23 Julho 2026
O futebol se tornou algo excessivo em todo o mundo. Não é mais apenas um esporte, nem um produto da cultura de massa. Para milhões de pessoas, é o único lugar onde podem perceber a verdade e a bondade.
O artigo é de Guillem Martínez, publicado por CTXT, 21-07-2026.
Guillem Martínez é autor de CT o la cultura de la Transición: crítica a 35 años de cultura española (Debolsillo), de 57 días en Piolín, da coleção Contextos (CTXT/Lengua de Trapo), de Caja de brujas, da mesma coleção, e de Los Domingos, seleção de seus artigos dominicais (Anagrama). Seu mais recente livro é Como los griegos (Escritos Contextatarios).
Eis o artigo.
O futebol já é algo desmedido em todo o mundo. Já não é apenas um esporte, nem um produto da cultura de massas. É o único ponto, para milhões de pessoas, em que se pode tocar o que é verdadeiro e o que é bondoso
1 — Vejo as partidas de Cabo Verde. Não se chega a realizar, em nenhuma delas, o futebol. Cabo Verde o impede, produzindo, nesse esforço, 90 minutos de nada. O que é desesperador. Até que percebo que isso, o nada, é o que o Irã faz com os EUA. E compreendo melhor o desespero dos EUA. E o orgulho pontual do Sul Global. No Irã, nesse sentido, está se produzindo algo mais determinante e profundo do que a derrota. O nada no adversário.
2 — Partida dramática entre Argentina e Egito. As coisas não vão bem para a Argentina. Observo que, nas pausas de hidratação, a seleção do Egito, que está ganhando, fala, negocia, discute, enquanto a argentina, que perde, não faz nada. Ou melhor: só olha para Messi. Todos e cada um dos jogadores olham para Messi, como buscando ou esperando algo. E é isso mesmo o que acontece. Buscam o olhar. Sobre o olhar, esta história. Ouvi dizer um dia, há mil anos, que Guardiola, quando o Dream Team, antes da partida, no momento anterior, sempre olhava para Romário. Olhava profundamente, nos olhos. E em seus olhos sabia se Romário estaria na partida ou não. Se ganhariam ou perderiam. Na zona alta do futebol, onde só jogam os imortais, como Messi, como Romário, tudo funciona de outra maneira porque tudo é de outra maneira, com outros corpos e outras mentes que não existem na vida, mas apenas no futebol e durante um segmento breve de tempo. O único certo e real, o único compreensível de tudo isso para nós é, apenas, esse olhar. É um olhar, quando acontece, certo, real e perturbador, como é o olhar da violência, do desejo ou do amor, todos esses antes e depois, quando acontecem.
3 — Quando os jogadores saem a campo, sempre tento ver, por isso mesmo, seu olhar. Ver se O olhar existe ou não, se o trazem posto naquele dia nos olhos, se será uma boa partida. Se existe, é um olhar denso, voltado para dentro, sólido, hipnótico. De pessoa que não vê nada nem ninguém, exceto seu destino. Se não existe, é o olhar do mau ator, de quando um ator não está em seu papel e finge fingir que finge que olha. Surpreendeu-me que, exceto nas duas últimas partidas da seleção, esse olhar sem substância, vazio, de madeira, era o olhar de Lamine Yamal. Não ter, pontualmente, esse olhar, é a marca de possuí-lo, pois esse olhar é esquivo e não existe sempre. Lembrem: é como o olhar da violência, do desejo, do amor, esses olhares que não podem ser permanentes ou enlouqueceríamos. No futebol, manda esse olhar. Manda tanto que, às vezes, manda não aparecer.
4 — Estou fascinado por Haaland. Tudo nele é amabilidade e bondade fora do estádio. Tanto que a violência incomum que pratica — Haaland é um bloco enorme, e o contato com esse bloco em movimento é, por isso, algo espetacular e perigoso — não só se desculpa, como nem sequer se percebe. Com isso, e sem querer, Haaland está demonstrando que o estádio, esse espaço fechado e com lógica própria, aumentou de tamanho em poucas décadas. Já não é o ponto em que se joga futebol, mas o ponto amplo, gigantesco, em que se realizam as entrevistas, os encontros com as câmeras, em que se informa, em que os jogadores falam ou dançam, de modo que, paradoxalmente, já custa ver o que acontece no estádio estrito, pois tudo é estádio.
5 — Escuto, antes de uma partida, o hino dos EUA. Não é muito antigo. Esse hino de 1812, cantado sobre uma partitura original da qual não se sabe muito, é o hino oficial dos EUA desde apenas 1931. Ontem, como quem diz. O que revela a pouca importância que os EUA davam, até há pouco, aos símbolos, essa chaga europeia. O hino dos EUA, no entanto, possui uma letra belíssima. Comove por sua qualidade lírica. Acontece o contrário com os hinos do desaparecido bloco do Leste. Às vezes sua partitura é particularmente bela, como acontece no antigo hino da URSS — hoje, com letra trocada, o da Rússia — e o da RDA, sem dúvida um dos melhores hinos possíveis, de uma qualidade musical descomunal. Mas as letras desses hinos são um desastre. Carecem de qualquer poesia. Têm tão poucas imagens poéticas que parecem puro reggaeton. O que me leva, de repente, a uma epifania. A URSS, a RDA, eram pesadelos, que seus hinos atenuavam e disfarçavam formalmente, enquanto o capitalismo já é algo tão desmesurado que precisa de muita beleza e emoção, e de grande qualidade, aliás. Ou seria insuportável.
6 — Mais sobre hinos. Os sul-americanos tendem, vejo, a cantar seu hino a plenos pulmões. Como, suponho, se fazia tudo na escola, na infância universal. Os franceses, vejo, cantam discretamente. Ou, ao menos, mexem os lábios. O que indica que têm certo temor de não cantar, de serem identificados como pouco patriotas. Os espanhóis ficam em silêncio. Um amigo dos EUA me pergunta por que os jogadores espanhóis não cantam o hino. "São anarquistas?", me diz, entusiasmado. Não. Não podem cantar não porque o hino não tenha letra, mas, precisamente, porque a tem. Tem três, uma letra carlista, outra falangista, e outra, ainda mais sinistra, escrita por José María Pemán, que insistia na questão imperial, ou seja, hispano-americana, ou seja, imperial, indeed. Foi o hino oficioso durante o franquismo. Por exigências do roteiro, desapareceu como um ninja nos anos 1970. Hoje, pelas mesmas exigências, é um hino ao silêncio. É o hino de um Estado mudo, que é melhor que não fale, porque quando fala é brutal. E está voltando a falar.
7 — Voltando ao hino russo, fabuloso, aí vai esta história. Em um determinado momento, quando Boris Ieltsin, o hino ficou sem letra. Até que os atletas de esportes coletivos pressionaram para ter uma letra que pudessem cantar antes das partidas internacionais, como faziam antes, abraçados, na época da URSS. Suas súplicas foram ouvidas, e o hino ganhou texto. Aos atletas de esportes coletivos, enfim, gostam de cantar juntos, e o Estado adora a crença de que o próprio Estado é um esporte coletivo. Não é. É exatamente o contrário. Não requer nada nem ninguém. Não nos requer. A propósito disso: à medida que os mundiais avançavam, tanto os jornalistas da TV quanto o técnico não paravam de repetir a seguinte ideia: a Espanha é imparável quando todo mundo joga em equipe. O que é uma ideia bastante discutível. A seleção é uma equipe, mas, obviamente, não é a Espanha. E a Espanha, por sua vez, não precisa que todo mundo jogue em equipe. Mais ainda, ela explodiria pelos ares se isso acontecesse, se houvesse um momento de equipe, uma catarse coletiva, um instante em que toda a cidadania se olhasse nos olhos e se reconhecesse nos olhos de todos. Isso, produzir isso, significaria produzir uma cerimônia cívica. Algo extremamente perigoso, se entendermos que a última aconteceu em 1931. Tudo o que conhecemos passa pelo fato de que nenhuma cerimônia cívica se produza, que nunca, jamais, se chegue a jogar em equipe.
8 — Todas as seleções tendem a levar na camisa o escudo de sua federação. Exceto poucas. Entre essa minoria, destaca-se a seleção espanhola, que leva o escudo do Estado. Esse escudo indica que ali não se trata da seleção de nenhuma federação, mas da seleção de um Estado. Ou seja, que não se vai permitir, sob nenhum conceito, que haja outras seleções por aqui embaixo, como acontece no Reino Unido, que agrupem outras federações. A camisa, seu desenho, é, assim, a impossibilidade dessas seleções. O que explica um radicalismo tão intenso que ninguém percebe: o Estado quer controlar qualquer fenômeno cultural, de modo que nega ou desconfia de tudo aquilo que não controla. Por isso controla muito. Até uma camisa.
9 — Impressionante a partida Argentina-Inglaterra. E é impressionante porque foi verdadeira. Ou seja, não foi um combate ritual/o esporte. Meu primo — cara ótimo, argentino; sua geração é a que foi enviada para morrer nas Malvinas; hoje vive na Patagônia, em uma comarca enorme, habitada por umas 5 mil pessoas — me envia um vídeo em que aparece toda a população do entorno, muito dispersa no cotidiano, reunida de repente no que mais se parece a um núcleo urbano para celebrar a, talvez, única vitória que viverão nos próximos anos de pós-democracia argentina. Buzinam, sorriem e se olham nos olhos. E o conjunto resulta emocionante. Trata-se, é evidente, de uma cerimônia cívica. Onde faz anos que não há mais. Onde pode não voltar a haver, pois, tudo indica, o civismo, o próprio humanismo, cedeu lugar, pouco a pouco, a diversas gradações de crueldade social, até desembocar em um regime que, novamente, é a maldade absoluta, a promessa de que o homem seja um lobo para o homem. Com a maldade, observo, cresce o futebol, sua intensidade, sua inocência. O fato de que o culto ao futebol seja desmedido e repleto de significados na Argentina, esse laboratório da Humanidade, explica que o futebol seja algo já desmedido em todo o mundo. Já não é um esporte, nem um produto da cultura de massas, nem um prolongamento, pontual e belo, da infância. É o único ponto, para milhões de pessoas, em que se pode tocar o que é verdadeiro e bondoso. Em que se pode amar o outro.
10 — Rajoy não é um intelectual. A importância do que ele diz é que quem diz é um qualquer. Ou seja, qualquer um. Rajoy fala a partir do senso comum, o menos comum dos sentidos, aquele que é mais modificável pela propaganda. A nacionalidade, ilustra a polêmica Rajoy, é algo cada vez mais difícil. Para ser nacional, mesmo de uma nação sem Estado nem papéis, você precisa, além de papéis, de uma cor de pele determinada, de um sotaque, de um nome e, mais ainda, de uma ideologia ambiente, isto é, um senso comum "nacional", ou seja, próprio de uma "maioria nacional", que é o verdadeiro passaporte.
11 — Fascinado por Olise, da seleção francesa. Fruto da imigração, Olise poderia ter jogado, além de pela França, pela Inglaterra, pela Argélia ou pela Nigéria. No fim, optou por jogar por uma seleção cuja língua mais comum não fala com fluência. O que me parece magnífico. A França é o país que, aliás, mais jogadores forneceu a estes mundiais, embora distribuídos entre diferentes seleções. Sobre Olise: é, sem dúvida, o melhor jogador destes mundiais. Tem outro mapa do espaço na cabeça, e outros movimentos no corpo. Desestabilizador, alegre, sexy, moleque, me lembra o Cruyff que não vi e que os mais velhos me explicaram. Mas, de repente, desapareceu. Desapareceu seu jogo em sua equipe e, alguns segundos antes disso, seu olhar. O olhar do futebol, o do desejo, o do amor, essa joia intermitente. O olhar, como quase tudo na vida, é um aqui e um agora.
12 — A imigração, uma imigração cruel, às vezes sangrenta, entrou com profundidade e frescor no futebol. Vejo, nesse sentido, um documentário que explica a vida — breve, geralmente de uns vinte anos — dos jogadores da seleção. Há muito estudante ou formado em Administração — a época — entre os rostos pálidos. Os jogadores de origem africana não viveram uma epopeia, mas várias, até entrar na elite do futebol, essa coisa improvável, mas com mais chances de se realizar do que acessar, sem ajuda, via trabalho ou estudo, a classe média ou, mesmo, a uma certa estabilidade. A imigração, essa é a sensação, não consegue entrar na realidade com a liberdade, tranquilidade e força com que entra no futebol. E parece que os jogadores de origem africana sabem disso. Quando falam de sua infância, de sua mãe trabalhando além do legal e do humano, o olhar se transforma.
13 — Quando terminam as semifinais, aparecem imagens do rei assistindo à partida com sua família, todos de camisa, todos tomados pela paixão e pela emoção, todos se comportando diante da tela da televisão como se não houvesse câmeras os filmando. São mais uns torcedores. São mais uma família. Este país é imparável quando todo mundo joga em equipe, etc. O futebol não só admite e assume as infâncias de todo mundo, as paixões coletivas de difícil verbalização, a emoção, o Sul nunca redimido, a imigração, o racismo, como também funções básicas de propaganda, funções de modulação do senso comum. Um dia desses, o futebol, por tudo isso, explode, deixa de explicar a realidade para passar a ser outra região incompreensível da realidade e, por isso, sem interesse algum.
14 — Vou de carro e escuto no rádio que todo mundo lembra o que fazia no dia da final da África do Sul. Eu lembro. Meu filho era pequeno, vínhamos de uma viagem e paramos para comer em qualquer lugar e fora de hora, num ponto de passagem, na parte alta da cidade, que não costumávamos frequentar. Lembro de escutar, do restaurante, a gritaria do gol de Iniesta, e que, pouco depois, entrou no restaurante um homem, mais velho do que eu, para celebrar a coisa. Sua celebração consistiu em plantar-se diante da minha mesa e gritar: "Viva a Espanha, caramba!" Esperou alguns segundos minha resposta. Depois voltou a gritar o mesmo. Produziu-se então um duelo de silêncio e de olhares. Devo ter feito O olhar, pois aquele sujeito baixou a guarda e foi embora. Hoje, temo, o olhar teria sido dele, e a história teria tido outro final. Quando foi embora, fiquei brincando com meu filho sobre aquele jeito carregado de pronunciar as palavras "Espanha" e o palavrão que soltou, aquele som que só sai da garganta de um fascista quando diz "Espanha" ou xinga. É um som superlativo. Raro. Místico. De quem não domina essas duas palavras. Porque não as entende.
15 — Surpreendeu-me, naqueles mundiais da África do Sul, a qualidade dos comentaristas. Não conseguiam nem sabiam descrever o futebol total e altamente técnico do cruyffismo. Por isso acabaram chamando a coisa de "tiki-taka". O tempo que economizavam ao usar essa palavra para tudo, dedicavam a preenchê-lo gritando e animando a Espanha durante toda a transmissão. A plenos pulmões. "Vamoooos Espanhaaa", e coisas assim. Este ano não foi tão extremo, mas também não aconteceram as análises. A única coisa sexy que ouvi na TVE foi um jornalista francês, que não conheço, mas que imagino tendo aprendido o ofício anos atrás no L'Équipe — como La Gazzetta dello Sport, na Itália, uma maravilha, formas certeiras de descrever o futebol, inexistentes em espanhol, temo. As transmissões da TVE continuam sendo um mistério para mim. Não sei em que consiste ir animando a seleção e ir comunicando que o gol não pode demorar. Até que, de repente, me invade uma suspeita atroz: e se o jornalismo, por aqui, for isso e assim em todas as seções, não só nos esportes?
16 — Dia da final. Me pega de novo num bairro loiro. Gritos de "viva a Espanha, caramba". Que, ainda não sei, vão se repetir a noite toda. Mudou a média de idade dos patriotas — ou dos xingadores. Muito mais baixa. E a uniformização. Todos vão com a bandeira em modo capa, como há apenas dez anos ia o processismo catalão. Essa foi sua grande contribuição, seu legado. Os nacionalismos nunca desaparecem, só se transformam.
17 — Final dos mundiais. Trump assiste por trás de um anteparo à prova de balas. A tecnologia permite que esse tipo de anteparo seja transparente, até imperceptível. O fato de o anteparo não ser assim é, portanto, uma decisão. Ao contrário do que acontecia até agora, as autoridades querem voltar a ser opacas. Não ser vistas. Querem sua segregação. Querem estar à parte. É a Época.
18 — Final da final. A tática do Sul Global — impedir o jogo —, que tão bem funciona para o Sul Global, não funcionou para a Argentina. Messi, o melhor jogador que já vi na vida, também não teve o olhar. Às vezes acontece. O olhar, de fato, é um milagre. Observo, no entanto, que alguns de seus companheiros o possuem agora, quando a partida terminou. Têm-no nos olhos enquanto agridem jogadores da equipe vencedora. É como se o futebol continuasse por outros meios. Ou seja, é como se o futebol continuasse na realidade, sem bola, sem campo. É o esbanjamento da paixão quando a paixão já é a única coisa que resta, a única gramática, a única inteligência. É possível que Milei tenha arrasado com tudo o mais.
19 — Depois da partida, Pedri, como sempre, bate um pênalti para seu pai. O futebol, enfim, é algo criado para poder falar com nossos pais. A primeira vez que meu pai me levou ao futebol foi há mil anos. Ficamos conversando a partida toda. O mundo era mais simples. A ponto de a torcida gritar, lembro, "a-la-bim-a-la-bam-a-la-bim-bom-bam". Hoje o futebol, e a vida, são muito mais difíceis de interpretar. Como vocês viram.
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