Tomáš Halík: “A Igreja precisa de aliados, se souber abordá-los sem arrogância”

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10 Fevereiro 2023

Se a Igreja quer contribuir para a transformação do mundo, tem de se transformar a si mesma de modo permanente, afirmou o teólogo e filósofo checo Tomáš Halík, numa “introdução espiritual” aos trabalhos da assembleia continental europeia do Sínodo católico sobre a Sinodalidade, que decorre durante esta semana em Praga, na República Checa.

A reportagem é de Manuel Pinto, publicada por 7 Margens, 06-02-2023.

A reforma de que a Igreja Católica necessita passa necessariamente, na visão de Halík, pela mudança, por exemplo, de “certas estruturas institucionais”. Mas, alerta ele, “para que dê bons frutos, essa reforma deve ser precedida e acompanhada de uma revitalização do sistema circulatório do corpo da Igreja, isto é, da espiritualidade”. E isto porque “não é possível concentrar-se unicamente nos diferentes órgãos e negligenciar o cuidado com aquilo que os liga e lhes insufla o Espírito e a vida”.

De entre o conjunto das intervenções da mesa que presidiu à abertura dos trabalhos – constituída apenas por homens e todos membros do clero – a alocução do teólogo checo constituiu um sólido e inspirador ponto de arranque para os trabalhos. Grande parte da manhã do primeiro dia foi ocupada pela apresentação dos contributos de cada uma das conferências episcopais da Europa. No programa couberam apenas 13, sendo as restantes – entre as quais a de Portugal – apresentadas esta terça-feira, 7. Mas já foi possível verificar a diversidade de situações, de preocupações e de prioridades.

Halík preocupou-se em refletir os problemas e desafios da relação da Igreja com o mundo em que se insere e de que é parte, tomando como referência, naturalmente, no quadro europeu, aquilo que designou por “fragmento da experiência histórica do cristianismo europeu, reconhecidamente pequeno, mas importante”, inserido “no colorido mosaico do cristianismo mundial do futuro”.

Assembleia continental europeia do Sínodo: a mesa que presidiu à abertura dos trabalhos era constituída apenas por homens membros do clero. (Foto: Sínodo 2024)

Contextualizando a sua comunicação, referiu-se aos finais dos anos 60, em particular à revolução cultural de 1968 como “o apogeu e o fim da era da modernidade” e a 1969, ano da chegada dos humanos à lua e da invenção do microprocessador e começo da era da Internet, como “o início simbólico de uma nova era pós-moderna”. A Igreja, que fez o seu aggiornamento nessa mesma década, chegou tarde à modernidade, precisamente quando ela estava a chegar ao fim. Não espanta, assim, que, como Halík, caracterizou, para o “homem moderno”, a Igreja seja “uma esposa muito velha e muito feia”.

Aquele intelectual referiu-se também ao “paradoxo da globalização” que caraterizaria a pós-modernidade: “Por um lado, a interligação quase universal, por outro, a pluralidade radical.”

“O lado negro da globalização – prosseguiu – está a manifestar-se hoje. Pense-se na propagação global da violência, desde os ataques terroristas aos Estados Unidos em 2001 até ao terrorismo de estado do imperialismo russo e ao atual genocídio russo na Ucrânia; pandemias de doenças infeciosas; a destruição do ambiente natural; à destruição do clima moral através do populismo, fake news, nacionalismo, radicalismo político e fundamentalismo religioso.”

“Um momento decisivo”

Na intervenção, o orador convocou a figura do jesuíta Teilhard de Chardin (1881-1955), chamando-lhe “um dos primeiros profetas da mundialização”, para quem “a única força que une sem destruir” não é o progresso ou o desenvolvimento, mas o amor, tal como surge testemunhado nos evangelhos.

Halík acredita que este é, assim, “um momento decisivo” que estamos a viver e que “a viragem do cristianismo para a sinodalidade, a transformação da Igreja numa vibrante comunidade de peregrinos, pode ter impacto sobre o destino de toda a família humana”.

Mas, interroga o teólogo checo, será que o cristianismo europeu tem hoje “a coragem e a energia espiritual para evitar a ameaça de um ‘choque de civilizações’, transformando o processo de globalização num processo de comunicação, partilha e enriquecimento mútuo, numa civitas ecumenica, uma escola de amor e fraternidade universal?”

Além das reformas estruturais e da revitalização da espiritualidade, a Igreja deve recusar aceitar “apenas quem é plenamente observador e comprometido”, como ocorre nas seitas, e cultivar espaços de encontro e busca de espiritualidade com quem procura sentido, como de resto defendeu o Papa Bento XVI, com a sua proposta do “pátio dos gentios”.

Para ser “sinal da unidade de toda a humanidade em Cristo”, a Igreja deve “resistir à tentação de considerar qualquer forma de Igreja, qualquer estado da sociedade, qualquer estado de conhecimento religioso, filosófico ou científico, como final e perfeito”, considera Tomáš Halík.

Quando a Igreja Católica se vê, como tantas vezes sucedeu na história do cristianismo, como uma ecclesia perfeita e triunfante, cai facilmente no triunfalismo, que é “uma perigosa forma de idolatria”, acrescenta o teólogo. “Estas trágicas experiências – reflete – conduzem-nos hoje à firme convicção de que a missão da Igreja é de ser uma fonte de inspiração e transformação espiritual, no total respeito pela liberdade de consciência de cada pessoa humana e na rejeição de qualquer uso da força, de qualquer forma de manipulação”.

A exemplo do que ocorre com o poder político, avisa Halík, “a influência moral e a autoridade espiritual podem ser também objeto de abusos, como nos mostraram os escândalos de abuso sexual, psicológico, econômico e espiritual na Igreja, especialmente o abuso e a exploração dos mais fracos e vulneráveis. Por isso, a missão da Igreja no mundo de hoje “não pode ser uma reconquista, expressão de nostalgia de um passado perdido, nem proselitismo ou manipulação”.

No caminhar juntos que caracteriza a sinodalidade, a Igreja “precisa urgentemente de aliados”, com quem partilha o caminho comum. Mas, para tal, não deve abordar os outros “com o orgulho e arrogância de quem possui a verdade”. É que, afirma, “a verdade é um livro que nenhum de nós leu até o fim. Não somos os donos da verdade, mas amantes da verdade e amantes d’Aquele que pode dizer: Eu sou a Verdade”.

Neste seguimento, o teólogo propõe a noção de “diaconia política”, que “cria uma cultura de proximidade e solidariedade, de empatia e hospitalidade, de respeito mútuo. Constrói pontes entre pessoas de diferentes povos, culturas e religiões”.

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