Celibato sacerdotal: Quando a crítica perde a verdade. Artigo de Everson Vianna

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07 Janeiro 2026

"É inegável que existem padres que sofrem solidão, esgotamento emocional e crises profundas. Negar isso seria desonesto. Contudo, atribuir tais sofrimentos ao celibato em si é intelectualmente frágil e teologicamente equivocado. Toda forma de vida conhece fracassos e dores — inclusive o matrimônio", escreve o Everson Vianna, padre, pároco da Paróquia São Francisco de Assis – Icoaraci (Arquidiocese de Belém).

Eis o artigo.

Uma resposta necessária ao discurso que enfraquece o sacerdócio. O artigo “O drama silencioso do celibato sacerdotal: pastores sozinhos, uma Igreja ferida”, de José Manuel Vidal, apresenta-se como denúncia pastoral, mas termina por operar uma crítica ideológica que confunde compaixão com relativização e sofrimento humano com negação do valor do celibato. Ao transformar experiências particulares de fragilidade sacerdotal em argumento estrutural contra o celibato, o texto incorre numa falácia grave: responsabiliza o dom pelo mau uso, a vocação pela infidelidade, o sinal profético pela crise cultural.

É inegável que existem padres que sofrem solidão, esgotamento emocional e crises profundas. Negar isso seria desonesto. Contudo, atribuir tais sofrimentos ao celibato em si é intelectualmente frágil e teologicamente equivocado. Toda forma de vida conhece fracassos e dores — inclusive o matrimônio. Se o sofrimento fosse critério para abolir uma vocação, nenhuma subsistiria. O problema não é o celibato, mas a fragilidade humana somada, muitas vezes, à ausência de formação integral, acompanhamento espiritual e fraternidade presbiteral real.

O artigo parte de uma antropologia reduzida, típica do pensamento contemporâneo, segundo a qual a plenitude humana estaria necessariamente vinculada ao exercício da sexualidade genital e à vida conjugal. Essa visão não é cristã. O Evangelho apresenta o próprio Cristo como aquele que viveu o celibato livremente “por causa do Reino dos Céus” (Mt 19,12). São Paulo afirma que aquele que permanece sem esposa pode cuidar “das coisas do Senhor” de modo indiviso (1Cor 7,32). Desde suas origens, o cristianismo reconhece que a realização humana não se esgota na sexualidade, mas encontra sua plenitude na doação total de si a Deus e aos outros.

É verdade que o celibato sacerdotal não é dogma, mas disciplina da Igreja latina. Todavia, essa constatação é usada de forma ideológica no artigo, como se toda disciplina fosse arbitrária ou descartável. Trata-se de um sofisma recorrente. A Igreja mantém o celibato não por nostalgia histórica, mas por razões teológicas profundas: a configuração sacramental do presbítero a Cristo Cabeça e Esposo da Igreja, o sinal escatológico do Reino futuro e a disponibilidade total para o serviço pastoral. A encíclica Sacerdotalis Caelibatus afirma que o celibato manifesta “a entrega total e exclusiva a Cristo” e se sustenta na graça, não em meros argumentos funcionais. O Catecismo da Igreja Católica reafirma essa visão ao ensinar que o celibato é assumido “por causa do Reino dos Céus” como sinal profético e fecundo (CIC, §1579).

Outro erro sério do artigo é a confusão entre celibato e solidão patológica. O celibato não exige isolamento afetivo nem vida solitária. O que adoece é a ausência de comunhão, de fraternidade sacerdotal e de acompanhamento espiritual. O Concílio Vaticano II ensina que os presbíteros “formam um só presbitério” (Presbyterorum Ordinis, 8). Quando um padre vive isolado, isso não é fruto do celibato, mas de uma cultura eclesial que precisa ser reformada, não usada como pretexto para relativizar o sacerdócio.

Mais grave ainda é a associação insinuada entre celibato, hipocrisia e abusos. Tal vínculo não possui base bíblica, teológica ou científica. O pecado não nasce de um estado de vida, mas do coração humano ferido: “Do coração procedem os maus pensamentos” (Mc 7,21). Crimes e abusos ocorrem em contextos familiares, conjugais e seculares. Vinculá-los ao celibato é injusto, irresponsável e desvia o foco das verdadeiras causas: a infidelidade ao Evangelho, como advertiu São João Paulo II em Pastores Dabo Vobis (25).

Ao sugerir que a Igreja estaria “ferida” por manter o celibato sacerdotal, o artigo revela sua lógica mais profunda: a crença de que a crise da Igreja se resolve pela diminuição da exigência evangélica. A história mostra o contrário. A Igreja nunca se renovou adaptando-se ao espírito do mundo, mas retornando com fidelidade radical a Cristo. “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me” (Lc 9,23). O celibato sacerdotal é precisamente esse sinal "contracultural" de que Deus basta e de que o Reino não se confunde com as categorias do mundo presente.

Por fim, o celibato não é o problema da Igreja. O problema é viver o ministério sem conversão, sem oração, sem fraternidade e sem cruz. Onde o celibato é vivido com maturidade humana, vida espiritual autêntica e verdadeira comunhão presbiteral, ele não fere a Igreja; ao contrário, torna-se sinal profético de esperança, liberdade interior e total pertença a Cristo.

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