06 Janeiro 2026
"Essas ações “pontuais” são mais do que simples ações de “caridade”, elas revelam uma luta fundamental entre o projeto de uma civilização neoliberal e excludente e um projeto de civilização humanizadora que expresse o horizonte utópico do Reino de Deus. No fundo, estamos vendo uma batalha, uma luta entre os deuses", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
Mais do que apoiar as práticas pastorais e sociais do padre Júlio Lancelotti, nesse artigo eu quero refletir sobre o lugar sócio histórico dessa polêmica em torno da proibição, por parte do cardeal de São Paulo, de padre Júlio usar a rede social para transmitir a missa dominical e os seus pequenos vídeos e mensagens. Proibição essa que gerou uma reação significativa na sociedade e nos meios de comunicação.
Podemos dizer que a origem mais recente dessa “polêmica e crise” ocorreu no dia 02 de fevereiro de 2021. O padre Júlio, que há mais de 40 anos trabalha junto aos moradores de rua, menores infratores, e os mais pobres e marginalizados da cidade de São Paulo, sempre foi uma figura que dividia a sociedade e Igreja, mas a radicalização na sociedade e na igreja é mais recente. Nesse dia de fevereiro, ele fez uma ação que muitos considerariam uma coisa de louco: quebrou a marretadas os blocos de paralelepípedo que a prefeitura tinha colocados em baixo de um viaduto na cidade. Depois ele postou as fotos na rede social. Qual o motivo dessas pedras e da ação do padre? Foi uma ação da prefeitura para impedir que os moradores de rua continuassem usando esse espaço público para dormir. Situação que trazia muitas reclamações dos moradores do bairro e dos comerciantes e empresários. Por outro lado, o padre reagiu de modo profético contra a grande desigualdade social e o novo papel do Estado na sociedade neoliberal.
Uma ação “pontual” que, por meio de rede social, questionou profundamente o novo papel do Estado na sociedade neoliberal: a reestruturação do espaço urbano e social em que os pobres são excluídos da “cidade” (setor da sociedade com direitos e privilégios) e do horizonte da civilização. Com o neoliberalismo, os principais papeis do Estado não estão mais ligados à garantia do avanço do bem-estar econômico-social da população, chamado os direitos sociais dos cidadãos, mas sim garantir o cumprimento dos contratos realizados no mercado, a liberdade dos empreendedores capitalistas de ampliar o espaço do mercado na sociedade (por ex, com a privatização da educação e saúde) e, o mais importante, a defesa do direito “inviolável e sagrado” da propriedade privada (que aparece no artigo 17º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789, da Revolução Francesa).
O outro lado da moeda do novo papel do Estado neoliberal é se tornar um Estado policial, que deve garantir a segurança dos membros do mercado, os consumidores e proprietários, contra os pobres e outros grupos sociais considerados de pessoas segunda categoria. Pior, pessoas em situação de moradores de rua são vistas como “excrecências” a serem eliminadas ou como inimigos a serem combatidos.
Essa ação “louca”, para a sabedoria do mundo, foi interpretada por muitas pessoas da tradição/fé cristã e também por não-cristãs como um sinal da presença do Reino de Deus ou como de justiça social. Essa é a razão pela qual o trabalho de padre Júlio na Pastoral do Povo da Rua é apoiado por tantas pessoas, independentemente da sua crença, mas também criticada. (Esse tema foi desenvolvida no meu último do livro, cap 5, “O sagrado X o santo: a rebelião de Eva e o pecado original do capitalismo”)
E entre os que o criticam, podemos e devemos distinguir pelo menos dois grupos. O primeiro é dos que são contra a noção fundamental de igualdade humana e, com isso, a defesa da justiça social, e pensam que há grupos sociais que merecem sofrer e morrer antes do tempo. Normalmente esse grupo usa algum tipo de religião para justificar a sua superioridade e, com isso, a inferioridade dos outros.
O segundo é dos que defendem acima de tudo a ordem, tem medo da desordem e caos, e creem que Deus se revela no mundo como ordem, e pensam que a função social da religião/igreja é defender a ordem. E os pobres e moradores de rua rompem com essa ordem. Com esse último grupo é até possível dialogar com a noção de uma nova ordem social mais justa. Mas, com o primeiro, é quase que impossível.
Há setores da Igreja que confundiram a “sabedoria do mundo” com a de Deus e atacam ações e práticas que, na perspectiva da sabedoria de Deus, são sinais do Reino. Por detrás dessa “polêmica”, ou da luta pela interpretação teológica das práticas da Pastoral de Rua, o que temos é um discernimento dos “sinais do tempo”. Essas ações “pontuais” são mais do que simples ações de “caridade”, elas revelam uma luta fundamental entre o projeto de uma civilização neoliberal e excludente e um projeto de civilização humanizadora que expresse o horizonte utópico do Reino de Deus. No fundo, estamos vendo uma batalha, uma luta entre os deuses.
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