreja na ditadura

Manifestação contra os desaparecidas durante a Ditadura Militar Argentino. (Foto: Domínio Público)

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22 Junho 2023

Realizado pela Faculdade de Teologia da UCA (Universidade Católica Argentina) a pedido da Conferência Episcopal Argentina e com base no estudo de uma vasta documentação de arquivos eclesiásticos desclassificados, La verdade los hará livres [A verdade vos libertará] é uma obra monumental e inédita sobre a atuação da Igreja Católica no período da ditadura militar (e não só) na Argentina entre 1966 e 1983.

A reportagem é de Fabrizio Mastrofini, publicada por Settimana News, 19-06-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Os dois volumes lançados até agora (o terceiro e último está previsto para 2023), elaborados por um grupo de trabalho coordenado pelo teólogo Carlos Galli, nos fornecem, pela primeira vez, acesso direto a toda a documentação do arquivo do episcopado argentino.

Durante um encontro com jornalistas, a obra foi apresentada no Vaticano em 16 de junho (Sala Marconi, Vatican News) na presença do próprio Galli, com Federico Tavelli, teólogo e historiador.

O "Processo de Reorganização Nacional"

Os documentos analisados e publicados nos dois volumes provêm dos arquivos da Conferência Episcopal Argentina e dos arquivos da Santa Sé, entre os quais a Secretaria de Estado, o Conselho de Assuntos Públicos da Igreja e a Nunciatura na Argentina, entre outros. Essa originalidade torna a obra pioneira no mundo, visto que o acesso a essas fontes costuma ser disponibilizado aos pesquisadores cerca de setenta anos após sua produção.

Partindo da "Revolução Argentina" de 1966, esse apaixonante trabalho enfoca o chamado "Processo de Reorganização Nacional", iniciado com o golpe de Estado de 24 de março de 1976. Examina criticamente as concepções teóricas e as ações concretas que influenciou as posições dos bispos e da Conferência Episcopal diante das várias formas de conflito e violência: o golpe de estado, os movimentos guerrilheiros, os grupos paramilitares, o terrorismo de Estado, a defesa dos direitos humanos e o trágico número de mortos, especialmente de desaparecidos.

Não só isso: nos dois volumes publicados encontramos uma reconstrução cuidadosa do clima cultural, social e político. Muito esclarecedoras, no segundo volume, as passagens que reconstroem a intervenção direta de João Paulo II no Angelus de 28 de outubro de 1979 sobre os desaparecidos, as intervenções e tentativas das Mães da Praça de Maio e depois das Avós da da Praça de Maio para enviar informações em primeira mão à Santa Sé.

No primeiro volume, destacam-se as páginas muito acuradas dedicadas à história dos dois jesuítas sequestrados em março de 1976 (padre Jorio e padre Jalics, libertados depois de vários meses) e o papel do então provincial, padre Jorge Mario Bergoglio.

Lembrar o bem

Como escrevem os bispos da Comissão Executiva da Conferência Episcopal no Prefácio Geral:

“Se em outros países e sociedades havia pessoas que se encarregavam pessoalmente das execuções de terroristas e opositores em geral, em nosso país tentou-se fugir da realidade sem enfrentá-la em seu ponto crucial, que é a vida humana. O desprezo pela vida humana foi evidente não apenas nos atentados terroristas sofridos por nossa sociedade, mas, de forma qualitativamente diferente, no sistema de repressão instaurado durante a ditadura do governo militar de 1976 a 1983, no esforço desesperado de muitas famílias para descobrir onde estão seus filhos desaparecidos e recuperar seus corpos, caso tenham sido mortos, ou recuperar sua identidade, no caso de crianças nascidas em cativeiro e entregues ilegitimamente a outras famílias. Cultivar a memória é tentar, por todos os meios, fazer justiça ao que aconteceu e, como muitas vezes acontece, isso também nos leva a descobrir gestos de profunda humanidade que, mesmo no meio de situações aberrantes, se erguem como sinais luminosos de que a dignidade humana é capaz de superar o horror mais desumano. Por isso, nessas páginas podemos honrar a “memória dos horrores, mas também à recordação daqueles que, no meio dum contexto envenenado e corrupto, foram capazes de recuperar a dignidade e, com pequenos ou grandes gestos, optaram pela solidariedade, o perdão, a fraternidade. É muito salutar fazer memória do bem” (FT 249).

Referência

Carlos Galli; Luis Liberti; Juan Durán; Federico Tavelli (org.). La verdad los hará libres I-II: La Iglesia católica en la espiral de la violencia en la Argentina 1966-1983. Editorial Planeta, 2023.

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