Na corrida papal, a Itália ainda é mais igual que outros

Vaticano. | Foto: Pixabay

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03 Novembro 2020

“Encaremos isto: os italianos no Colégio Cardinalício ainda estão jogando em casa; todos os outros estão jogando de visitante”, escreve John L. Allen, em artigo publicado por Crux, 01-11-2020. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo

 

Eis o artigo. 

Você sabe que é um tempo estranho quando o Papa dá uma entrevista para a maioria dos meios de comunicação, e, sem dúvida, não há nem mesmo a pergunta e resposta eclesiástica mais interessante do mês.

O papa Francisco falou à agência italiana Adnkronos, na sexta-feira. Ainda no início do mês, o lendário cardeal Camillo Ruini, que já foi o todo-poderoso Vigário de Roma e presidente dos bispos italianos sob João Paulo II, falou para o jornal Corriere della Sera e ofereceu algo possivelmente ainda mais saboroso para o pensamento.

Agora um leão no inverno, próximo do aniversário de 90 anos, Ruini é visto como um dos líderes da ala conservadora do Colégio Cardinalício. Nos círculos católicos, a manchete principal da entrevista foi um comentário de Ruini sobre se há uma “frente conservadora internacional” contra o papa Francisco.

“De algumas maneiras, há sim”, afirmou, “mas tem suas várias acentuações e facetas. Somente alguns poucos podem realmente ser considerados ‘contra’ o papa Francisco: por exemplo, não se pode considerar assim os que formularam alguma crítica com intenções construtivas”.

Na Itália, o zumbido foi a bajulação de Ruini a Giorgia Meloni, que, disse Ruini, está “merecidamente na crista da onda”. Meloni é a fundadora e líder do partido Fratelli d'Italia, e ela é amplamente vista como a principal desafiadora do populista Matteo Salvini como líder da centro-direita.

No entanto, Ruini também tinha algumas coisas interessantes a dizer sobre cardeais e papas que merecem ser esclarecidas. Aqui está a parte relevante da entrevista.

 

Eis a entrevista.

Não apenas Veneza, Turim e Gênova, mas até Milão, hoje não tem cardeal. Isso é um sinal de declínio [para a igreja na Itália]?

“Cem anos atrás, os italianos eram a maioria absoluta entre os cardeais. A internacionalização começou com o papa Pio XII, mais em consonância com a catolicidade e universalidade da Igreja, que, com o papa Francisco, se desenvolve mais. Naturalmente, também deve haver um limite para esse processo. Não seria bom se a Itália estivesse sub-representada, também porque Roma, a sede do Sucessor de Pedro, é a capital da Itália. ”

Alguns cardeais estrangeiros disseram que o peso dos italianos tem de ser reduzido: “Melhor vir de Tonga do que de Milão”. Tornou-se um problema ser italiano?

“Não acho que os bispos italianos percebam tal problema. De qualquer forma, a nacionalidade, seja italiana ou não italiana, não deve ser um obstáculo nem um título de mérito. Isso é exigido pela própria natureza da Igreja.”

Não tivemos um papa italiano por meio século. Ser italiano agora é uma desvantagem para se tornar Papa?

“Acho que não. Eu diria, em vez disso, que não é mais uma vantagem ou pelo menos um pré-requisito, mas é bom que não seja mais. O papa eleito deve ser a pessoa considerada mais digna e adequada, independentemente da nacionalidade.”

 

Três pontos do ocorrido

Primeiro, para qualquer um que conhece o Vaticano, a ideia de que italianos estão sub-representados pareceria estúpida. Apesar das décadas de alegada internacionalização o Vaticano permanece uma inalterável instituição italiana, e sob o papado de Francisco, é sem dúvidas mais do que nunca.

Ruini não estava falando sobre o Vaticano, mas sobre o Colégio Cardinalício, embora também, o rastro italiano naquela arena continue sui generis. Como em 28 de novembro, quando Francisco criará nove novos cardeais abaixo dos 80 anos, a Itália terá 23 Príncipes da Igreja elegíveis para o voto para o próximo Papa; e somente outro país terá dois dígitos, os Estados Unidos com 10. Itália, com mais de 60 milhões de católicos, tem 23 cardeais, o Brasil com 120 milhões, tem 4. Para expressar a diferença, a Itália tem um cardeal a cada 2,6 milhões de católicos, enquanto o Brasil, o país mais católico do mundo, tem um a cada 30 milhões.

Encaremos isso: os italianos no Colégio de Cardeais ainda estão jogando em casa; todos os outros estão jogando de visitante.

Segundo, o ponto de Ruini prece não ser sobre os números, mas um link intrínseco entre Roma, como capital da Itália, e o local do papado. O argumento implica nisso: se católicos acreditam na salvação histórica, então não é por acidente que o centro do governo da Igreja Católica está na Itália. Na Itália está a cultura que moldou o catolicismo, e despojar o Vaticano ou o Colégio de Cardeais de seu ethos primariamente italiano seria negar a tradição e arriscar a identidade.

Esse argumento pode ou não ser válido, mas seria muito interessante jogá-lo fora.

Terceiro, Ruini afirma que ser italiano não é mais uma vantagem para se tornar Papa, mas eu questiono.

É verdade que a maioria dos cardeais provavelmente começa com a política, não com a nacionalidade. Ou seja, os cardeais que apoiam a direção traçada pelo papa Francisco vão querer que alguém a continue; aqueles que se opõem vão querer que alguém estabeleça um novo curso.

No entanto, suponha que um dos partidários da continuidade esteja escolhendo entre o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado, e o cardeal Blase Cupich, de Chicago. Você acha que ele não pode concordar com Parolin porque, como um italiano, ele saberá como fazer as coisas?

Inversamente, suponha que um daqueles que buscam mudança esteja pensando no cardeal Angelo Bagnasco, aposentado de Gênova, ou em Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino. Apesar da atração inerente de um “papa negro”, questiona-se se Bagnasco não teria a vantagem de ser um italiano que sabe onde os corpos estão enterrados.

Em outras palavras, estamos em uma era em que todos os países na corrida papal podem ser iguais, mas isso não significa que a Itália ainda não seja um pouco mais igual do que os outros.

 

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