Algumas coisas importantes que Francisco e Cirilo não disseram um ao outro em Havana

Mais Lidos

  • Especialização em Protagonismo Feminino na Igreja: experiência de sororidade e crescimento humano integral

    LER MAIS
  • As responsabilidades das Forças Armadas no golpe. Artigo de Jean Marc von der Weid

    LER MAIS
  • Terra Yanomami tem 363 mortes registradas no 1º ano do governo Lula

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


Revista ihu on-line

Zooliteratura. A virada animal e vegetal contra o antropocentrismo

Edição: 552

Leia mais

Modernismos. A fratura entre a modernidade artística e social no Brasil

Edição: 551

Leia mais

Metaverso. A experiência humana sob outros horizontes

Edição: 550

Leia mais

Por: André | 17 Março 2016

Os ortodoxos não apenas não reconhecem como válidos os sacramentos católicos, mas colocam em dúvida que a Igreja de Roma seja uma verdadeira Igreja. Acusam-na de ter corrompido a pureza e a integridade da fé, da qual eles são os únicos guardiões. A análise de um especialista.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 16-03-2016. A tradução é de André Langer.

O documento assinado há um mês em Havana pelo Papa Francisco e por Cirilo, o patriarca de Moscou, está muito longe de pacificar as relações entre a Igreja católica e a ortodoxa.

Francisco o rebaixou prudentemente a documento “que é discutível” e “que suscita opiniões divergentes”. E disse aos bispos da Igreja greco-católica ucraniana que esse documento “não é a palavra do Evangelho”.

Mas as feridas seguem abertas. E são muito mais profundas do que faz crer a La Civiltà Cattolica, segundo a qual o que conta “não são as palavras escritas e assinadas, mas as mãos que usaram a tinta e que se apertaram”.

O obstáculo mais visível para a pacificação entre Roma e Moscou segue sendo os cinco milhões de greco-católicos da Ucrânia. “Dois mundos paralelos”, este é o título da entrevista na qual o arcebispo maior de Kiev, Sviatoslav Shevchuk, deu voz à amargura de seus fiéis, imediatamente depois da reunião em Havana.

A Igreja greco-católica da Ucrânia é uma realidade viva. Em 1989, quando saiu das catacumbas, contava com apenas 300 sacerdotes anciãos, ao passo que hoje tem 3.000 jovens, com idade média de 38 anos de idade.

O drama desta Igreja é que se sente incompreendida, tanto por Roma como por Moscou.

* * *

Com Roma, os bispos ucranianos tentaram acertar-se quando se encontrarem com o Papa Francisco no dia 5 de março e ao publicarem imediatamente depois o seguinte documento. [Ver aqui, em inglês]

Nesse documento, escrevem, entre outras coisas: “O Santo Padre é uma autoridade moral global que diz a verdade. A voz da verdade é particularmente importante para o sofrimento do povo da Ucrânia. Se o povo não escuta ou não compreende esta voz fica confuso, ansioso e sente-se abandonado”.

Mas foi seu arcebispo maior, Sviatoslav Shevchuk, quem descreveu de forma mais direta a orientação do encontro com o Papa, em uma entrevista concedida à Rádio Vaticano. [Ver a entrevista aqui, em inglês]

Nela, Shevchuk conta que o Papa lhes garantiu que no diálogo com Moscou “não sacrificará uma só vida, menos ainda a de toda uma Igreja católica oriental”.

E sobre o conflito nas regiões orientais da Ucrânia o Papa disse que leu o relatório que lhe enviara o núncio em Kiev, Claudio Gugerotti, e prometeu aos bispos que irá intervir para ajudá-los.

Ao final do encontro, abençoou-os e se fez abençoar, “inclinando humildemente a cabeça para receber a bênção”.

* * *

Quanto à irredutível hostilidade de Moscou contra a Igreja greco-católica ucraniana, ela foi confirmada pela enésima vez pelo número dois da Igreja ortodoxa russa, o poderoso metropolitano Hilarion de Volokolamsk, precisamente em reação às críticas de Shevchuk ao documento de Havana.

Na opinião de Hilarion, os greco-católicos ucranianos “não estão dispostos a escutar não apenas a voz do nosso patriarca, mas nem sequer a voz do Papa”.

Mas ainda mais radicais são as críticas dirigidas a eles no documento publicado nos primeiros dias de março pela Igreja ortodoxa ucraniana por ocasião dos 70 anos do Concílio de Lviv, em 1946, o qual impôs aos greco-católicos o retorno à ortodoxia e cujos efeitos duraram para eles até 1989.

Neste documento não há nem sequer pistas do ligeiro abrandamento das relações entre católicos e ortodoxos ucranianos que se fizeram entrever na declaração conjunta de Havana, na qual, por outro lado, não se reconhece aos greco-católicos a identidade de “Igreja”, mas apenas a de “comunidade eclesial”.

Em todo caso, a reunião de Havana suscitou agitação e divisão também dentro da Igreja ortodoxa. Tanto isto é verdade que também Hilarion, paralelamente ao Papa, teve que minimizar o alcance da declaração conjunta.

“Não houve nenhuma tentativa de aproximação doutrinal e não se discutiu nenhuma questão dogmática ou teológica. E também agora este tipo de discussão não está na ordem do dia”.

Esta é uma afirmação correta. Tanto Francisco como Cirilo deram muito mais importância ao gesto do que às palavras. Com o resultado de que os pontos reais de desacordo entre o catolicismo e a ortodoxia ficaram intactos em sua totalidade.

E não é apenas útil mas necessário voltar a repassá-los um por um, como fez em um ensaio recente o professor Lubomir Zak, esloveno, professor titular de Introdução à Teologia e de História da Teologia na Pontifícia Universidade Lateranense, especialista em teologia ortodoxa russa.

O artigo foi publicado em 2015 na revista teológica Lateranum e ela também pode ser adquirida como e-book.

* * *

O ponto de partida da análise de Zak é o forte contraste entre a visão que a Igreja católica tem hoje da ortodoxia e, vice-versa, a que a Igreja ortodoxa tem do catolicismo.

Com efeito, para retomar as palavras empregadas pelo próprio metropolitano Hilarion de Volokolamsk, do Concílio Vaticano II em diante a Igreja católico-romana admitiu “finalmente que as Igrejas ortodoxas são salvíficas, possuem a sucessão apostólica e os sacramentos, e que a única coisa que lhes falta é a comunhão com a sede de Roma”.

E essa é a verdade. Tão certo é que os decretos conciliares Unitatis redintegratio e Orientalium ecclesiarum chegam a defender que “a comunicação nas coisas sagradas com os irmãos das Igrejas orientais separadas... não só é possível, mas também aconselhável”.

Outra descoberta da visão decididamente positiva que a Igreja católica tem hoje da ortodoxia é o reconhecimento, que aconteceu em 2001, da validez sacramental da antiga anáfora de Addai e Mari, que é usada na liturgia eucarística síria, apesar de que não contém a fórmula do relato da instituição da Eucaristia.

E também se tornou habitual para os Papas, de João Paulo II em diante, dirigir-se à ortodoxia com a utilização do termo “Igrejas irmãs”.

Mas, nada de tudo isso se encontra na visão que a Igreja ortodoxa tem do catolicismo e na prática seguida por este último.

Um começo do degelo aconteceu em 1969, quando o Sínodo da Igreja ortodoxa russa autorizou a administração dos sacramentos aos católicos que estão desprovidos de um ministro próprio. Nessa época, como responsável pelas relações externas do Patriarcado de Moscou – no papel desempenhado hoje por Hilarion – estava o metropolitano Nicodemos, que era favorável ao ecumenismo, e que contava com um jovem ajudante de nome Cirilo, o atual patriarca.

Mas, em 1978, Nicodemos morreu por causa de um infarto no Vaticano enquanto estava conversando com João Paulo I. E com o posterior Papa João Paulo II, polonês, as aberturas ecumênicas da Igreja russa se detiveram e retrocederam, também devido às pressões do Kremlin. Foi revogado o decreto que autorizava a comunhão e os sacramentos aos católicos.

A ressurreição, em 1989 na Ucrânia, da Igreja greco-católica “uniata” e a expansão “proselitista” para o Leste do Papa polonês reforçaram ainda mais na ortodoxia as tendências anticatólicas.

Hoje, estas tendências são menos belicosas que na década de 1990, quando chegaram ao seu nível máximo. O patriarca de Moscou, Cirilo, atreveu-se inclusive a abraçar o Papa de Roma.

Mas subsistem em sua totalidade as causas profundas desta confrontação, e Zak as examina uma por uma.

* * *

Uma primeira causa de oposição é a diferença de visão eclesiológica.

Quando os papas chamam as Igrejas ortodoxas de “irmãs”, fazem-no no marco de uma visão da Igreja na qual todos os bispos diocesanos estão em unidade com o Bispo de Roma, que tem poder sobre todas as Igrejas particulares.

Entre os ortodoxos, ao contrário, a Igreja está estruturada em “patriarcados”, em cada um dos quais se elegem patriarcas e bispos, com autonomia de cada território em matéria de liturgia e de disciplina canônica. Segundo esta visão, o papa seria “patriarca do Ocidente”, isto é, precisamente o título que Bento XVI, para dissipar qualquer equívoco, extinguiu em 2006 dos atributos atribuídos a ele pelo Anuário Pontifício.

Sobre a base desta discordância entre as eclesiologias, o professor Zak comenta:

“Não surpreende que também o diálogo católico-ortodoxo sobre o tema do primado do papa – cujo fruto mais recente é o documento de Ravena de 2007, elaborado pela Comissão Mista Internacional – tenha podido avançar apenas uns poucos passos, detendo-se a breve distância do ponto de partida.”

* * *

Uma segunda causa de discordância é o chamado “uniatismo”, termo pejorativo com o qual a ortodoxia desqualifica as Igrejas de rito oriental que estão unidas a Roma.

Os ortodoxos justificam em geral essa desqualificação pela periculosidade mimética destas comunidades, que, ao celebrar liturgias idênticas às suas, podem atrair muitos fiéis desprevenidos à armadilha da submissão a Roma.

“No entanto – escreve Zak –, as razões da discordância são ainda mais profundas e são de natureza eclesiológica. O que escandaliza o mundo ortodoxo é que as Igrejas orientais católicas fazem parte de uma estrutura que não é a que para eles é aquela que eles consideram como original, patriarcal, mas a estrutura romanocêntrica, que tem na Igreja de Roma o ponto obrigatório de referência para cada aspecto da vida eclesial”.

A declaração de Havana entrega verbalmente ao passado este “uniatismo”, do qual os greco-católicos ucranianos são o exemplo mais importante. Mas a questão permanece sem ser resolvida, porque é verdade que Roma diz às Igrejas orientais católicas: “vocês são aquelas que existiram primeiro”, mas de fato as engloba em uma estrutura da Igreja tipicamente latina e papal, estrutura que a ortodoxia não quer aceitar de jeito nenhum.

* * *

Uma terceira causa de discordância refere-se à “communicatio in sacris”, que a Igreja católica admite. As Igrejas ortodoxas – esquecida a abertura parcial e efêmera dos anos de Nicodemos –, ao contrário, rejeitam-na categoricamente.

O motivo desta rejeição – faz notar Zak – é também teológico e eclesiológico. Enquanto que a Igreja católica considera verdadeiros todos os sacramentos das Igrejas ortodoxas, o mesmo não acontece por parte da ortodoxia. Oficialmente, a Igreja ortodoxa não admitiu em nenhum documento, decreto ou declaração que os sacramentos da Igreja católica são verdadeiros e salvíficos.

Não apenas isso. Os ortodoxos colocam seriamente em dúvida que a Igreja católica seja uma verdadeira Igreja, contrariamente ao que a Igreja católica pensa da Igreja ortodoxa. Que os não-ortodoxos não pertencem à única e verdadeira Igreja de Cristo é a ideia que seguem mantendo firme, sob o véu das cortesias ecumênicas.

* * *

E chegamos a uma quarta causa de discordância, a qual se refere aos motivos da ruptura entre Oriente e Ocidente, consumada há mil anos.

O decreto conciliar Unitatis redistegratio atribuiu essa ruptura sobretudo à “falta de compreensão e caridade mútua”. Também o Papa Francisco parece pensar que a questão se coloca em sua totalidade neste ponto.

Mas no campo ortodoxo estão convencidos de que os pontos de divergência são muito mais graves. Entre outros, um solene documento do Patriarcado de Moscou de 2000 explica que a Igreja católico-romana “separou-se da comunhão com a Igreja ortodoxa, verdadeira Igreja de Cristo”, porque corrompeu a pureza e a integridade da fé (da qual é guardiã e testemunha justamente a ortodoxia), introduzindo “novos dogmas” como o de que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho, a imaculada conceição de Maria, a assunção de Maria ao céu e a infalibilidade do Papa.

 E o professor Zak conclui: “Uma coisa é certa: por causa da falta de pureza e integridade da fé – já não mais em plena conformidade com a tradição apostólica – é que nasce e segue persistindo o problema, para os ortodoxos, da verdadeira eclesialidade da Igreja católico-romana e, em consequência, da eficácia salvífica de seus sacramentos”.

“É difícil pensar que o diálogo católico-ortodoxo possa conseguir, em um futuro próximo, resultados relevantes sem que antes mude, ou ao menos se atenue, a consideração da ortodoxia quanto ao ‘defeito de fé’ da Igreja de Roma; tanto mais que a convicção sobre o ‘defeito de fé’ dos católicos foi defendida e pregada, no passado, inclusive por alguns santos ortodoxos, entre eles o bispo Teófano, o Recluso.”

“Como explica um autorizado manual de ortodoxia de teologia ecumênica em uso nos seminários de Moscou, Teófano – muito crítico com as confissões cristãs do Ocidente – estava convencido de que o Espírito Santo não age em plenitude entre os não-ortodoxos, por isso ‘todos os sacramentos dos católicos são defeituosos, assim como muitas de suas celebrações’.”

“Identificando-se com a opinião do santo, os autores do manual não hesitam em acrescentar: ‘Trata-se de palavras duras, mas que oferecem um juízo correto sobre o estado espiritual da não-ortodoxia’.”

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

Algumas coisas importantes que Francisco e Cirilo não disseram um ao outro em Havana - Instituto Humanitas Unisinos - IHU