12 Setembro 2026
Mais do que oferecer uma explicação sobre o envelhecer e o morrer, Faustino Teixeira conduz o leitor a confrontar-se com essas experiências inevitáveis e a interrogar os critérios a partir dos quais a sociedade define o valor da vida.
O artigo é de Eliseu Wisniewski, presbítero da Congregação da Missão Província do Sul (padres vicentinos), mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Eis o artigo.
A última aventura da liberdade: envelhecer e morrer (Editora Recriar, 2026, 128 páginas), livro de Faustino Teixeira, reúne reflexões sobre duas experiências inevitáveis da condição humana: o envelhecimento e a morte. Professor titular aposentado do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora, o autor retoma textos anteriormente publicados no Instituto Humanitas Unisinos – IHU e outros produzidos especialmente para a obra, compondo uma abordagem marcada simultaneamente por inquietações sociais, existenciais e religiosas.

O livro nasce de uma preocupação concreta com a maneira como a sociedade contemporânea lida com a velhice e com a morte. Teixeira parte da constatação de que o aumento da expectativa de vida, favorecido pelos avanços da medicina e pelas melhores condições de existência, não foi acompanhado, necessariamente, por uma correspondente valorização social da velhice. Ao contrário, a lógica contemporânea do consumo, da produtividade e do desempenho tende a medir o valor humano pela capacidade de produzir, tornando os idosos particularmente vulneráveis à invisibilidade e ao descarte. A crítica do autor evidencia uma das contradições mais significativas de nosso tempo: amplia-se a possibilidade de viver mais, mas nem sempre se criam condições para que os anos acrescentados à vida sejam vividos com dignidade e sentido.
Diante disso, a velhice aparece atravessada por experiências de solidão, depressão, abandono e perda de significado. O contraste entre o ritmo acelerado da sociedade e o tempo próprio do envelhecer revela uma dificuldade cultural mais profunda: a incapacidade de reconhecer que existem formas de existência que não podem ser submetidas exclusivamente aos critérios da eficiência. Teixeira questiona uma mentalidade que tende a considerar o idoso a partir de sua utilidade social, quando justamente essa etapa da vida poderia favorecer outras dimensões da existência, como a memória, a gratuidade, a contemplação e a transmissão da experiência.
A mesma perspectiva crítica se estende à reflexão sobre a morte. Para Teixeira, o morrer não pode ser reduzido a um acontecimento meramente biológico ou médico. A morte confronta a pessoa com a própria finitude e desmonta a pretensão contemporânea de controle sobre a existência. A imagem da morte como travessia expressa essa condição de passagem e de abertura diante de algo que ultrapassa a capacidade humana de domínio. A contribuição da reflexão está em recolocar a morte no campo das questões fundamentais da existência, num contexto cultural que frequentemente procura ocultá-la, adiá-la ou transformá-la em problema exclusivamente técnico.
A obra está organizada em oito capítulos, que desenvolvem diferentes ângulos sobre o envelhecimento e a morte. O percurso parte dos cenários contemporâneos da velhice, passa pela experiência de Rita Lee diante da proximidade da morte, discute os desafios das diversas etapas da vida, aborda a realidade das casas de acolhida para idosos e explora as representações do morrer no cinema. Também enfrenta questões éticas de grande atualidade, como os cuidados paliativos, a morte assistida e a eutanásia, além de recuperar as contribuições do Papa Francisco sobre a velhice. No capítulo final, o autor dialoga com perspectivas contemporâneas que compreendem a morte como metamorfose ou transformação da existência.
A obra se destaca pela capacidade de aproximar situações concretas da experiência humana de questões existenciais mais abrangentes. Teixeira não trata o envelhecimento apenas como problema demográfico ou social, nem a morte somente como questão médica ou biológica. Seu olhar procura recuperar a dimensão humana dessas experiências, questionando os mecanismos culturais que produzem exclusão, silenciamento e medo. Ao mesmo tempo, a diversidade dos temas abordados revela que envelhecer e morrer são experiências atravessadas por dimensões sociais, culturais, éticas, religiosas e espirituais.
A obra apresenta uma contribuição expressiva para o debate acerca da finitude humana. Sua contribuição está em questionar uma cultura que privilegia a juventude, a produtividade e o controle da existência, contrapondo-lhe uma compreensão do envelhecimento e da morte orientada pelo cuidado, pela dignidade e pelo reconhecimento da vulnerabilidade. Mais do que oferecer uma explicação sobre o envelhecer e o morrer, Faustino Teixeira conduz o leitor a confrontar-se com essas experiências inevitáveis e a interrogar os critérios a partir dos quais a sociedade define o valor da vida. O livro ultrapassa os limites da reflexão acadêmica e alcança importantes implicações éticas e pastorais, ao recordar que o grau de humanidade de uma sociedade também se revela na maneira como acolhe os que envelhecem e acompanha aqueles que se encontram diante da morte.
Referência
TEIXEIRA, Faustino. A última aventura da liberdade: envelhecer e morrer. São Paulo: Editora Recriar, 2026. ISBN 9786553722231.
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