Carta aberta de arcebispo ortodoxo à Sua Santidade Kirill, Patriarca de Moscou

Foto: The Presidential of Russia Press and Information Office | Wikimedia Commons

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11 Março 2022

 

"Com todo o respeito que lhe é devido, e do qual não me afasto, mas também com infinita dor, devo lhe comunicar que não posso subscrever tal leitura do Evangelho. Nada jamais poderá justificar que os 'bons pastores' que devemos ser deixem de ser 'artesãos da paz', sejam quais forem as circunstâncias", escreve Giovanni de Dubna, Arcebispo das Igrejas Ortodoxas de tradição russa na Europa Ocidental, em carta publicada por Archevêché des églises orthodoxes de tradition russe en Europe occidentale, 09-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a carta.

 

Paris, 09 de março de 2022

Sua Santidade,

 

Nestes dias sombrios em que enfurece a guerra no centro da Europa depois da intervenção militar da Federação Russa na Ucrânia, permitam-me transmitir-vos a consternação de toda a Arquidiocese e a nossa total solidariedade para com as vítimas deste conflito.

Os problemas e a desordem causados em todo o mundo por este violento ataque não pouparam a comunidade ortodoxa da Europa Ocidental e sobretudo a arquidiocese das paróquias ortodoxas de tradição russa na Europa Ocidental, que reúne fiéis de todas as origens. A nossa própria unidade está ameaçada pela situação assim criada. Nossos fiéis esperam que seus pastores tragam a voz da Igreja e uma mensagem evangélica de paz.

Tomamos conhecimento com emoção do apelo feito ao senhor pelos membros do Santo Sínodo da Igreja Ortodoxa ucraniana, pedindo que intervenha junto às autoridades políticas da Federação Russa para parar este banho de sangue.

Em nome de todos os fiéis de nossa Arquidiocese, apelo ao senhor para que levante sua voz como Primaz da Igreja Ortodoxa russa contra esta guerra monstruosa e insensata e para interceder junto às autoridades da Federação Russa para que cesse o mais rápido possível este conflito assassino, que até recentemente parecia impensável entre dois povos e duas nações unidas por séculos de história e sua fé comum em Cristo.

Vossa Santidade, na sua "homilia" para o Domingo do Perdão, proferida na Catedral Patriarcal de Cristo Salvador no dia 6 de março, o senhor parece justificar esta guerra de agressão cruel e homicida como "uma batalha metafísica", em nome do "direito de estar do lado da luz, do lado da verdade de Deus, daquilo que a luz de Cristo nos revela, a sua palavra, o seu Evangelho...”.

Com todo o respeito que lhe é devido, e do qual não me afasto, mas também com infinita dor, devo lhe comunicar que não posso subscrever tal leitura do Evangelho. Nada jamais poderá justificar que os "bons pastores" que devemos ser deixem de ser "artesãos da paz", sejam quais forem as circunstâncias.

Sua Santidade, humildemente, com o coração pesado, rogo-lhe que faça tudo o que for possível para pôr um fim a esta terrível guerra que está dividindo o mundo e semeando morte e destruição.

 

† Metropolita Jean de Dubna,
Arcebispo das Igrejas Ortodoxas de tradição russa na Europa Ocidental

 

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