Dia da Memória. Auschwitz, a ferida incurável da humanidade

Museu de Auschwitz. (Foto: Reprodução | Memorial de Auschwitz)

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30 Janeiro 2023

A resposta que não existe: teólogos e filósofos se questionam sobre o Holocausto.

A reportagem é de Pierluigi Mele, publicada por Rai News, 25-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

27 de janeiro de 1945. Soldados soviéticos do Exército Vermelho libertaram o campo de concentração alemão de Auschwitz, a oeste de Cracóvia, no sul da Polônia. Ao se aproximarem, os SS iniciaram a evacuação. Cerca de 60.000 prisioneiros foram obrigados a marchar para o oeste, a maioria judeus, para a cidade de Wodzislaw, na parte ocidental da Alta Silésia. Milhares de pessoas foram mortas às pressas nos dias anteriores, o maior número possível. Durante a marcha da morte, os SS atiravam naqueles que, exaustos, não conseguiam continuar caminhando. Janeiro, frio, fome. Mais de 15.000 morreram. Quando o exército soviético entrou setenta e oito anos atrás, encontrou e libertou mais de 7.000 sobreviventes, doentes e moribundos. Estima-se que cerca de 1,3 milhão de pessoas foram deportadas para Auschwitz entre 1940 e 1945. Destas, pelo menos 1,1 milhão foram assassinadas.

De 1933, com a criação do primeiro campo de concentração de Dachau, até 1945, seis milhões de judeus são exterminados pelo horror demoníaco do nazismo (sem esquecer as outras vítimas: homossexuais, deficientes, ciganos, sinti, opositores políticos, testemunhas de Jeová, sem-teto, etc.). O Holocausto é o "coração de trevas" do Ocidente, nascido no caldo cultural do antijudaísmo e antissemitismo que atravessou o Ocidente ao longo dos séculos. Claro, a loucura criminal nazista acrescentava o racismo e a cultura do sangue “ariano".

A infernal "máquina” dos campos de concentração servia não só para o extermínio, mas também para a criação, ou seja, para a mutação da essência da natureza humana: ou seja, a criação do sub-homem (seres inferiores e tais eram considerados os judeus) sobre quem os "super-homens” nazistas podiam exercer todos os abusos e humilhações. Aqueles, portanto, que não eram "arianos" eram apenas "larvas humanas”, manequins inermes.

Esse era o propósito da ordem de terror nazista, centrado nos campos de concentração. O Holocausto revela na raiz, portanto, de que crueldade o homem é capaz, a que nível de abjeção pode chegar: reduzir seu semelhante a animal.

A "ordem” social do campo de concentração era uma “ordem” altamente hierárquica. Era uma “ordem” completamente invertida da normalidade: no topo da hierarquia estavam os mais perversos.

O Holocausto, portanto, levanta enormes questionamentos sobre a natureza do homem e da cultura do Ocidente.

Agora "a banalidade do mal” de Auschwitz, para usar uma expressão de Hanna Arendt, coloca questionamentos abismais, em particular, aos crentes no Deus de Abraão, Isaque, Jacó e de Jesus de Nazaré. Toda a "teodiceia” é questionada. Voltaire, em seu cinismo filosófico contra Leibniz, podia afirmar sarcasticamente que "Lisboa está arruinada e em Paris se dança”. Mas como escreve Theodor Adorno: se Lisboa representa as calamidades que a natureza realiza contra o homem, e hoje sabemos o quanto esses desastres dependem também do comportamento humano, Auschwitz, que "prepara o verdadeiro inferno na terra”, coloca questionamentos tão radicais que perturbam tanto o teólogo quanto o filósofo: “Onde estava Deus enquanto milhões de judeus inocentes estavam sendo exterminados?”

É a pergunta que se coloca Elie Wiesel, em seu livro A noite:

Atrás de mim, ouvi o mesmo homem perguntar: Onde está Deus agora? E ouvi uma voz dentro de mim responder a ele: Ele está aqui – Ele está pendurado aqui, nesta forca.

Esse é o evento central do livro: a morte literal de Deus. Outras perguntas surgem nesse livro:

“Bendito seja o nome de Deus? Ora, mas por que eu iria abençoar Ele? Cada fibra em mim se rebelava. Porque Ele havia condenado milhares de crianças a queimar em Suas valas coletivas? Porque ele manteve seis crematórios trabalhando dia e noite, incluindo o Shabat e os Dias Santos? Porque, em sua grande força, havia criado Auschwitz, Birkenau, Buna, e tantas outras fábricas de morte? Como eu poderia dizer-lhe: Bendito seja Tu, todo poderoso, Senhor do Universo, que nos escolheu entre todos as nações para ser torturados dia e noite, para ver como nossos pais, nossas mães, nossos irmãos acabam nos fornos? [...] Mas agora, eu já não pedia nada. Eu não era mais capaz de me lamentar. Pelo contrário, eu me sentia muito forte. Eu era o acusador, Deus, o acusado!”

São perguntas radicais, angustiantes, que levam ao limite a reflexão humana de um crente.

Entre os mais importantes pensadores alemães, o teólogo Jurgen Moltmann, foi quem mais refletiu sobre Auschwitz (sem esquecer o filósofo Hans Jonas): A noção tradicional de um "motor imóvel” impassível, havia morrido naqueles campos e não era mais sustentável. Moltmann em vez disso, propõe um “Deus crucificado", que é um Deus "que sofre" e também "que protesta“. Ou seja, Deus não se distancia do sofrimento, mas entra voluntariamente no sofrimento humano com compaixão.

“Deus em Auschwitz e Auschwitz no Deus crucificado”.

Isso contrasta tanto com a iniciativa do teísmo que justifica as ações de Deus quanto com a iniciativa do ateísmo que acusa Deus. A “teologia trinitária da cruz” de Moltmann, em vez disso, afirma que Deus é um Deus que protesta e se opõe aos ”deuses deste mundo” de poder e de domínio, entrando na dor humana e sofrendo na cruz e na forca de Auschwitz.

Um Deus "subversivo” que pede ao crente que lute radicalmente contra os infernos aqui embaixo, nessa obra nós, como nos ensina Etty Hillesum, a jovem mulher judia que juntamente com Edith Stein, Simone Weil representam as figuras luminosas da mística feminina judaica e cristã contemporânea, “vamos ajudar a Deus” para ser hospedado no coração do homem.

Mas Auschwitz, como escreve outro pensador alemão Johnann Baptist Metz (também teólogo), provoca ainda mais perguntas: “A pergunta teológica depois de Auschwitz não é apenas: onde estava Deus em Auschwitz? Mas também é: onde estava o homem em Auschwitz? Como se poderia acreditar no homem, ou mesmo na humanidade, quando se teve que experimentar em Auschwitz do que o "homem" é capaz? Como continuar a viver entre os homens? O que sabemos da ameaça do homem à humanidade, nós que vivemos virando as costas para essa catástrofe ou que nascemos depois dela? Auschwitz reduziu profundamente o limite do pudor metafísico entre homem e homem. Sobrevivem a isso somente aqueles com memória fraca ou aqueles que conseguiram perfeitamente esquecer que esqueceram algo. Mas nem mesmo estes permanecem ilesos. Não se pode pecar o quanto quiser contra o nome do homem. Não só o homem individualmente, mas também a ideia de homem e de humanidade é profundamente vulnerável. Apenas poucos associam a Auschwitz a atual crise da humanidade: a crescente insensibilidade face aos grandes e universais direitos e valores, o declínio da solidariedade, a esperta solicitude em fazer-se pequenos para adaptar-se a todas as situações, a crescente recusa de oferecer ao eu do homem uma perspectiva moral, etc. Não são todas escolhas de desconfiança contra o homem? A catástrofe que foi Auschwitz constitui talvez uma ferida incurável?“

“E se a atual crise da humanidade – conclui Metz – fosse filha da ferida incurável dos campos de concentração?”

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