Sete vozes para um livro. A propósito de “Sem impedimentos”. Artigo de Andrea Grillo

Foto: Mateus Campos Felipe | Unsplash

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13 Junho 2024

"A tradição eclesial viveu o sexo feminino como um 'impedimento à ordenação'. Devemos também reconhecer que isso foi um ponto em comum com a cultura ambiental durante muitos séculos. A situação não precisava ser justificada: era resultado da cultura compartilhada", escreve Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em artigo publicado no seu blog Come Se Non, 11-06-2024.

Eis o artigo.

Acaba de ser lançada a coletânea organizada por Andrea Grillo intitulada Senza impedimenti: le donne e il ministero ordinato (Sem impedimentos: as mulheres e o ministério ordenado, em tradução livre, pela editora Queriniana). O livro conta com ensaios de Emanuela Buccioni, Cristina Simonelli, Luigi Mariano Guzzo, Serena Noceti, Luca Castiglioni, Andrea Grillo. Tem um prefácio escrito por Marinella Perroni.

Os autores e autoras apresentam uma sequência de sete intervenções em breves textos, nas quais procuram provocar no leitor o assombro, o desejo de leitura e a curiosidade para a descoberta de uma tradição dinâmica e rica sobre o ministério eclesial. São textos breves, provocações pontuais, que ajudam a entrar na lógica de um texto coral, mediante o qual se expressa o amadurecimento do corpo eclesial diante de novas possibilidades e novos desafios.

“Sem impedimentos: as mulheres e o ministério ordenado”, novo livro de coautoria de teólogas e teólogos italianos (Foto: Divulgação)

Impedimentos e parresia de Andrea Grillo

A tradição eclesial viveu o sexo feminino como um “impedimento à ordenação”. Devemos também reconhecer que isso foi um ponto em comum com a cultura ambiental durante muitos séculos. A situação não precisava ser justificada: era resultado da cultura compartilhada. A tradição eclesial deixou-se moldar pela cultura antropológica e social, que discriminava a mulher no plano da autoridade pública. Fomos cegos e surdos, como todos os outros homens. Mesmo que nos textos tivéssemos vislumbres de uma visão diferente, nós os deixamos de lado e os neutralizamos, sob a pressão do mundo.

A mulher irrelevante no plano público foi uma forma de normalizar a Igreja. Com o mundo “tardio-moderno”, graças à cultura da dignidade, que hoje permite à Igreja falar até de “dignidade infinita” de cada ser humano, pudemos reler a tradição e descobrir que também as mulheres podem ser chamadas ao ministério. Intuímos, sentimos tudo isso, mas não temos as categorias para dizê-lo plenamente. Assim se abriram dois caminhos.

O primeiro, que caracterizou o magistério católico dos últimos 50 anos, consiste em manter a reserva masculina, mesmo ao custo de inventar “novos impedimentos”: brilham aqui sobretudo o impedimento “histórico”, o “de autoridade” e o “por princípios”. Nenhum desses caminhos chega àquela evidência teológica com a qual pretenderia renovar o impedimento, mesmo negando em palavras qualquer discriminação.

Se a reserva masculina for deslocada quer para Jesus (que a teria afirmado com as suas ações), ou para o Papa (que não poderia deixar de reconhecê-la com as suas palavras) ou para o casal Pedro/Maria (o que seria normativa de uma oposição original entre instituição e carisma) o jogo parece encerrado.

Mas assim não se resolve uma questão, apenas se tenta silenciar a pergunta, mesmo com o medo. Mas, ao contrário, a pergunta não se cala. Essa estratégia das últimas décadas é moderna, demasiado moderna: pretendeu responder a uma pergunta nova por meio de uma negação de autoridade, com a qual, no entanto, se deixava de pé toda a autoridade tradicional. Negava-se a autoridade para não reconhecer a autoridade exceto para si mesmos, com um dispositivo de bloqueio substancialmente autorreferencial.

Diante deste “bloqueio”, um “desbloqueio” só pode ocorrer pelas duas palavras com que termina o livro dos Atos dos Apóstolos: “com toda a parresia e sem impedimento algum”. O último olhar sobre a pregação de Paulo em Roma é caracterizado por esses dois termos. Desde que Francisco é Papa, esses foram dois dos termos mais utilizados para incentivar um debate teológico e pastoral marcado precisamente por uma grande “liberdade”. Com toda a parresia necessária, a compreensão da relação entre mulheres e ministério não parece oferecer razões teológicas suficientes para justificar os clássicos impedimentos. Os impedimentos vinham de culturas misóginas. A descoberta da igual dignidade de autoridade entre mulheres e homens elimina os impedimentos e predispõe também o catolicismo a superar os preconceitos e dispor-se a reconhecer uma autoridade pública, oficial, eclesial e apostólica a todos os batizados, sem mais “reserva masculina”.

 

Assim, no último capítulo do livro tentei apresentar em detalhe como mudaram os argumentos sobre a "reserva masculina" ao longo da história, como tomou forma a tentação de "deriva autoritária" das últimas décadas e como formular hoje a abertura obrigatória para uma “vocação universal” ao ministério ordenado, “com toda a liberdade e sem impedimento algum” (Atos 28,31).

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