A guerra diária contra o meio ambiente. Entrevista com José Eustáquio Diniz Alves

23 Mai 2026

No dia 16 de maio de 2026, o Centro de Promoção de Agentes de Transformação - CEPAT e o Observatório Nacional de Justiça Socioambiental Luciano Mendes de Almeida - OLMA promoveram a abertura da série de debates [on-line] Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos. O evento inaugural teve como tema central Conflitos armados e impactos socioambientais e contou com o apoio do Conselho Nacional do Laicato do Brasil - CNLB, das Comunidades de Vida Cristã – CVX, Regional Sul, do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá - UEM.

A atividade teve como convidado o Prof. Dr. José Eustáquio Diniz Alves, renomado demógrafo e pesquisador na área de meio ambiente, que traçou um panorama crítico sobre as conexões profundas entre o atual modelo econômico, a máquina de guerra global e a aceleração das crises climáticas.

Abaixo, os principais temas abordados, em formato de entrevista.

Eis a entrevista.

Professor, quando pensamos em geopolítica e conflitos armados, a destruição ambiental costuma ser vista como um efeito secundário. Como o senhor analisa essa relação?

Para entender o cenário atual, precisamos inverter essa lógica: antes das guerras entre nações, existe uma guerra diária e silenciosa contra o meio ambiente. Esse conflito cotidiano promovido pelo nosso modelo de desenvolvimento vai se acumulando ao longo do tempo e sabota as bases econômicas e sociais do planeta.

Gosto de lembrar de uma frase emblemática que a ativista Greta Thunberg disse na ONU, em 2019: “Nossa casa está pegando fogo”. Nos últimos anos, a própria Greta passou a conectar a pauta climática à luta contra os conflitos armados. Ela percebeu que o conflito do ser humano contra a natureza e os conflitos armados entre os países são faces da mesma moeda.

Série de debates ‘Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos, com o tema ‘Conflitos armados e impactos socioambientais'

Em termos históricos, a humanidade sempre enfrentou desafios climáticos. Por que o momento atual é considerado tão alarmante e inédito?

Nós prosperamos como civilização durante um período geológico chamado Holoceno, que compreende os últimos 12.000 anos. Foi nessa época que o ser humano deixou de ser estritamente coletor, fixou-se na terra, desenvolveu a agricultura e gerou excedentes que permitiram o surgimento das cidades. Toda a nossa evolução - a redução da mortalidade e o aumento da expectativa de vida - ocorreu sob uma condição fundamental: a estabilidade climática. Durante esse período, a temperatura média mundial variou menos de meio grau.

O grande ponto de ruptura ocorre com a Revolução Industrial e Energética. Passamos a queimar combustíveis fósseis em larga escala, e a temperatura disparou. Já estamos tocando o limite de 1,5 grau estabelecido pelo Acordo de Paris. Para se ter uma ideia da gravidade, na história de toda a evolução humana - incluindo nossos ancestrais hominídeos de 3 ou 4 milhões de anos atrás - nossa espécie nunca viveu em um planeta com temperatura de 2 graus acima da média. Entrar nessa faixa é caminhar rumo ao desconhecido.

O senhor mencionou a Revolução Industrial e o uso de combustíveis fósseis. Como essa queima se traduz no colapso ambiental que vemos hoje?

É um cálculo matemático e físico direto. A queima de carvão, petróleo e gás libera volumes em massa de dióxido de carbono (CO2). Esse gás funciona exatamente como o teto de uma estufa: permite que a energia solar entre na Terra, mas impede que o calor seja refletido e dispersado de volta para o espaço. O calor fica preso na atmosfera.

Com mais calor retido, o resultado é o degelo acelerado dos polos, da Groenlândia e das grandes cordilheiras, como o Himalaia e os Andes. Esse gelo que derrete vai direto para o oceano, elevando o nível do mar. Registros históricos do planeta indicam que, se consolidarmos uma temperatura de 2 graus acima da média pré-industrial, o nível do mar subirá entre 5 e 10 metros.

O que uma elevação desse nível do mar significa, na prática, para as populações e para o planeta?

Significa o desaparecimento de regiões costeiras inteiras onde vivem bilhões de pessoas. Eu moro no Rio de Janeiro, na zona sul. Se ultrapassarmos os dois graus de aquecimento global e esse efeito estufa persistir por mais um ou dois séculos, bairros inteiros como Copacabana, Ipanema, Leblon e a Barra ficarão completamente submersos.

Mas o problema é global e sistêmico. Metrópoles mundiais como Nova York e Xangai e Lagos - uma das maiores cidades do continente africano, na Nigéria - enfrentarão o mesmo destino. Além disso, perderemos áreas agricultáveis cruciais para a segurança alimentar. O caso de Bangladesh é dramático: é um país extremamente populoso, com mais de 150 milhões de habitantes, onde a maior parte do território está a poucos metros acima do nível do mar. Se o oceano subir apenas meio metro, a produção agrícola daquele país colapsa e teremos uma crise humanitária sem precedentes.

Entrando, agora, diretamente na geopolítica internacional, os orçamentos de defesa das grandes potências parecem ignorar a urgência da crise ambiental. Como o senhor conecta o aumento dos gastos militares com o agravamento do aquecimento global?

A correlação é alarmante e direta. Nos anos 1980, em plena Guerra Fria, o mundo gastava um pouco mais de 1,5 trilhão de dólares com forças armadas. Com o fim daquele período, nos anos 1990, houve uma redução bem-vinda para a faixa de 1 trilhão. Infelizmente, após o 11 de setembro e as guerras do Iraque e Afeganistão, esses investimentos em destruição em massa voltaram a disparar. Atualmente, com a invasão da Ucrânia pela Rússia e a escalada de violência envolvendo Israel, Estados Unidos, Palestina e Irã, o gasto militar global ultrapassou a marca histórica de 2 trilhões de dólares.

Para contextualizar o impacto climático disso, calcula-se que cada 100 bilhões de dólares injetados em gastos militares resultam na emissão adicional de 32 milhões de toneladas de gases do efeito estufa na atmosfera. Nós estamos tirando recursos preciosos que deveriam financiar a transição para energias renováveis para financiar guerras e conflitos que operam à base de combustíveis fósseis e devastam biomas inteiros. A guerra na Ucrânia destruiu rios, florestas e biodiversidade, além de ceifar vidas. No Oriente Médio, que já é uma região com escassez histórica de água, os bombardeios destroem fontes potáveis e infraestruturas de saneamento. Toda guerra começa destruindo o meio ambiente.

Diante dessa máquina de guerra e destruição ecológica, muitas vezes se fala em proteger a biodiversidade para as próximas gerações. Esse discurso ainda faz sentido?

Não podemos mais tratar o colapso climático como um problema do futuro. Não se trata de salvar as “próximas gerações”, mas, sim, de garantir a sobrevivência de quem já está aqui hoje. As crianças que nascem agora enfrentarão esse cenário de terra arrasada na próxima década. No Brasil, já estamos testemunhando tragédias climáticas recorrentes com chuvas intensas e enchentes devastadoras. A nível global, os incêndios florestais saíram do controle na Grécia, em Portugal e na Califórnia [Estados Unidos].

Série de debates ‘Emergências socioambientais na geopolítica dos conflitos, com o tema ‘Conflitos armados e impactos socioambientais'

Um dos conceitos que se destacam na sua exposição é a diferenciação entre o que o senhor chama de “petroestado” e “eletroestado”. Como essa dinâmica se reflete nas políticas dos Estados Unidos e da China?

Essa é a grande fratura da geopolítica atual. Os Estados Unidos atuam fortemente sob a lógica do petroestado. O governo norte-americano adota uma postura abertamente negacionista, promovendo o slogan "drill, baby, drill" (perfure, querido, perfure), expandindo a exploração de petróleo e boicotando a própria transição energética internacional. Eles usam seu poder militar e econômico para tentar controlar rotas estratégicas de combustíveis fósseis, como o Estreito de Ormuz.

Por outro lado, temos a China. Embora os chineses ainda sejam os maiores emissores globais de CO2 pelo uso histórico do carvão, eles criaram uma estratégia cirúrgica de sobrevivência e soberania. Como a China não possui grandes reservas de petróleo e gás para sustentar seu crescimento, o governo decidiu liderar a transição energética do século XXI, investindo massivamente para se transformar em um eletroestado.

Há duas décadas eles investem em tecnologia de ponta. Só no ano passado, o mundo instalou cerca de 700 gigawatts de energia renovável, a maior parte em solo chinês. Para dar uma base de comparação, a Usina de Itaipu tem uma capacidade de 14 gigawatts. Isso significa que a capacidade instalada pela China equivale a dezenas de novas ‘Itaipus’ em um curto período.

Enquanto os Estados Unidos gastam bilhões atolados em conflitos militares externos, a China domina o mercado global de painéis solares, baterias de lítio e veículos elétricos mais eficientes e baratos. O Brasil e o mundo já estão sendo inundados por essa indústria elétrica chinesa. Eles transformaram a segurança climática em hegemonia econômica e tecnológica.

Diante de potências tão fortes e da urgência do tempo, o que resta para as organizações sociais e para o cidadão comum? Como podemos exercer nosso papel de “guardiões da casa comum”, sem sucumbir ao desespero?

O primeiro passo indispensável é a conscientização. Precisamos pautar o debate público com dados científicos reais e mostrar a gravidade do problema. A transformação precisa acontecer em múltiplos níveis.

No plano individual e comunitário, precisamos adotar medidas práticas de redução da nossa pegada ecológica. Isso passa por uma mudança profunda na nossa dieta alimentar. A pecuária é uma das principais fontes de emissão de gás metano. Enquanto os governos comemoram acordos comerciais para expandir a fronteira agrícola e a venda de carne, a sociedade civil precisa fazer o caminho inverso: reduzir drasticamente o consumo de proteína animal.

Outra frente necessária é o fomento à agricultura urbana. Trazer a produção de alimentos para dentro das cidades, inclusive ocupando verticalmente prédios abandonados, reduz o uso de combustíveis fósseis no transporte de cargas e garante segurança alimentar local.

No plano político, a sociedade civil organizada deve pressionar os governos locais por investimentos pesados em transporte público eletrificado e de matriz limpa. No Brasil, por exemplo, é inadmissível que a Petrobras ainda prefira priorizar a exploração de combustíveis fósseis na Margem Equatorial, na foz do Amazonas, em vez de triplicar os aportes em energia eólica e solar. Nós já temos a tecnologia e, hoje, a energia limpa é mais barata do que a fonte fóssil. É uma questão de prioridade e de vontade política.

Precisamos nos mobilizar. Lutar pelo fim dos conflitos armados internacionais é a única forma de liberar os trilhões de dólares necessários para financiar a regeneração do nosso planeta.

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