10 Fevereiro 2025
"é preciso praticar o desejo de receber do outro, considerando que suas próprias formas de ser e pensar não são as únicas existentes, mas que se pode aceitar aprender relativizando os próprios comportamentos. Existe um relativismo cultural e religioso saudável que significa aprender a cultura e a religião dos outros sem compará-las com a própria: essa atitude é necessária em uma relação de alteridade no qual é preciso assumir o risco de expor a própria identidade ao que ainda não é... ", escreve o monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado em La Stampa, 01-02-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Quem nunca se perguntou como percorrer os caminhos do encontro, do diálogo, da relação com o outro, com cada outro, com cada rosto humano? Em primeiro lugar, é necessário reconhecer o outro em sua singularidade específica, reconhecer sua dignidade como ser humano, o valor único e irrepetível de sua vida, sua liberdade, sua diferença: é homem, mulher, criança, idoso, crente, não crente, diversamente crente. É um ser humano como eu, mas diferente de mim, em sua irredutível alteridade! Teoricamente, esse reconhecimento é fácil, mas na realidade, precisamente porque a diferença desperta medo, é preciso levar em conta a existência de sentimentos hostis a serem superados: em particular, há em nós uma atitude que repudia tudo o que está longe de nós em termos de cultura, moral, religião, estética ou costumes. Quando olhamos para o outro apenas pelo prisma de nossa própria cultura, ficamos facilmente sujeitos à incompreensão e à intolerância.
Portanto, é preciso praticar o desejo de receber do outro, considerando que suas próprias formas de ser e pensar não são as únicas existentes, mas que se pode aceitar aprender relativizando os próprios comportamentos. Existe um relativismo cultural e religioso saudável que significa aprender a cultura e a religião dos outros sem compará-las com a própria: essa atitude é necessária em uma relação de alteridade no qual é preciso assumir o risco de expor a própria identidade ao que ainda não é... Se estiverem presentes essas atitudes preliminares, então será possível se colocar à escuta: uma escuta árdua, mas essencial, de uma presença, de um chamado que exige uma resposta de cada um de nós e, portanto, solicita a nossa responsabilidade.
A escuta é a condição essencial para o diálogo. Dia-lógos: palavra que se deixa atravessar por outra palavra; entrelaçamento de linguagens, de sentidos, de culturas, de éticas; caminho de conversão e comunhão; via eficaz contra o preconceito e, consequentemente, contra a violência que nasce de uma agressividade não dita... É o diálogo que permite passar não só pela expressão de identidades e diferenças, mas também pelo compartilhamento dos valores do outro, não para assumi-los, mas para compreendê-los. Dialogar não é anular as diferenças e aceitar as convergências, mas dar vida às diferenças da mesma forma que às convergências: o diálogo não visa ao consenso, mas ao progresso mútuo, ao avançar juntos. Assim, no diálogo, ocorre a contaminação das fronteiras, ocorrem as travessias nos territórios desconhecidos, se abrem estradas inexploradas. Essas são as estradas que Jesus de Nazaré percorreu e deixou para seus discípulos como rastros a serem seguidos, tornando-se um mestre com sua arte da relação, sua disposição para escutar e acolher todos aqueles que encontrava em seu caminho, a ponto de permitir ser construído, edificado por essas relações.
O fato de o diálogo ser a atitude que deve animar a missão da Igreja está no centro do precioso ensaio de Jean-Marc Aveline, Il dialogo della salvezza, Piccola teologia della missione (O diálogo da salvação. Pequena teologia da missão, em tradução livre, Libreria Editrice Vaticana 2024). Para o grande público italiano, Jean-Marc Aveline é uma pessoa pouco conhecida, no entanto está entre os homens mais significativos, inteligentes e lúcidos que o catolicismo europeu expressa neste momento. Eu o conheço da época que se hospedava com frequência em Bose, durante os anos em que eu era prior; um conhecimento e uma amizade que me permitiram apreciar sua inteligência brilhante e sua profunda humanidade, marcada por aquela bondade genuína e simpática afabilidade típica do homem do Sul.
Aveline é arcebispo de Marselha e, há alguns anos, o Papa Francisco o nomeou cardeal, demonstrando publicamente sua estima pessoal. Ele é um bom teólogo, dotado de uma fé firme, mas não militante, capaz de dialogar sem ceder a sincretismos. Um clérigo de estilo simples, mas muito perspicaz e sábio. Para aqueles que, como acontece cada vez mais, me perguntam quem, em minha opinião, seria o próximo sucessor de Pedro, respondo sem hesitação: o arcebispo de Marselha, cujo sorriso lembra o do Papa João.
Nascido em 1958, na Argélia, em uma família que há quatro gerações havia chegado àquelas terras vindas da Andaluzia, mas também da Alsácia e da Vendeia, Aveline inscreveu em sua história pessoal o que ele define como “a memória feliz, discreta e mesmo assim profunda, de um convívio vivido na simplicidade, para além das diferenças de culturas e crenças”. Uma experiência vivida em primeira pessoa que demonstra “que uma fraternidade entre judeus, cristãos e muçulmanos é possível, como quando vivíamos sob o sol de Constantina, Oran ou Argel”. Obrigado com sua família a “repatriar” para a França em 1962, ainda jovem ele vivenciou em primeira mão as hostilidades, os preconceitos e o desprezo experimentados pelos chamados pied-noir, ou seja, os filhos de pais franceses que nasceram e viveram na Argélia antes da independência da colônia.
O Il dialogo della salvezza é, portanto, a síntese da experiência pessoal e do pensamento sobre a missão da Igreja, que Aveline amadureceu durante décadas como teólogo especialista em teologia das religiões e que vem experimentando concretamente há alguns anos como pastor de uma grande cidade multiétnica como Marselha. Nesse ensaio, o autor faz do diálogo a figura, o alicerce da atitude que a Igreja é chamada a assumir na sociedade atual: diálogo com as culturas, com as religiões, com as éticas. Para o autor, o encontro com o outro não é a escolha estratégica inevitável de uma Igreja que agora é minoria e perdeu toda a relevância social. O diálogo não é o último recurso de uma Igreja humilhada pelos escândalos, marginalizada pelos poderes deste mundo por estar agora privada de todo poder mundano, que não tem escolha a não ser se voltar para os pobres e os últimos. Pelo contrário, “quando está no meio dos pobres, a Igreja é mais plenamente católica, porque é lá que ela aprende de seu Senhor toda a grandeza, amplitude e profundidade da compaixão de Deus pelo mundo”.
Imbuído pela radicalidade do testemunho de Charles de Foucauld e de seu estilo de missão entre os fiéis do Islã em Tamanrasset, bem como pelo pensamento do grande islamólogo Louis Massignon e da visão da “conversão do missionário” do teólogo jesuíta Michel De Certeau, Aveline se distancia de uma compreensão equivocada da escolha da Igreja pelo diálogo como estilo de missão, especialmente quando o diálogo se torna uma cortina de fumaça para esconder o desejo de enterrar a missão sob os artifícios do relativismo generalizado. É por isso que ele ressalta: “Mas se a evangelização, mal compreendida, se tornasse para a Igreja a bandeira de uma vontade de conquista para impor improváveis ‘valores cristãos’, curvando-se sobre o identitarismo dominante, ainda assim deveríamos nos distanciar dela!”
Para nós, cristãos do Ocidente, hoje angustiados apenas pela descristianização maciça e generalizada de nossas terras, a visão da missão da Igreja indicada por Jean-Marc Aveline é uma lufada de ar fresco.
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