A Ira de Deus. O artigo de Duilio Albarello

Foto: Pawel Czerwinski/ Unsplash

Mais Lidos

  • Em nome de Deus: quando a política se apropria do Evangelho. Artigo de Martin Scheuch

    LER MAIS
  • “Os eleitores têm que pressionar os candidatos a se comprometerem a transformar a política de adaptação climática numa política de longo prazo, numa política de Estado com medidas emergenciais, que são, às vezes, necessárias, mas também com medidas de longo prazo”, insiste o cientista

    Plano de adaptação às mudanças climáticas: Brasil já fez lição de casa; é preciso implementá-la com urgência. Entrevista especial com Paulo Artaxo

    LER MAIS
  • O futuro em disputa: algoritmos, extrema-direita e autoritarismo. Destaques da Semana no IHUCast

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

18 Agosto 2026

"Pai de Jesus é sempre misericordioso? A resposta evangélica é sim, desde que compreendamos corretamente a misericórdia. Como já reiteramos diversas vezes, Deus é sempre misericordioso não porque considere o mal irrelevante, mas porque, mesmo no julgamento, busca a salvação de suas criaturas. Sua ira nunca é desprezo ou ódio para com os seres humanos. Pelo contrário, sua ira é uma oposição inequívoca àquilo que desumaniza a humanidade e o mundo."

O artigo é de Duilio Albarello, padre diocesano, doutor em teologia e professor em várias faculdades de teologia, publicado por Settimana News, 18-08-2026. 

Eis o artigo.

Quando falamos de Deus, algumas palavras soam imediatamente familiares e reconfortantes: amor, bondade, perdão, misericórdia. Outras palavras, porém, nos deixam inquietos. Entre elas, sem dúvida, está a expressão "a ira de Deus". Essa linguagem parece pertencer a uma imagem religiosa já ultrapassada: a de um Deus severo, pronto para punir, irado pelos pecados humanos e necessitando de apaziguamento.

Diante dessa figura ameaçadora, poderíamos ser tentados a contrastar o Deus revelado por Jesus: o Pai misericordioso, que faz o sol nascer para bons e maus, acolhe os pecadores, perdoa incansavelmente e busca os perdidos. Mas como, então, devemos entender as inúmeras passagens do Novo Testamento que falam explicitamente da ira, do juízo, da condenação e da perdição de Deus?

A pergunta que surge no título da nossa reflexão parece inevitável: será que o Pai de Jesus é sempre misericordioso?

Vamos deixar claro desde já que devemos evitar duas soluções excessivamente simplistas.

A primeira consistiria em contrastar o "Deus da ira" com o "Deus da misericórdia", como se fossem duas faces irreconciliáveis: de um lado, o Deus severo do Antigo Testamento; do outro, o bom Pai anunciado por Jesus. Esse contraste, além de ser infundado histórica e biblicamente, leva-nos a caricaturar tanto o Antigo quanto o Novo Testamento. Na realidade, o Antigo Testamento também reconhece profundamente a misericórdia de Deus; assim como o Novo Testamento fala com muita franqueza sobre o Juízo Final e a ira divina.

A segunda solução — igualmente simplista — seria apagar a linguagem da raiva da Bíblia, considerando-a um resquício incômodo de uma religiosidade arcaica. Ao fazê-lo, porém, corremos o risco de empobrecer a própria revelação evangélica.

Como tentarei demonstrar, a "ira de Deus", se a entendermos corretamente, não é de modo algum a antítese da misericórdia. Pelo contrário, é uma das maneiras pelas quais a Sagrada Escritura expressa metaforicamente a seriedade do amor de Deus diante do escândalo do mal. Para entender essa linguagem, pode ser útil começar com uma breve reflexão sobre como nós, seres humanos, geralmente experimentamos a ira.

Breve fenomenologia da raiva

A raiva é uma das emoções humanas fundamentais. Essa emoção surge quando percebemos que algo importante para nós foi violado: um direito, um relacionamento, uma promessa, nossa própria dignidade ou a de outrem. Ficamos com raiva quando sofremos uma injustiça, quando vemos uma pessoa vulnerável humilhada, quando alguém trai nossa confiança ou violenta aquilo que amamos.

Portanto, a raiva, em si, não é necessariamente uma emoção negativa. Pode ser a reação de alguém que se recusa a aceitar a injustiça. Uma pessoa incapaz de sentir indignação diante da violência, do abuso ou da opressão não seria necessariamente considerada mais benigna; pelo contrário, poderia simplesmente ser mais indiferente.

Assim, existe uma raiva que surge do amor, do apego e do senso de justiça. Pense na raiva de um pai e de uma mãe quando uma criança é violentada física ou psicologicamente. Nesse momento, a intensidade da raiva manifesta a intensidade do afeto parental.

Não nos irritamos da mesma forma porque não nos importamos. Aqueles que são indiferentes não conhecem a raiva, a fúria ou a indignação, porque nada realmente importa para eles.

Sem dúvida, devemos notar que existe também uma raiva destrutiva. É a raiva que não é gerada pelo sentimento ético, mas pelo orgulho ferido, pela vontade de dominar, pelo ressentimento ou pelo desejo de vingança. Nesse caso, não nos limitamos a condenar o mal sofrido: queremos atingir a pessoa que nos ofendeu, queremos mortificá-la, temos prazer em imaginar fazê-la sofrer.[1]

Além disso, a raiva humana muitas vezes nos cega. Ela pode distorcer nossa percepção da realidade, atribuir intenções aos outros que eles não possuem e exagerar a ofensa recebida. É por isso que a tradição moral cristã nos clama por vigilância diante da raiva. A Epístola de Tiago afirma que "a ira do homem não produz a justiça de Deus" (Tiago 1,20). O autor da Epístola aos Efésios também recomenda: "Se vocês estiverem irados, não se deixem levar pelo pecado; não deixem que o sol se ponha e os encontre ainda irados" (Efésios 4,26).

O problema, portanto, não é simplesmente sentir raiva, mas como ela é vivenciada e canalizada. Esse sentimento pode se transformar em energia moral contra o bullying; ou pode degenerar em violência, vingança e destruição.

Essa distinção é importante quando tentamos compreender a linguagem bíblica. Nas passagens em que a Bíblia fala da ira de Deus, ela não atribui cegamente a Deus nossas reações emocionais, muitas vezes excessivas e descontroladas. A linguagem bíblica usa experiências humanas para afirmar algo sobre Deus, mas, ao mesmo tempo, exige que avaliemos essas experiências com discernimento cuidadoso antes de atribuí-las a Deus.

A ira de Deus não é um acesso de fúria. Deus não perde o controle, não é dominado pela emoção e não reage impulsivamente porque seu orgulho foi ferido. Em vez disso, a ira de Deus expressa sua oposição radical ao mal. Um Deus que permanecesse indiferente à violência, à injustiça e ao sofrimento de suas vítimas não seria misericordioso. Ele seria um Deus cínico, moralmente neutro, para quem o bem e o mal seriam considerados equivalentes.

O contexto bíblico da ira de Deus

Para entender o Novo Testamento sobre esse tema, não basta nos referirmos à experiência humana da raiva. Devemos também recordar, ainda que brevemente, o significado da ira de Deus no Antigo Testamento.

O Deus bíblico não é uma divindade caprichosa, irada por razões imprevisíveis. Sua ira se manifesta sobretudo quando a aliança é quebrada, quando os pobres são oprimidos, quando um ídolo substitui Deus, quando o povo rejeita a justiça.

Portanto, a ira pressupõe um relacionamento. Deus se ira porque estabeleceu uma aliança, porque ama o seu povo, porque ouve o clamor dos perseguidos. Sua ira não é o oposto da fidelidade; ela surge precisamente da sua fidelidade ao escolhido.

Ao mesmo tempo, o Antigo Testamento enfatiza repetidamente que Deus é "misericordioso e compassivo, tardio em irar-se e abundante em amor e fidelidade" (Êxodo 34,6). Como podemos ver, a ira não constitui a essência da identidade de Deus. É claro que não devemos suavizar demais a questão. Há muitas passagens em que a ira de Deus assume conotações explicitamente violentas e belicosas. No entanto, na citação de Êxodo, o Todo-Poderoso não é descrito como "abundante em ira", mas sim como "abundante em amor e fidelidade".

Nesse sentido, a expressão "tardio em irar-se" é significativa. Não significa simplesmente que Deus se ira, mas que há uma certa demora. Significa que sua ira é contida, limitada por um amor paciente e direcionada à conversão. Deus não deseja a destruição do pecador, mas sim que ele se converta e viva. Esse contexto do Antigo Testamento possui um histórico de efeitos que permanece crucial também para o Novo Testamento.

A ira vindoura na pregação de João Batista

Um dos primeiros relatos no Novo Testamento que se refere à ira de Deus encontra-se na pregação de João Batista. Ao ver muitos fariseus e saduceus vindo receber o seu batismo no rio Jordão, João exclamou: "Raça de víboras! Quem vos ensinou a fugir da ira vindoura? Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento" (Mt 3,7-8; cf. Lc 3,7).

Neste trecho, a ira está ligada ao juízo escatológico definitivo. João anuncia que Deus está prestes a intervir decisivamente na história. Não é mais possível refugiar-se na filiação religiosa ou em ser "descendente de Abraão". É necessário produzir "frutos dignos de conversão".

Pouco tempo depois, novamente na pregação de João Batista, o Messias é anunciado como aquele que segura a pá na mão, separa o trigo da palha e queima a palha com fogo inextinguível. A linguagem aqui é, sem dúvida, muito severa. Mas o objetivo de João não é aterrorizar. Em vez disso, é abalar a consciência do povo escolhido, que se tornou excessivamente confiante. O anúncio da ira visa desafiar a ilusão de que a salvação é uma posse garantida, independente da conversão.

Dessa perspectiva, a ira de Deus demonstra a seriedade da liberdade humana. Deus toma a iniciativa de oferecer a salvação, mas isso não significa que o dom da graça possa ser transformado em um privilégio automático. O chamado à conversão é urgente justamente porque a misericórdia não deve ser confundida com a indiferença teológica e moral.

Curiosamente, porém, Jesus não se limita a anunciar o tipo de julgamento divino que João esperava. O Batista parece esperar uma separação rápida entre os bons e os maus. Jesus, em vez disso, senta-se em um banquete com pecadores assumidos, acolhe cobradores de impostos, perdoa prostitutas e conta parábolas nas quais o julgamento é adiado.

Por exemplo, na parábola do trigo e do joio, o senhor proíbe os servos de arrancarem imediatamente o joio, para que não arranquem também o trigo (Mt 13,24-30). O tempo da missão de Jesus revela-se, assim, como o tempo da paciência de Deus. O juízo não é eliminado, mas adiado. Esse adiamento não se deve à fraqueza da intenção de Deus: pelo contrário, é um sinal de misericórdia, um espaço de tempo concedido para a conversão, para a mudança.

Jesus e a experiência da raiva

Prosseguindo nossa investigação, não podemos deixar de notar que, nos Evangelhos, não encontramos apenas discursos sobre julgamento e ira: descobrimos que o próprio Jesus também se irou.

Na história da cura do homem com a mão atrofiada, Jesus pergunta se é lícito no sábado fazer o bem ou o mal, salvar uma vida ou matar. Diante do silêncio constrangido dos presentes, o evangelista Marcos observa: "Jesus olhou ao redor com indignação e entristeceu-se com a dureza de seus corações" (Marcos 3,5).

A indignação de Jesus é inseparável da tristeza. Ele não sente prazer em condenar. Sua ira nasce do pesar pela dureza dos corações, especialmente quando a religião é usada como desculpa para impedir boas ações, como no caso da cura no sábado.

Até mesmo a expulsão dos mercadores do templo de Jerusalém pode ser interpretada como um gesto de relacionamento com Deus e denuncia uma estrutura religiosa que corre o risco de transformar a casa do Pai em um mercado (Jo 2,13-22) ou, segundo a expressão usada pelos Sinópticos, em um "covil de ladrões" (Mt 21,12-17 e passagens paralelas).

Assim, a ira de Jesus não é autorreferencial. Ela não explode quando ele se vê insultado, espancado ou condenado. De fato, durante a Paixão, Jesus não invoca vingança contra seus perseguidores. Pelo contrário, segundo Lucas, ele ora: "Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem" (Lucas 23,34).

Segundo o Evangelho, Jesus se indigna quando a dignidade dos outros é violada, quando o nome de Deus é difamado, quando as crianças são escandalizadas. Jesus, porém, não usa a raiva como ameaça para afirmar seu poder e autoridade contra aqueles que o desafiam.

Aqui podemos reconhecer um critério fundamental para distinguir a ira compatível com o Evangelho da ira desencadeada pelo pecado: a ira evangélica defende corajosamente a vida dos outros; a ira pecaminosa defende agressivamente o próprio eu ferido.

A Ira de Deus no Evangelho de João

Um texto particularmente desafiador em relação ao nosso tema encontra-se no terceiro capítulo de João: "Quem crê no Filho tem a vida eterna; quem não obedece ao Filho não verá a vida, mas a ira de Deus permanece sobre ele" (Jo 3,36).

Para entendermos essa declaração, precisamos lê-la no contexto de todo o capítulo. Alguns versículos antes, encontramos uma das declarações mais esclarecedoras do Novo Testamento: "Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Pois Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por meio dele" (João 3,16-17).

Nesta passagem, a intenção de Deus é apresentada como inequivocamente salvífica. O Filho não foi enviado para condenar, mas para salvar. No entanto, o texto continua afirmando que o julgamento consiste no fato de que "a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas do que a luz" (João 3,19).

Como observamos, aqui o julgamento não aparece primordialmente como uma sentença externa, pronunciada arbitrariamente por Deus. Em vez disso, é o reconhecimento da escolha feita pelo homem diante da vinda da luz, isto é, de Cristo. A presença de Cristo é luz porque revela o que habita no coração de cada pessoa. Aqueles que se fecham à luz permanecem nas trevas; aqueles que rejeitam a vida permanecem sob o poder da morte.

Portanto, a expressão "a ira de Deus permanece sobre ele" não indica necessariamente um ato punitivo de Deus. Indica a obstinação de permanecer preso em um estado de oposição à boa vida. Deus oferece o Filho como um dom, mas não pode forçar os seres humanos a aceitá-lo sem, em última análise, eliminar a sua liberdade. Em todo caso, a misericórdia pode ser rejeitada: essa própria rejeição assume a forma de um julgamento sobre a disposição humana em relação ao dom de Deus.

Ananias e Safira: Quando a misericórdia não torna as mentiras inofensivas

Um dos episódios mais perturbadores do Novo Testamento é certamente o de Ananias e Safira, narrado no quinto capítulo dos Atos dos Apóstolos.

O casal vende um terreno e dá aos apóstolos apenas uma parte do valor da venda, fingindo, porém, tê-lo doado integralmente à comunidade. Pedro faz a Ananias uma pergunta muito séria: "Por que Satanás encheu o teu coração para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço do terreno?" (Atos 5,3).

Pedro esclarece imediatamente que Ananias não era obrigado a vender as terras nem a entregar todo o valor arrecadado à comunidade. Portanto, o problema não é que Ananias tenha ficado com parte de seus bens para si. O pecado reside, sim, na dissimulação: Ananias quer parecer mais generoso do que realmente é. Ele usa o ato de compartilhar para construir uma autoimagem caracterizada pela perfeição religiosa, que, na realidade, é fruto da hipocrisia; portanto, é semelhante à imagem pela qual Jesus repreendeu duramente os fariseus.

De fato, para a inevitável surpresa de nossos leitores, após ouvir as palavras de Pedro, Ananias cai ao chão e morre. Pouco depois, Safira, repetindo a mesma mentira a Pedro, encontra o mesmo destino trágico que seu marido. Lucas observa duas vezes que "grande temor apoderou-se de toda a igreja e de todos os que ouviram essas coisas" (Atos 5,11).

Certamente, esta é uma história que não pode ser facilmente diluída. Aqui — no meio do Novo Testamento! — a consequência de mentir a Deus e ao Espírito Santo aparece descrita como uma punição imediata e letal, infligida não por Pedro ou qualquer um de seus discípulos, mas vinda do alto. Consequentemente, nos perguntamos como tal intervenção pode ser conciliada com a misericórdia divina revelada e praticada por Jesus.

Para entender o significado teológico do episódio, devemos considerar seu lugar dentro do livro de Atos como um todo. Imediatamente antes desse relato, Lucas esboçou uma imagem ideal da primeira comunidade cristã: "Ora, a multidão dos que creram era um só coração e uma só alma; ninguém considerava unicamente sua coisa alguma do que possuía, mas tudo lhes era comum" (Atos 4,32).

À luz dessa imagem ideal da Igreja, a dramática história de Ananias e Safira representa uma contradição radical a uma visão utópica de comunhão e partilha. A história mostra, assim, que a presença ativa do Espírito não torna as mentiras inofensivas; pelo contrário, revela-as em toda a sua gravidade. Poder-se-ia dizer que o trágico destino dos dois esposos se torna, de certa forma, a atualização exemplar daquilo que é a “blasfêmia contra o Espírito”, que, segundo as próprias palavras de Jesus, “não será perdoada, nem neste século nem no vindouro” (Mt 12,31-32; cf. também Lc 12,10).[2] A expressão usada por Pedro ao dirigir-se a Ananias é significativa: “Ananias, porque Satanás encheu o teu coração”, de modo que mentiste contra a comunidade, é também sempre uma corrupção da relação com Deus.

A gravidade da história relatada em Atos 5 não nos autoriza, porém, a imaginar um Deus normalmente pronto para punir com a morte aqueles que contam mentiras. A história tem, antes, um valor simbólico e teológico: mostra que as mentiras são uma força de morte, especialmente quando entram nas relações eclesiásticas e são revestidas apenas de aparente piedade religiosa.[3]

Certamente, na narrativa de Ananias e Safira, permanece uma impressão de severidade desproporcional que é impossível de eliminar. No entanto, esse episódio deve ser lido dentro do contexto de todo o testemunho do Novo Testamento. A face definitiva de Deus não é delineada pela morte perturbadora de Ananias e Safira, mas pela morte na cruz de Jesus Cristo, que oferece a sua vida pelos pecadores.

Este episódio, em todo caso, retrata o comportamento de Deus, que parece objetivamente complexo, a ponto de ser ambíguo. No entanto, oferece-nos duas importantes perspectivas. Por um lado, isso nos impede de banalizar o mal: o mal "ferindo", antes de tudo, aqueles que o cometem intencionalmente.

Por outro lado, a cruz de Jesus não nos autoriza a interpretar o julgamento como um desejo divino de destruição do pecador.

Considerando esses dois aspectos em conjunto, podemos concluir que Deus não trata a mentira como se fosse inofensiva, mas, em todo caso, sua intenção final não é a aniquilação daqueles que cometeram o pecado. Consiste, antes, em incumbir o estabelecimento de uma verdadeira comunhão, que se deixe guiar pelo Espírito e, assim, se liberte da tentação de enganar os outros e, mais profundamente, até mesmo a Deus.

A Ira de Deus na Carta aos Romanos

O texto mais importante para uma teologia da ira no Novo Testamento provavelmente se encontra na Carta aos Romanos.

Paulo, logo no início, vai direto ao ponto: “A ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens que suprimem a verdade pela injustiça” (Romanos 1,18).[4]

A ira de Deus não se dirige imediatamente contra a fragilidade humana, mas contra a impiedade e a injustiça que sufocam a verdade. Paulo então descreve o processo pelo qual os seres humanos, recusando-se a reconhecer a Deus, caem na idolatria e se entregam à luxúria. Uma expressão significativa se repete três vezes: "Deus os abandonou" ou, mais literalmente, "Deus os entregou" às suas paixões e pensamentos.

Essa formulação também nos permite entender a raiva não tanto como a imposição de uma punição externa, mas sim como Deus permitindo que os seres humanos experimentem as consequências de suas próprias escolhas. Os humanos rejeitam o Criador e acabam escravizados por criaturas; buscam autonomia absoluta e, em última instância, perdem a si mesmos. A raiva, portanto, assume a forma amarga de entregar a humanidade à lógica da concupiscência, uma forma patológica de desejo que eles mesmos escolheram.

Contudo, aqui Paulo prepara uma virada decisiva. Depois de denunciar os pecados do mundo pagão, ele se volta repentinamente para aqueles que se atrevem a julgar: "Portanto, você é indesculpável, seja quem for, ó homem que julga" (Romanos 2,1).

Ninguém pode ficar do lado dos justos e simplesmente observar a ira de Deus como se fosse algo que diz respeito apenas aos outros. Todos estão sob o domínio do pecado; consequentemente, todos precisam de misericórdia.

Paulo também se refere ao "dia da ira e da revelação do justo juízo de Deus" (Romanos 2,5). Mas seu raciocínio não culmina no anúncio da ira, mas na notícia da justificação gratuita: "Pois todos pecaram e estão destituídos da glória de Deus, mas são justificados gratuitamente por sua graça, por meio da redenção que há em Cristo Jesus" (Romanos 3,23-24).

Assim, o anúncio da ira leva à descoberta de que ninguém se salva sozinho.

Se o Evangelho consistisse apenas em recompensar os justos e punir os ímpios, ninguém poderia ser salvo, porque ninguém é totalmente justo. A boa notícia é que Deus, em Jesus Cristo, justifica o pecador. Paulo afirma ainda: "Mas Deus demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores. Muito mais agora, tendo sido justificados pelo seu sangue, seremos salvos da ira de Deus por meio dele" (Romanos 5,8-9).

É importante notar que Paulo não diz que o Filho misericordioso nos protege de um Pai irado. É o próprio Deus quem demonstra seu amor ao dar Cristo. A iniciativa da salvação pertence à liberdade de Deus Pai. Isso significa que a cruz de Jesus não altera a face inerentemente hostil de Deus, transformando-a em uma face benevolente. Pelo contrário, a cruz é a manifestação histórica de um amor que precede toda reconciliação: precisamente porque, "enquanto ainda éramos pecadores, Cristo morreu por nós".

Cristo nos liberta da ira

Uma declaração semelhante aparece na Primeira Carta aos Tessalonicenses. Os crentes aguardam do céu o Filho de Deus, "Jesus, que nos livra da ira vindoura" (1 Tessalonicenses 1:10). Logo em seguida, Paulo especifica: "Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançarmos a salvação por meio de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Tessalonicenses 5,9).

O destino desejado por Deus não é ser atingido pela ira, mas ser regenerado pela salvação. A ira não representa a intenção original de Deus para a humanidade. Em vez disso, indica aquilo de que Deus deseja nos libertar. Portanto, devemos evitar retratar a redenção como se o Pai quisesse condenar e o Filho interviesse para apaziguá-Lo. No Novo Testamento, é o Pai quem envia o Filho, é o Pai quem reconcilia o mundo consigo mesmo, é sempre Deus Pai quem toma a iniciativa.

Paulo expressa isso claramente em sua Segunda Carta aos Coríntios: "Porque Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, não levando em conta os pecados dos homens" (2 Coríntios 5,19). A reconciliação não ocorre contra a vontade de Deus, mas em virtude da vontade de Deus. Em resumo, Cristo nos salva da ira porque nos liberta do pecado, da mentira, da idolatria e da morte: isto é, de tudo o que se opõe ao desejo de Deus por uma vida plena para as suas criaturas.

Os "filhos da ira"

Na Carta aos Efésios, encontramos mais uma fórmula complexa para interpretar, a fim de desenvolver ainda mais nosso tema. O autor afirma que todos, em algum momento, viveram segundo os desejos da carne e eram "por natureza filhos da ira", ou mais literalmente, "eram filhos da ira" (Ef 2,3).

Se o texto terminasse aqui, poderia sugerir uma perspectiva profundamente pessimista. No entanto, imediatamente após este versículo, o autor acrescenta: "Deus, que é rico em misericórdia, pelo grande amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos pecados, nos deu vida juntamente com Cristo" (Ef 2,4-5).

Desta perspectiva, a expressão “filhos da ira” não significa que Deus odeia as suas criaturas pela sua desobediência. Em vez disso, descreve a condição da humanidade sujeita ao poder do pecado e da morte.[4] A prova é precisamente a intervenção gratuita da misericórdia.

Os seres humanos não são amados por já serem justos. Não são salvos por se tornarem amáveis ​​de antemão. Pelo contrário, é a precedência do amor de Deus que regenera em nós a capacidade para uma vida boa.

Notemos um aspecto importante: mesmo nesta passagem, a ira e a misericórdia não são colocadas no mesmo nível. A condição antropológica caracterizada pela ira é superada pela superabundância teológica da misericórdia.

Ira no Apocalipse

É talvez no Apocalipse que a linguagem da ira atinge sua maior intensidade no Novo Testamento. O livro contém imagens explícitas como o "vinho da ira de Deus", os "cálices da ira" e o "terrível dia do juízo".

Essas imagens podem parecer incompatíveis com o Evangelho da misericórdia. No entanto, é necessário esclarecer que o Livro do Apocalipse foi escrito em um contexto de perseguição. As comunidades cristãs vivenciaram a violência do domínio romano, a arrogância do poder imperial, a sedução da idolatria e a condenação do martírio. A referência ao juízo divino visa responder à pergunta dramática das vítimas: o mal terá a última palavra? A violência ficará impune? A história pertence definitivamente aos algozes?

A ira de Deus é entendida aqui principalmente como uma promessa de justiça. Ela anuncia que o domínio da "Babilônia, a Grande", símbolo do poder violento e idólatra de Roma, não durará para sempre. Deus ouve o clamor dos mártires e triunfará sobre aqueles que buscam destruir o seu povo.

Sem a perspectiva do julgamento de Deus, a misericórdia corre o risco de se tornar uma consolação abstrata, incapaz de levar a sério o sofrimento suportado pelas vítimas.

É crucial, no entanto, observar que o juiz no livro do Apocalipse é o "Cordeiro imolado". Aquele que julga carrega as marcas de sua própria entrega. O poder de Deus se manifesta na cruz, não na reprodução da violência imperial.

No capítulo seis, encontramos uma imagem deliberadamente paradoxal: a "ira do Cordeiro" (Ap 6,16). Um cordeiro não é um animal selvagem. O Cordeiro vence permitindo ser morto, não matando; ele vence através do sangue derramado pelos mártires, mas o sangue derramado aqui é, antes de tudo, o seu próprio.

Isso significa que o julgamento de Deus não pode ser interpretado segundo as categorias da vingança humana. O Deus que julga é aquele que assumiu a violência e a suportou sem infligi-la em troca.

Raiva e misericórdia: dois aspectos opostos?

Após essa visão geral do Novo Testamento, podemos abordar diretamente a questão central: ira e misericórdia são duas características opostas da realidade de Deus? Para responder a isso, precisamos distinguir entre os planos.

A ira de Deus não é uma característica permanente e autônoma do seu ser, como se houvesse um lado misericordioso e um lado vingativo alternados em Deus. As Escrituras não dizem em nenhum lugar que "Deus é ira", enquanto afirmam explicitamente que "Deus é amor" (1 João 4,8, 16). Portanto, o amor é inerente à própria identidade de Deus.

A ira, por outro lado, descreve a maneira como o amor divino se "desfaz" do mal. Em outras palavras, a ira é o amor de Deus quando confronta aquilo que busca destruir os seres humanos e o seu mundo.

A lógica subjacente a esse discurso sobre Deus é de oposição: se Deus ama a vida, então se opõe à morte. Se ama os pobres, então se opõe à opressão. Se ama a verdade, então se opõe à mentira. Se ama a liberdade, então se opõe àquilo que escraviza.

A ira é o "não" peremptório de Deus a tudo que contradiz o seu "sim" incondicional à existência "muito boa" das criaturas e do seu mundo. Nesse sentido, a ira não limita a misericórdia, mas antes revela a sua dimensão dramática. Uma misericórdia que não julgasse o mal como mal acabaria por se tornar cúmplice do próprio mal.

Perdoar o culpado não significa declarar o sofrimento da vítima irrelevante. Acolher o pecador não significa justificar o pecado. A misericórdia evangélica não pressupõe que o mal não importa. Pelo contrário, pressupõe que o mal é tão grave que o próprio Deus, por meio de Jesus, enfrenta o seu fardo para libertar a humanidade do "contraditório" e do "absurdo".

A cruz como revelação da ira como forma de misericórdia

Como a pesquisa do Novo Testamento demonstrou claramente, o lugar decisivo em que se torna possível compreender autenticamente a relação entre ira e misericórdia é a cruz de Cristo.

A cruz revela, antes de tudo, o que poderíamos chamar de "a ira do mundo". Jesus é rejeitado pelo poder religioso e político; ele é traído, abandonado, injustamente condenado. O medo, o ódio, a violência e o pecado da humanidade se concentram nele.

Contudo, na cruz, Jesus não responde à raiva com raiva. Ele não clama pela eliminação daqueles que se opõem a ele. Ele não desce da cruz para aniquilar aqueles que o insultam. Jesus permanece fiel até o fim ao estilo do amor incondicional.

Dessa forma, a cruz manifesta o julgamento de Deus sobre o pecado: o mal é desmascarado em toda a sua força assassina. Ao mesmo tempo, a cruz manifesta a superabundância da misericórdia: Deus, por meio de seu Filho crucificado, compartilha do sofrimento da vítima, assume as consequências do mal e abre a possibilidade de uma existência redimida e renovada.

Nesse sentido, é absolutamente necessário abandonar qualquer linguagem que distorça o significado da cruz como um ato de violência divina, no qual o Pai "descarrega" sua ira sobre o Filho pelos pecados da humanidade. Tal representação contradiz a perspectiva do Novo Testamento, segundo a qual o Pai e o Filho estão unidos na mesma vontade de salvação. Para citar novamente São Paulo, se é verdade que o Filho "me amou e se entregou por mim" (Gl 2,20), ao mesmo tempo, é igualmente verdade que Deus Pai "não poupou o seu próprio Filho, mas o entregou por todos nós" (Rm 8,32).

Na cruz, Deus não pune um inocente em lugar do culpado, como se fosse uma simples substituição penal, destinada a restaurar a ordem de justiça do mundo destruída pelo pecado. Ao contrário, Deus, por meio de seu Filho Jesus Cristo, assume o fardo do pecado humano, penetra na distância criada pelo mal e a transforma por dentro, por meio do amor ágape, por meio de sua dedicação incondicional.

Assim, a cruz é o lugar onde o julgamento se exerce plenamente como misericórdia. O pecado é condenado, mas o pecador continua a ser procurado e acolhido. Dessa forma, o mal é levado radicalmente a sério, mas não lhe é permitido ocupar o lugar definitivo na história pessoal e coletiva.

A misericórdia não anula a liberdade

Se o caminho que trilhamos for válido, então deve ficar claro que, quando dizemos "o Pai de Jesus é sempre misericordioso", não queremos dizer que qualquer escolha humana seja isenta de consequências. A misericórdia de Deus não é um mecanismo automático de salvação que torna nossa liberdade irrelevante. Deus não salva os seres humanos contra a sua vontade, anulando sua capacidade de decisão.

Muitas das duras palavras de Jesus podem ser compreendidas precisamente a partir dessa perspectiva. Pensemos no choro de Jesus sobre a cidade de Jerusalém: "Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados! Quantas vezes quis eu reunir os teus filhos, como a galinha reúne os seus pintinhos debaixo das asas, e vós não quisestes!" (Mt 23,37).

Neste lamento, juízo e misericórdia se encontram em perfeita harmonia. Jesus denuncia veementemente a violência cometida por Jerusalém contra os profetas e aqueles enviados por Deus e seu Cristo, mas, ao mesmo tempo, expressa o desejo de acolher seus filhos sob suas asas. O aspecto dramático está contido na frase: "Vocês não quiseram".

Isso significa que a vontade salvadora de Deus encontra uma liberdade que pode ser fechada, que pode ser subvertida. O juízo, portanto, não surge da falta de misericórdia de Deus, mas da inevitável possibilidade de que a misericórdia seja rejeitada pela liberdade do sujeito humano.

Nem mesmo as parábolas do juízo têm o propósito de despertar curiosidade sobre o número de salvos ou condenados. Elas servem para nos lembrar da nossa responsabilidade de agir livremente no presente, aqui e agora.

Por exemplo, na parábola do juízo narrada em Mateus 25, o critério decisivo para a salvação é a relação de cuidado com os famintos, os sedentos, os estrangeiros, os nus, os doentes e os prisioneiros. A ira de Deus não se dirige contra o ser humano que transgrediu uma norma; antes, expressa a indignação divina contra a indiferença daqueles que abandonam seus irmãos e irmãs à sua condição de pobreza e opressão.[6]

Misericórdia como forma de julgamento

Mas podemos ir além. No Evangelho, o julgamento de Deus não é simplesmente atenuado pela misericórdia. A própria misericórdia se torna a forma de julgamento. Jesus confronta aqueles que o encontram com a verdade de sua própria consciência.

Zaqueu, ao encontrar o olhar misericordioso de Jesus, reconhece a injustiça que corrompeu sua vida e decide dar metade de sua herança aos pobres, além de restituir quatro vezes mais o que havia roubado. Justamente por se sentir acolhido por Jesus, Zaqueu é capaz de reconhecer a injustiça cometida em sua vida anterior e, consequentemente, toma a decisão prática de mudar (cf. Lucas 19,1-10).

Nem mesmo a mulher adúltera mencionada em João 8 é condenada. As palavras de Jesus para ela, porém, não são: "Não se preocupe, você não fez nada tão terrível". Em vez disso, ele lhe diz: "Vá, e não peque mais" (João 8,11).

O perdão não isenta ninguém de viver a verdade de sua vida; pelo contrário, possibilita que isso aconteça, sem mortificar o pecador. A misericórdia julga o mal salvando aquele que o cometeu. Ela não humilha a pessoa, mas a incentiva a moldar sua vida de uma maneira mais condizente com a boa vontade de Deus e, portanto, mais digna da humanidade.

Nesse sentido, ira e misericórdia convergem na intenção de Deus de libertar o homem do mal. A ira afirma que o mal não pode ser aceito; a misericórdia afirma que o pecador jamais coincide definitivamente com o mal que cometeu.

O risco de uma misericórdia banalizada

Como sabemos, particularmente durante o pontificado de Francisco, o princípio da misericórdia tem sido corretamente considerado central na mensagem cristã. No entanto, esse princípio corre o risco de ser banalizado. Por vezes, a misericórdia é reduzida a uma tolerância genérica: Deus é misericordioso no sentido de que não leva nada a sério, não faz discernimento, não exige o compromisso da conversão. Esta, porém, não é a misericórdia bíblica, e muito menos a misericórdia que o Papa Francisco indicou como a "arquitrave que sustenta a vida da Igreja".[7]

A misericórdia, na verdade, é o amor de Deus que se inclina sobre a miséria do pecado e do sofrimento, não apenas para reconhecê-la, mas antes de tudo para transformá-la. Precisamente porque ama o pecador, Deus quer libertá-lo do pecado. Precisamente porque ama o oprimido, não pode abençoar a opressão. Ao mesmo tempo, precisamente porque Deus também ama o opressor, exorta-o a abandonar o sistema de violência em que se aprisionou e que o desumaniza.

Um Deus que perdoasse sem produzir uma transformação seria meramente permissivo. O Deus de Jesus, porém, perdoa com a intenção de gerar uma nova vida, renovada pela salvação. Nesse sentido, a misericórdia não elimina a conversão, mas a torna possível. Não elimina o julgamento, mas o retira da lógica da vingança, para direcioná-lo para a libertação do mal e do sofrimento.[8]

A deriva de uma pregação baseada no medo

Por outro lado, não podemos negar que a linguagem da raiva tem sido frequentemente usada na pregação cristã para inspirar medo, submissão e culpa. Deus tem sido apresentado como um governante ofendido, pronto para infligir punição, uma espécie de "faraó onipotente" de quem se deve defender por meio de práticas religiosas, sacrifícios e mérito.

Essa imagem distorcida causou feridas profundas na consciência e na vida de um grande número de crentes. Criou crentes incapazes de perceber Deus como Pai e obcecados em aplacar continuamente sua hostilidade.

A esta altura, já deve estar claro que o Evangelho não proclama um Deus de quem Cristo deveria nos proteger, para nos salvar de seu castigo. O Evangelho proclama um Deus que, em Cristo, vem ao nosso encontro. Jesus não morre para convencer Deus a nos amar. Ele morre porque Deus nos ama e, assim, leva as exigências do amor às suas consequências mais radicais.

Portanto, a referência à ira jamais pode ser dissociada da primazia da graça. Ela não deve ser usada para aterrorizar, mas para nos lembrar que nossas ações têm peso real; que as vítimas não são esquecidas; que Deus não aceita a destruição de sua criação.

Consequentemente, a pregação cristã da ira divina deveria fazer tremer aqueles que oprimem, não aqueles já feridos pela injustiça. Deveria perturbar aqueles que se sentem em paz com a consciência, não esmagar aqueles que buscam o perdão com afinco.

O Pai de Jesus é sempre misericordioso?

Podemos então retornar à pergunta inicial: o Pai de Jesus é sempre misericordioso? A resposta evangélica é sim, desde que compreendamos corretamente a misericórdia. Como já reiteramos diversas vezes, Deus é sempre misericordioso não porque considere o mal irrelevante, mas porque, mesmo no julgamento, busca a salvação de suas criaturas. Sua ira nunca é desprezo ou ódio para com os seres humanos. Pelo contrário, sua ira é uma oposição inequívoca àquilo que desumaniza a humanidade e o mundo.

Deus é misericordioso mesmo quando expõe, corrige e julga. Se pensarmos bem, o médico não é menos benevolente quando reconhece a gravidade da doença. Seria menos benevolente se, para evitar preocupar o paciente, declarasse a doença inexistente.

A misericórdia, portanto, pode assumir a forma de consolação, mas também de denúncia. Pode acolher o pecador e, ao mesmo tempo, pronunciar um "ai" contra a hipocrisia. Pode abraçar o filho pródigo e desafiar o ressentimento do filho mais velho. De fato, na parábola de Lucas, o pai sai ao encontro de ambos os filhos. Corre ao encontro do mais novo, que retorna arrependido, mas também sai para implorar ao mais velho que se junte à festa.

A misericórdia não exclui ninguém. Contudo, ao mesmo tempo, não força ninguém a participar. A parábola não revela se o filho mais velho foi finalmente persuadido a participar do banquete. Em todo caso, a porta da casa do pai permanece aberta. A misericórdia se doa, chama, espera, suplica; mas sempre leva a sério, com obstinação, a liberdade humana.

Conclusão

Em conclusão, é importante reconhecer que interpretar a linguagem que fala da ira de Deus continua sendo uma tarefa difícil e delicada, pois ela pode ser facilmente projetada no contexto de nossas experiências de violência, vingança e medo, literalmente ampliando-as ao infinito. Portanto, a metáfora da ira de Deus deve sempre ser refinada à luz do evento de Jesus Cristo.

O critério definitivo para entender quem Deus é e o que Ele faz continua sendo a compatibilidade com a palavra e a obra de Jesus Cristo. O Deus de quem Jesus é "a testemunha fiel e verdadeira" (Ap 3,14) não é um governante caprichoso, alternando momentos de ira com momentos de benevolência. Ele é o Pai que ama o mundo, envia seu Filho, busca os perdidos, celebra o pecador que se arrepende e cura os enfermos.

Contudo, o próprio Pai misericordioso não se aproxima do mal com distanciamento: não se trata daquela "indiferença divina" da qual Eugenio Montale escreve em sua coletânea Ossi di seppia. A ira do Pai de Jesus é o nome bíblico para sua incompatibilidade com tudo o que despreza e desfigura a vida. Sua ira é o protesto do amor contra a injustiça. Sua ira é a promessa feita às vítimas de que a violência, a doença e a morte não terão a última palavra. Sua ira é o julgamento que desmascara as mentiras e leva à conversão.

A ira e a misericórdia, portanto, não são duas emoções opostas competindo pelo coração de Deus. A misericórdia é a intenção original e definitiva de Deus; a ira é a forma que o seu amor misericordioso assume quando Ele se depara com o mal e resiste a ele até o fim.

Deus nunca deixa de ser misericordioso, nem mesmo quando protesta o seu "não" ao mal, porque esse "não" nasce do "sim" irrevogável que pronunciou sobre a vida dos seres humanos e de toda a criação. A face completa deste Deus é Cristo crucificado e ressuscitado: aquele que carrega as feridas do mal sem se tornar mau; aquele que julga o mundo salvando-o; aquele que vence o ódio sem odiar em troca.[9]

Na Páscoa de Jesus, descobrimos que a palavra insuperável de Deus não é a ira, mas a misericórdia. Não uma misericórdia fraca e imperturbável, porém, mas sim uma misericórdia capaz de levar o pecado e o sofrimento a sério, abrindo — mesmo na morte — um vislumbre de luz através do qual a força do amor pode emergir, gerando para todos a possibilidade de uma vida plena, definitivamente livre do mal.

Relatório apresentado em 8 de agosto de 2026 no Mosteiro de San Biagio Mondovì (CN) como parte de uma série de encontros sobre o tema “As faces sombrias do Deus bíblico: ira e vingança, violência e guerra”, promovidos pelas associações de MondovìLa Tenda dell'Incontro Giovanni Giorgis” e “Casa do menor Italia”.

[1] No caso da expressão "ira de Deus", deve-se falar mais precisamente de antropopatismo, isto é, da atribuição a Deus de um sentimento humano, como um subconjunto do antropomorfismo. O que o Quarto Concílio de Latrão (1215) declarou a respeito da analogia também se aplica ao antropopatismo: "Entre o Criador e a criatura não se pode notar tal semelhança que não se deva notar uma dissimilaridade ainda maior entre eles". Em outras palavras, o sujeito humano é capaz de conhecer e expressar a realidade de Deus a partir de realidades criadas. Dito isso, porém, o caráter incomensurável da transcendência divina deve ser levado em conta. Nossa linguagem em relação a Deus é sempre e em qualquer caso um "falar à beira do silêncio" (Jürgen Werbick).

[2] Blasfemar contra o Espírito Santo «é um pecado imperdoável não porque Deus não perdoa, mas porque quem
o comete recusa a conversão. […] É o endurecimento da cegueira naqueles que acreditam que podem ver e recusam o dom da visão (Jo 9,41). É o pecado daqueles que não se reconhecem como pecadores e necessitados de perdão (18,9-14). É a hipocrisia daqueles que mentem para causar boa impressão (At 5,1ss)» (S. FAUSTI, Una comunità legge il Vangelo di Luca, EDB, Bologna 1994, 450).

[3] «A fraude de Ananias e Safira é vista como uma duplicação do pecado original de Adão e Eva. Mentir ao Espírito constitui, no relato dos Atos, o pecado original dentro da Igreja. […] O castigo de Ananias e Safira mostra que a partilha económica não pode ser reduzida a um ideal filosófico, ainda que grego, ou a um romantismo do amor; a gestão altruísta dos bens é uma dimensão, por assim dizer, ontológica, da Igreja; a riqueza estabelece uma responsabilidade para com os pobres que Deus Juiz sanciona» (D. MARGUERAT, A primeira história do cristianismo: os Atos dos Apóstolos, San Paolo, Cinisello Balsamo [MI] 2002, 182.183).

[4] «A fórmula plástica de origem do Antigo Testamento indica a incompatibilidade absoluta de Deus com o mundo do mal e do pecado. Ele não só não é conivente, como também não permanece indiferente. A sua atitude é, pelo contrário, de clara oposição e condenação decisiva» (G. BARBAGLIO, Le lettere di Paolo, Vol. 2, Borla, Roma 19902, 225).

[5] «A expressão é uma mistura de sabores helenísticos e semíticos, onde “natureza”, em grego physis, representa a condição atual, e “filhos da ira” representa os homens sujeitos ao julgamento de condenação de Deus ou condenados. Mais uma vez, destaca-se a condição histórica de um grupo humano unido no pecado, em vez da existência de um pecado inato ligado à “natureza” humana» (R. FABRIS, Le lettere di Paolo, Vol. 3, Borla, Roma 19902, 232).

[6] «A perdição é a distância dele, o Filho, que nós mesmos estabelecemos no momento presente. Longe dele, estamos longe de nós mesmos. Se os primeiros são “abençoados pelo Pai”, estes não são amaldiçoados por ele, mas por si mesmos. O Pai coloca todos na bênção do Filho. Quem se distancia dele, rejeitando seu irmão, abandona a bênção» (S. FAUSTI, Una comunità legge il vangelo di Matteo II, EDB, Bologna 1999, 504).

[7] «A pedra angular que sustenta a vida da Igreja é a misericórdia. Toda a sua ação pastoral deve estar envolta na ternura com que se dirige aos fiéis; nada na sua proclamação e no seu testemunho ao mundo pode estar desprovido de misericórdia. A credibilidade da Igreja passa pelo caminho do amor misericordioso e compassivo» (PAPA FRANCISCO, Bula de Acusação do Jubileu da Misericórdia, Misericordiae Vultus, 11 de abril de 2015, n.º 10).

[8] «Por vezes, é muito difícil para nós abrir espaço na nossa pastoral para o amor incondicional de Deus. Colocamos tantas condições à misericórdia que a esvaziamos de sentido concreto e de real significado, e esta é a pior maneira de diluir o Evangelho. É verdade, por exemplo, que a misericórdia não exclui a justiça e a verdade, mas sobretudo devemos dizer que a misericórdia é a plenitude da justiça e a manifestação mais luminosa da verdade de Deus. Por conseguinte, é sempre correto considerar inadequada qualquer concessão teológica que, em última análise, ponha em causa a própria omnipotência de Deus, e em particular a sua misericórdia» (PAPA FRANCISCO, Exortação Apostólica Amoris Laetitia sobre o amor na família, 19 de março de 2016, n. 311).

[9] «A fé é confiar em Deus, confiar que Deus se deixa envolver pelas necessidades humanas e pela história da culpa da humanidade; Ele participa nela, torna-a uma “questão pessoal” e assim torna possível confiar nos seres humanos: homens e mulheres podem ser bons, podem ter boa vontade, podem viver vencendo o mal e o pecado. Podem ter um futuro que não deriva apenas das suas próprias capacidades, mas que vem de Deus e é um futuro com Ele, porque Ele partilha a Sua vida com eles. Viver desta forma é possível pela graça de Deus, resistindo à resignação e ao cinismo, escapando ao desespero. É o modo pelo qual os seres humanos podem participar na Sua plenitude. […] A fé não aceita que o mal que acontece neste mundo seja definitivo. Acredita que pode ser mudado, porque acredita na solidariedade de Deus, graças à qual as coisas podem mudar para melhor para a humanidade» (J. WERBICK, Uma teologia em perspectiva antropológica, Queriniana, Brescia 2025, 410).

Leia mais