Movimentos no pós-pandemia. Artigo de Raúl Zibechi

Fonte: Flickr

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

15 Agosto 2022

 

“A pobreza cresce de forma permanente e constante, em consequência da voracidade do capital mais concentrado que leva a população a situações de vida insustentáveis. Enquanto isso, os governos se fixam apenas em administrar a pobreza com políticas sociais que buscam domesticar as classes populares e povos originários e negros”, escreve Raúl Zibechi, jornalista e analista político uruguaio, em artigo publicado por La Jornada, 12-08-2022. A tradução é do Cepat.

 

Eis o artigo.

 

São meses percorrendo o continente: México, Colômbia, Rio de Janeiro, Equador, Bolívia, Argentina. Em todos são observadas de forma direta situações semelhantes, que se somam a dados que vão chegando por outros canais. Em linhas gerais: desarticulação e degradação das relações sociais, violência estatal, paraestatal e do narcotráfico, grande dificuldade de movimentos e povos para construir.

 

Talvez essa rachadura seja a forma como a tempestade sistêmica se apresenta a nós, agravada pelo caos climático e o desmoronamento dos estados-nação. Não é simples estabelecer uma narrativa abrangente, mas existem situações comuns para além das diferenças entre os lugares.

 

As razões pelas quais nossas sociedades estão se desintegrando são diversas e abrangem tanto o material como o espiritual.

 

A pobreza cresce de forma permanente e constante, em consequência da voracidade do capital mais concentrado que leva a população a situações de vida insustentáveis. Enquanto isso, os governos se fixam apenas em administrar a pobreza com políticas sociais que buscam domesticar as classes populares e povos originários e negros.

 

A acumulação por espoliação/quarta guerra mundial contra os povos faz parte desse modelo empobrecedor, mas, sobretudo, permite explicar as violências, os deslocamentos forçados, o roubo de terras e a ocupação de territórios por bandos armados que, ao violentar os povos, favorecem os planos do capital.

 

O narcotráfico é uma das formas assumidas pela ruína do sistema, mas devemos deixar claro que é usado pelos poderosos contra qualquer movimento organizado, conforme ensinam as experiências da Colômbia e do México. O narcotráfico não foi criado diretamente pelo capital e os estados, mas uma vez que surgiu, aprenderam a direcioná-lo contra as nossas organizações.

 

Os governos progressistas que governaram todos os países que estou visitando, como também agora acontece na Colômbia, aceleraram o declínio ao aprofundar o extrativismo, mas, ao mesmo tempo, ao desorganizar os movimentos. Fizeram isto por uma dupla via: apropriar-se do discurso e de seus modos de fazer, enquanto lançam bandos armados contra os próprios povos e setores sociais que pretendem abrandar com políticas sociais.

 

As duas políticas são complementares e estão destinadas a facilitar a entrada do capital especulativo nos territórios dos povos, para converter a vida em mercadorias.

 

A fase de decomposição de nossas sociedades, vínculos entre os de baixo e povos inteiros, está entrando em uma fase aguda ao impactar inclusive comunidades rurais que antes pareciam quase imunes a essas formas destrutivas e violentas do capital e os estados, que trabalham lado a lado para cumprir esses objetivos. Estamos diante de características estruturais e sistêmicas do capitalismo, não diante de desvios pontuais.

 

Na medida em que estamos diante de processos relativamente recentes, nós, povos e setores sociais, ainda não encontramos as formas de frear e reverter a destruição. Neste ponto, algumas considerações.

 

A primeira é constatar a gravidade da situação, o alto grau de decomposição não só das organizações, mas das bases sociais em que estão referenciadas e enraizadas. Porque o panorama pode ser resumido assim, em quase todas as regiões: sociedades e comunidades em decomposição e organizações ameaçadas ou cooptadas pelo sistema. Ambos os fatos são enormemente destrutivos.

 

A segunda é a reflexão sobre os caminhos para continuar sendo o que somos: povos e setores sociais que resistem e constroem. O EZLN adotou a resistência civil pacífica para enfrentar os bandos armados e para continuar construindo o mundo novo. É um caminho muito difícil, que exige vontade e disciplina, perseverança e capacidade de enfrentar a violência e os crimes sem cair em atitudes individualistas.

 

Acredito que os modos adotados pelo zapatismo, sem dúvida consultados e decididos pelas bases de apoio, podem nos servir de referência em toda a América Latina, porque enfrentamos problemas semelhantes e porque devemos tirar conclusões das guerras decididas pelas vanguardas, que custaram a vida de centenas de milhares de pessoas de povos originários, negros, camponeses e setores populares.

 

Não repetir erros é sabedoria. Em diversas intervenções, o EZLN expôs como exemplos as guerras na Guatemala e em El Salvador. Nelas, e isso é minha interpretação, a atitude das vanguardas não beneficiou os povos, que pagaram por decisões que não haviam tomado, com milhares de mortos, para depois entrar em processos de paz sem consultá-los, mas salvando os interesses dos dirigentes e quadros.

 

Entendo que nesses tempos difíceis, nós, de baixo, devemos empreender um debate aprofundado sobre as formas de enfrentar a guerra de cima. Sem nos render ou vender, mas tomando os caminhos que permitam evitar a guerra e continuar construindo, sem cair em provocações.

 

Leia mais