Além das religiões: virada pós-teísta e criatividade divina. Artigo de Paolo Gamberini

(Foto: Vincentiu Solomon | Unsplash)

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27 Janeiro 2023

"O pós-teísmo reconcilia duas exigências diferentes, uma do teísmo (a necessidade de afirmar alguma forma de intervencionismo divino) e outra de deísmo (a necessidade de afirmar o afastamento divino, para dar autonomia à natureza), numa concepção de Deus como 'criatividade' e 'vida'", escreve Paolo Gamberini, em artigo publicado por Adista - SegniNuovi, 08-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Paolo Gamberini é jesuíta, doutor em Teologia pela Faculdade dos Jesuítas de Frankfurt, na Alemanha. Também é professor de teologia junto à Pontifícia Faculdade Teológica de Nápoles, na Itália, autor de diversos livros e pesquisador na área de Teologia Sistemática.

Eis o artigo.

As duas últimas décadas do século passado e as duas primeiras décadas do século XXI foram decisivas para a crítica ao teísmo tradicional. Durante esses últimos quarenta anos, a teologia cristã procurou encontrar outros modelos de Deus. A teologia precisa urgentemente de uma via crítica, pós-teísta, para a fé cristã. O que se entende por pós-teísmo? O termo “pós-teísmo” refere-se a uma atitude existencial e intelectual, segundo a qual o Deus da transcendência - como entendido pela religião – não é mais visto apenas “lá fora”, mas vivido como o fundamento do ser, a profundidade da realidade que abraça cada ser e todos os seres. É a transcendência no sentido dinâmico de "transcender".

Seria, portanto, mais apropriado falar de "transcender", ir "além de Deus" que é apenas uma função que controla o mundo e o arruma.

É uma compreensão de Deus que não divide a realidade em dois mundos separados, o nosso mundo (cosmos) e o outro mundo (Deus) numa relação de dualidade, mas inclui a criação no ser criativo de Deus.

Essa concepção pós-teísta apoia-se numa visão panenteísta da relação entre Deus e o universo, no qual a criatividade é um ato divino contínuo que faz todas as coisas existirem.

Para esclarecer o tipo de modelo sugerido pelo pós-teísmo, mostrarei a vocês um esquema. De acordo com os deístas do século XVIII, Deus havia criado o mundo como um relojoeiro faz, e após o arranque inicial, Deus deixou que o mundo fosse governado de acordo com suas próprias leis, sem se envolver nisso.

Essa imagem "deísta" de Deus, no entanto, não corresponde à sugerida pelos pós-teístas.

Tanto o pós-teísmo quanto o deísmo negam Deus como agente no mundo, alguém dotado de intelecto e vontade sobrenaturais. O pós-teísmo, entretanto, afirma que Deus está ativo no mundo, uma realidade transpessoal e fonte de criatividade, sem ser um ator sobrenatural presente no mundo. Deus não é uma entidade entre outras. Deus não age com mais poder do que outros. Deus não é onipotente no sentido de que ele pode fazer tudo o que quiser. Deus é poderoso porque "permite que" e "faz com que" todos os seres sejam poderosos e interconectados entre si.

Como diz o Papa Francisco na Laudato Si': "O Espírito de Deus encheu o universo de possibilidade que permitem que, do próprio seio das coisas, possa brotar sempre algo de novo”. (nº 80).

“Nunca é demais insistir que tudo está interligado. O tempo e o espaço não são independentes entre si; nem os próprios átomos ou as partículas subatómicas se podem considerar separadamente. Assim como os vários componentes do planeta – físicos, químicos e biológicos – estão relacionados entre si, assim também as espécies vivas formam uma trama que nunca acabaremos de individuar e compreender.” (Papa Francisco, Encíclica Laudato Si’, n. 138).

Os seres vivos, de fato, emergem de processos físicos; alguns desses seres vivos adquirem um certo grau de consciência, autoconsciência consciente, autorreflexão. Como podem partículas sem pensamento e sem mente se unir em uma configuração que de alguma forma produz a sensação interior de pensamento que sente emoções? Como podem eventualmente gerá-lo, se elas mesmas não têm nenhuma disponibilidade intrínseca dessas qualidades conscientes desde o início?

Algumas pessoas respondem a essas perguntas como foi feito no passado com relação à origem da vida. Invocaram uma entidade sobrenatural que estivesse na origem da vida: Deus. Assim, agora, no que diz respeito à consciência, invoca-se outra entidade "não física" que possa explicar a consciência, pois as partículas (físicas) não podem criar consciência por si mesmas. Deve haver algo mais, um campo de consciência a que acessamos de alguma forma (consciência cósmica); ou as próprias partículas poderiam ter uma pequena qualidade protoconsciente, de modo que o elétron possa ter carga elétrica, massa e spin, além de uma propriedade "mental" (panpsiquismo). Essa é a ideia de David Chalmers. Além das propriedades das partículas que conhecemos, talvez elas tenham um pouco de consciência e quando muitas forem juntadas, se obtém muita consciência e é isso que somos. Não há provas para isso.

Estamos repetindo a mesma história que ocorreu com a origem da vida. Lentamente foi compreendido que as moléculas se organizam, se separam, se combinam. Ao fazer isso, crescem até formar cadeias longas o suficiente para fornecer uma base química para as propriedades estruturais que permitem o desenvolvimento da vida. A automontagem espontânea de moléculas está na origem da formação de ligações químicas que permitiram criar fragmentos e estruturas cada vez mais longas e complexas, dando assim vida ao DNA. Da mesma forma, compreenderemos plenamente e melhor o cérebro e a mente, sem recorrer a alguma entidade não física para explicar o surgimento da consciência.

Então olharemos para trás e reconheceremos que a consciência nada mais é do que um epifenômeno de partículas que passam por nosso cérebro e dentro desse movimento essas partículas geram as sensações conscientes que todos nós experimentamos na mente. Stuart Kauffman, biólogo teórico e pesquisador de sistemas complexos atualmente professor emérito de bioquímica na Universidade da Pensilvânia, vê a criatividade como fundamental para as conexões que constroem a auto-organização da vida. “Essa rede da vida, o sistema mais complexo que conhecemos no universo, não infringe nenhuma lei da física, mas é parcialmente sem lei, incessantemente criativa. Assim são a história humana e as vidas humanas. Essa criatividade é impressionante, fantástica e digna de reverência. Uma visão de Deus é que Deus é o nosso nome escolhido para a criatividade incessante no universo natural, na biosfera e nas culturas humanas" (Stuart Kauffman, Reinventing the Sacred. A New View of Science, Reason, and Religion, New York, Perseus' Book, 2010, p.xi).

Como criatividade, Deus deixou o mundo se fazer (autopoiesis). A palavra grega autopoiesis é formada pelas palavras autos que significa si mesmo e poiesis que significa criação, produção. Deus compartilha a capacidade de criar com outros seres, para que eles criem a si mesmos. Como diz Teilhard de Chardin: "Propriamente falando, Deus não faz: Ele faz com que as coisas se façam por si mesmas. Por isso não há brecha ou fissura no ponto por onde entra” (1).

O pós-teísmo reconcilia duas exigências diferentes, uma do teísmo (a necessidade de afirmar alguma forma de intervencionismo divino) e outra de deísmo (a necessidade de afirmar o afastamento divino, para dar autonomia à natureza), numa concepção de Deus como "criatividade" e "vida".

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