10 Setembro 2026
"O púlpito torna-se um palco, o ministro religioso, um ator. O fiel virou espectador", escreve Antonio Dari Ramos, formado em Filosofia, Teologia e História. É mestre, doutor e pós-doutor em História pela Unisinos e docente na UFGD, em Dourados/MS.
Eis o artigo.
Há meio século, o teólogo Paul Tillich alertava para o risco de uma "religião sem fé". Hoje, diante do que se produz e consome como conteúdo religioso nas plataformas digitais, sua advertência parece profética. O cristianismo contemporâneo, especialmente em suas vertentes midiáticas, vem passando por um processo silencioso de esvaziamento que combina a lógica de mercado, a estética do espetáculo e a capilaridade instantânea das redes sociais. Essa combinação transforma a fé em produto, o fiel em consumidor e o líder religioso em influenciador digital. O fenômeno ganhou uma expressão cultural precisa, que eu estou denominando de cultura do "gospelnejo": a fusão entre o sentimentalismo individualista do sertanejo universitário e a música gospel contemporânea, resultando em uma espiritualidade subjetivista, intimista e desprovida de densidade teológica e comunitária.
O termo “gospelnejo! não é arbitrário. O sertanejo universitário, em sua vertente mais comercial, construiu um repertório baseado na sofrência, no individualismo amoroso e na catarse emocional como fim em si mesma. A música gospel, por sua vez, foi progressivamente colonizada pelas mesmas fórmulas da indústria de entretenimento de massa: arranjos previsíveis, refrões chiclete e carga dramática que emula a dor secular com um verniz de "unção". O resultado é um produto híbrido onde o drama do fiel não é mais o pecado estrutural, a injustiça social ou a infidelidade ao Reino, mas o coração partido, a ansiedade financeira ou a angústia psicológica individual. Produz-se, assim, uma catarse hormonal que não converte a mente, não incomoda o opressor e não exige nenhum compromisso social. É a estética do êxtase sem ética, do arrebatamento sem compromisso.
Basta sintonizar qualquer canal gospel ou católico de grande audiência para constatar o domínio desse “gospelnejo”. As músicas, outrora veículos de memória comunitária e catequese, tornaram-se hinos do "eu": um Deus que "ama" mas raramente é compromete, um Cristo que "abraça" mas nunca confronta, um Espírito que consola sem inquietar. No mesmo embalo, as pregações abandonaram a denúncia profética da injustiça estrutural para se converterem em palestras motivacionais ou em catálogos de moralismo privado, concentrados na regulação da sexualidade e da vestimenta, enquanto silenciam diante da exploração do trabalho, da devastação ambiental e da concentração de renda. O subjetivismo gospelnejo é a expressão sonora e retórica de um cristianismo que se desfez de sua ossatura comunitária.
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Esse fenômeno tem nome: privatização da fé. O sociólogo Zygmunt Bauman descreveu a modernidade como "líquida", marcada por vínculos frágeis e descartáveis. No campo religioso, isso se traduz na dissolução da koinonia, a comunidade de partilha que caracterizava o cristianismo primitivo. A Igreja, que nos Atos dos Apóstolos era apresentada como "um só coração e uma só alma", com tudo em comum, cede lugar a aglomerados de interesse, a igrejas "sob medida" que o fiel frequenta enquanto atendem às suas necessidades afetivas ou mercadológicas, e as abandona assim que deixam de satisfazê-las.
A pandemia acelerou esse processo ao transferir a experiência comunitária para o ambiente virtual. Transmissões ao vivo, grupos de WhatsApp e lives de padres, pastores e pessoas que acreditavam agir em nome do espírito (não se sabe qual!) criaram uma ilusão de proximidade enquanto eliminavam a densidade do encontro presencial, o olho no olho, o silêncio compartilhado, a mesa partilhada, o ombro que chora junto. O resultado disso foi o fortalecimento de uma fé sem endereço, sem vizinho, sem corpo, de arquivo e playlist, e jamais de caminhada comunitária.
Mas o elemento mais novo e perturbador deste cenário é o papel das redes sociais como vetor de empoderamento de líderes religiosos com pouca ou nenhuma formação teológico-pastoral, e com escassa vivência comunitária, pois o algoritmo não distingue entre um teólogo de décadas de estudo e um autoproclamado "apóstolo" que aprendeu o ofício assistindo a outros influencers religiosos. A métrica que reina é o engajamento, com números de visualizações, likes, comentários, compartilhamentos. Mas, o conteúdo que viraliza não é aquele que exige conversão social, mudança estrutural ou compromisso com o Reino. É aquele que massageia o ego, promete vitória financeira, oferece soluções rápidas para angústias profundas e reduz a fé a uma técnica de autoajuda espiritual.
Esses novos produtores de conteúdo religioso operam, na maioria das vezes, sem a mediação de uma comunidade que os interpele, sem o crivo de uma tradição que os forme e sem a responsabilidade pastoral que exige o cuidado com o rebanho. Sua preocupação primordial não é a fidelidade ao Evangelho ou a solidez teológica, mas a manutenção de uma audiência fiel, e, com ela, o financiamento via doações, merchandising e venda de cursos. O púlpito torna-se um palco, o ministro religioso, um ator. O fiel virou espectador. E o Espírito Santo, quando não se manifesta conforme o roteiro, é substituído por uma histeria coletiva fabricada, que nada tem a ver com a mansidão e a força transformadora do amor ensinado pelo Evangelho.
Do ponto de vista sociológico, essa atomização da fé é funcional ao neoliberalismo. O individualismo hiperbólico é a forma de subjetivação que melhor serve ao capitalismo tardio ao desmobilizar a ação coletiva e transformar cada sofrimento em problema pessoal, nunca em questão política, até porque uma igreja reduzida a consumidores isolados é uma igreja que não incomoda o poder, não denuncia a exploração e não se solidariza com os marginalizados.
O teólogo Leonardo Boff já denunciava há tempos que o mercado não suporta gratuidade; ele precisa de troca, de retorno, de lucro. Quando a gratuidade do amor de Deus é substituída pela lógica do investimento e da concorrência, o coração do cristianismo é substituído por um motor de busca por resultados. Talvez esteja aí o motivo do grande ódio que religiosos como os padres Júlio Lancelotti e Zezinho sofrem, inclusive de católicos, e outros influencers sejam ovacionados apesar de sua espiritualidade e conhecimentos rasos, confusos e, não raras vezes, desalinhados com o magistéio da Igreja.
A Teologia da Prosperidade, nesse contexto, não é um desvio doutrinário inofensivo, mas a negação frontal do Evangelho. Se o cerne da fé cristã é o escândalo da cruz, na lógica do grão que morre para dar fruto, a Teologia da Prosperidade opera a inversão absoluta. A ideia de que o sacrifício torna-se investimento, o dízimo vira "semente de multiplicação", arrasta multidões. E Deus é rebaixado à condição de CEO celestial que recompensa a fé com carros e casas.
Ao sacralizar a riqueza como sinal de bênção, algo já denunciado biblicamente no livro de Jó, a teologia da Prosperidade culpabiliza o pobre por sua própria miséria e absolve o sistema que a produz. O próximo deixa de ser o faminto, o nu, o encarcerado, como descrito em Mateus 25, para se tornar um concorrente, um cliente ou um pagador de dízimo em potencial, e a comunhão dos santos é substituída pela competição dos empreendedores.
Historicamente, a instrumentalização da fé por poderes políticos e econômicos não é nova. Desde a virada constantiniana, quando o Império Romano abraçou o Cristianismo, a tentativa de sequestrar o Evangelho em favor de projetos mundanos é uma velha tentação. Contudo, o que vivemos hoje é qualitativamente diferente. A mediação digital e a capilaridade instantânea das redes sociais permitem que essa cooptação ocorra em tempo real, com alcance planetário, e sem as mediações institucionais que outrora filtravam a formação de líderes e a disseminação de doutrinas. O crente é colocado numa bolha de confirmação algorítmica e só ouve aquilo que já deseja ouvir. Nesse emaranhado cibernético, a verdade é substituída pela verossimilhança do que "faz sentido para mim" e a ortodoxia cede lugar à "minha verdade".
O agravamento desse quadro assume contornos políticos preocupantes. Em ciclos eleitorais, templos são convertidos em palanques improvisados, púlpitos em tribunas partidárias, e a fé em moeda de troca por votos. Líderes religiosos sem vocação autêntica aproximam-se de políticos, igualmente aproveitadores, não por convicção, mas por cálculo, visando verbas públicas, cargos e privilégios. A mensagem do amor universal é substituída por discursos de ódio contra minorias, por um nacionalismo messiânico que confunde pátria com fé. É a prática da Teologia do Domínio, que aspira à conquista do Estado para impor uma teocracia fundamentalista, que é a expressão mais radical desse desvio, poi confunde o Reino de Deus, que "não é deste mundo", mas se realiza na lógica do serviço, com a tomada do poder para acabar com o outro diferente de mim.
O Papa Francisco, em Evangelii Gaudium, advertiu que a Teologia da Prosperidade é uma das maiores ameaças à fé cristã na atualidade. E em Fratelli Tutti, reafirmou que "a fé nos irmãos, especialmente nos mais pobres, é o termômetro da autenticidade da fé em Deus". Quando esse termômetro é quebrado pela cumplicidade com o poder econômico e pela sede de domínio político, a fé torna-se idolatria, o Deus de Jesus é substituído por um ídolo que abençoa nossas ambições em vez de nos chamar à conversão.
O que fazer, então? Não se trata de nostalgia de um passado idealizado, mas de profecia, com a recusa da lógica do "cada um por si" e construção, teimosa, de espaços de acolhimento incondicional. Trata-se de recuperar a centralidade dos Evangelhos e a hermenêutica da libertação, que lê as Escrituras como memória de libertação, não como fuzil ideológico. Trata-se, finalmente, de formar líderes com sólida preparação teológica, pastoral e social, capazes de distinguir entre o kerygma apostólico e as filosofias de autoajuda.
De forma desafiadora, encarar essa realidade, é também exigir transparência nas contas das igrejas e recusar financiamentos suspeitos que visem calar a profecia, ao mesmo tempo em que se priorizam os pobres como critério hermenêutico e prático da ação eclesial. E, sobretudo, é preciso ter coragem de desagradar aos poderosos em nome do Evangelho.
O cristianismo que sobreviverá aos nossos tempos não será o que se acomoda ao algoritmo, mas o que resiste à cooptação. Também não será o que busca likes, mas o que anuncia o Reino com todas as suas exigências de justiça, partilha e misericórdia. Igualmente, não será o que se curva ao mercado, mas o que testemunha que o dinheiro não é senhor, o poder não é soberano e o próximo, especialmente o descartado, é a medida de todas as coisas. Que as comunidades cristãs, em sua diversidade de confissões, encontrem forças para desintoxicar-se das amarras do mercado e das seduções do espetáculo, retomando o caminho do Cristo crucificado, que não tinha onde reclinar a cabeça, mas prometeu aos que o seguem o único trono que importa: o da cruz, onde o amor vence o poder.
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