Os atos do espíritos e das discípulas e discípulos-missionários. Artigo de Luís Alberto Bassoli

Foto: Carlos Sueli / unsplash

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11 Junho 2026

"O estudo mais atento dos Atos dos Apóstolos permite ousar e propor um novo nome ao livro. O autor estivesse aqui conosco hoje não se incomodaria. Escreveu a obra para os amigos de Deus de seu tempo, e escreveria também para os atuais", escreve Luís Alberto Bassoli, formado em Pedagogia (Centro Universitário Sumaré) e Filosofia (PUC Minas). 

Eis o artigo.

“Todo escriba que se tornou discípulo do Reino dos Céus é semelhante a um pai de família que do seu tesouro tira coisas, novas e velhas”.
(Evangelho de Mateus 13, 52)

Quando se aprofunda em um texto bíblico com criticidade e atenção, se é capaz de perceber ideias que sempre estiveram ali e não se atentou antes.

Mas também de observar que aquele texto que já conhecemos faz tanto tempo não diz o que sempre acreditamos estar ali.

A história de como os textos foram recebidos como canônicos explica e muito por que isso acontece. Não é diferente no caso dos ‘Atos dos Apóstolos’, nome que Lucas (que não sabemos de fato quem seja) nunca deu à segunda parte do seu livro, que se inicia no chamado (também pelos outros) de ‘Evangelho de Lucas’.

Se tais fatos observações possam parecer preciosismos diante da importância do anúncio da fé cristã nos dias de hoje, É EXATAMENTE o oposto.

O autor expôs sua intenção ao introduzir a primeira parte de seu livro, que era apresentar o Primeiro Anúncio (‘kerigma’) para o ‘Amigo de Deus’ (Teó-filo), em Lc 1, 1:

Visto que muitos já tentaram compor uma narração dos fatos que se cumpriram entre nós — conforme no-los transmitiram os que, desde o princípio, foram testemunhas oculares e ministros da Palavra — a mim também pareceu conveniente, após acurada investigação de tudo desde o princípio, escrever-te de modo ordenado, ilustre Teófilo, para que verifiques a solidez dos ensinamentos que recebeste.

Quando os Padres da Igreja adotaram o termo ‘Atos dos Apóstolos’ para nominar esta segunda parte do livro, queriam apresentar o Primeiro Anúncio também aos seus contemporâneos.

Mas não podemos esquecer que (At 2,39)

(...) para vós é a promessa, assim como para vossos filhos e para todos aqueles que estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar.

A promessa é também para nós, que estamos longe no tempo e no espaço daqueles dias. Assim, também a nós cabe entender a mensagem de Lucas e sua visão sobre Jesus e a Igreja Primitiva, para atualizá-la e anunciá-la aos dias atuais. Tirando coisas novas e velhas deste baú...

Um livro e suas falas

Sem nome e sem assinatura

Atos dos Apóstolos’ não é o nome do livro, até porque ele nem é um ‘atos’ (tipo de literatura grega que se assemelha com as nossas contemporâneas cinematografias que exaltam figuras famosas já falecidas) nem é ‘dos Apóstolos’, pois fala mais de Paulo (apóstolo, mas não dos Doze) do que dos demais. Sendo que nem se chama Paulo de Apóstolo no livro (RABUSKE, 2012).

Os Padres da Igreja atribuíram o livro (Evangelho + Atos) a Lucas, médico cooperador fiel de Paulo citado textualmente no livro. Inclusive em certo trecho há um ‘nós’, que de fato, parece referir o autor (At 16,10):

Logo após a visão, procuramos partir para a Macedônia, persuadidos de que Deus nos chamava para anunciar-lhes a Boa Nova.

Considerando o esmero citado pelo autor no início do texto, podemos crer que ele buscou o máximo de informações para o que escreveu, o que não pode ser entendido que tenha tido as ferramentas e a exatidão daquilo que chamamos de historicidade nos dias de hoje.

Ou seja, não seria um absurdo ele ter inserido no relato um texto previamente conhecido, recebido da tradição que se construía no meio cristão.

A tradição identificou o autor como este Lucas talvez porque entenderam que era necessário credibilizar o texto assim. Hoje sabemos que a única chancela sobre a ‘sagracidade’ das Escrituras é mesmo a fé.

Pelas contradições entre os escritos de Paulo e o livro de ‘Lucas’, hoje não se acha crível ser o companheiro de Paulo seu autor (RABUSKE, 2012).

Um ponto de vista

O autor se apresenta como alguém preocupado em relatar tudo o que aconteceu, dos inícios da missão de Jesus até Paulo se estabelecer em Roma. Mas quem pesquisa e relata está limitado às suas fontes e às suas ferramentas. Assim, obviamente, o autor não relatou TUDO o que aconteceu, mas tudo QUE CHEGOU a ele, por meio das fontes que teve acesso com todo o limite espaçotemporal daquela época comparado aos dias de hoje.

Exatamente por isso a Igreja nunca se envergonhou de ter quatro relatos da vida de Jesus, com alguns se chocando com outros em alguns pontos. Quem acha que a verdade pode ser enquadrada em um ponto de vista único não é o crente, mas o fanático.

Um autor atento à sociedade que vivia

O autor do texto, pelo que se vê na primeira parte (o Evangelho) é alguém atento às contradições sociais do seu tempo, ao denunciar as condições dos mais pobres em uma sociedade excludente como a de influência romana no oriente próximo (RABUSKE, 2012).

A observação do que está também nos Atos permite ver que não há conformidade com a injustiça social. Paulo, por exemplo, não era um pastor que se servia do dinheiro da comunidade para ostentar roupas de grife, como alguns de hoje em dia. Era um artesão que se identificava com os que passavam dificuldades (cf. At 18,13). Lucas estava atento.

Os dilemas da Igreja Nascente

Um autor escreve na perspectiva de que será lido. Assim, o leitor influencia o autor enquanto ‘inspirador’ para o que será comunicado. O que Lucas pensava que seus leitores precisavam saber?

  • O surgimento da Igreja em Jerusalém, pela ação do Espírito Santo em Pentecostes, como cumprimento da Promessa de Jesus (cf At 2).
  • A caracterização de uma comunidade cristã (cf. At 2,42).
  • A relação com os excluídos socialmente, com a criação do diaconato (cf. At 6, 1).
  • A relação com os excluídos pelo judaísmo, com o ‘Pentecostes’ na casa de Cornélio (cf. At 10,10).
  • A relação com o judaísmo a partir dos conflitos iniciais extra e intracomunidade que culminam com o Concílio de Jerusalém (cf. At 15).
  • A missão aos pagãos a partir de Antioquia e a cisão de vez com o judaísmo que mais do que nunca se torna perseguidor (cf. At 13 e seguintes).
  • Uma Igreja ‘diversa’ e ‘feminina’.

O cristianismo, sendo a proposta de um mundo novo, subverte, consciente ou inconscientemente, os valores sociais que excluem. É assim com a escravidão romana. E é assim também com o papel das mulheres.

Com o cuidado de não fazermos uma leitura anacrônica do tema, com certeza tanto Jesus relatado nos Evangelhos como também a comunidade descrita por Lucas apresenta um papel para as mulheres que era negado na sociedade patriarcal de então.

Seja anonimamente, como as mulheres ricas que doam seus bens, como as pobres, que se não atendidas pela comunidade poderiam vir a se prostituir por abandonadas, as mulheres são destacadas como alvo da evangelização, e valorizadas neste contexto (FALQUETO, 2023).

Saulo antes da conversão perseguia homens e mulheres (cf. At 8,3), o que significa serem elas importantes na missão da Igreja a ser destruída. Na missão, liberta uma mulher da exploração de seus patrões como vidente (cf. At 16, 16-20). Em uma sociedade que a mulher era totalmente inferiorizada, faz muita diferença esta ação do missionário.

Se existem mulheres que podem ser apontadas como ‘mães’ da comunidade (tanto Maria como também a mãe de Marcos em At 12, 12), temos também as intercessoras (como as presentes no Cenáculo em oração, At 1,14) e as profetisas (cf. At 21,19). Apesar da que mente ao Espírito Santo, e por isso é punida (Safira, At 5, 1-11), temos a discípula que cuidava dos pobres e viúvas (lembrando do quadro social destas mulheres) e foi ressuscitada por Pedro (Tabita, At 9, 36-42)); uma simples serva que é chamada pelo nome (Rosa, At 12, 13-16), sinal de valorização pela comunidade cristã; uma mulher que trabalha e é livre para buscar por si só o batismo (Lídia, At 16, 13-15). Só de ser nominada (Dâmaris, At 17, 34)) é sinal de que a comunidade, de fato, percebe que não há mais ‘homem ou mulher’, mas um só em Cristo.

O papel de Priscila com seu esposo Áquila (At 18, 2 e seguintes), como evangelizadora e catequista, mais uma vez mostra a relevância que as mulheres tinham na Igreja Primitiva. O compartilhar da fé, um fenômeno público, é assumido pelas mulheres, que na época estavam limitadas a tarefas domésticas (FALQUETO, 2023).

Uma Igreja do e no Espírito Santo

Considerando a Promessa de Jesus, de permanecer com os Apóstolos, todo o livro de Atos é permeado pela presença e ação do Espírito Santo em todos da comunidade, sem que isso seja um problema com respeito à ‘hierarquia’, também ela confirmada pelo Espírito.

Isso porque o pensamento então seria muito mais (diríamos hoje) sinodal do que piramidal, modelo que temos na cabeça ao falar em hierarquia no século XXI e anteriores mais próximos.

A Igreja, porém, foi expandida em rede (diríamos hoje), com núcleos mais ou menos independentes que se mantinham unidos reconhecendo serem, apesar da diversidade, uma só realidade, um só Corpo. E isso era obra do Espírito Santo.

O Espírito Santo derramado em Pentecostes o faz de forma visível externa e internamente (cf. At 2, 1-12). Os dons carismáticos se manifestam tanto em Jerusalém como no Pentecostes dos pagãos (Cornélio), quando Pedro reluta em aceitar que Deus não faz acepção de pessoas e percebendo que o apóstolo não ia batizá-los, decidiu ‘dar uma forcinha’ (cf. At 10).

Ainda após mais de cem anos de um movimento carismático se espalhando entre os cristãos, inicialmente evangélicos e após o Concílio Vaticano II também católicos, é difícil para o todo da Igreja aceitar e entender isso como ‘normal’. Seja porque os carismáticos às vezes querem se promover e dizer que seriam privilegiados, sejam porque certo racionalismo eclesial teme a liberdade no Espírito.

Lucas escreve com a intenção de mostrar que o Espírito antecede aos acontecimentos, às explicações e aos projetos. Estas acontecem DEPOIS que o Espírito interveio na história e nas pessoas que se abrem à Ele.

A missão é impulsionada, guiada, sustentada e inspirada no e pelo Espírito Santo (CASALEGNO, 2005).

Conclusão

O estudo mais atento dos Atos dos Apóstolos permite ousar e propor um novo nome ao livro. O autor estivesse aqui conosco hoje não se incomodaria. Escreveu a obra para os amigos de Deus de seu tempo, e escreveria também para os atuais.

Teríamos muitas possibilidades, afinal:

- Atos do Espírito Santo e das discípulas e discípulos missionários.

- Igreja, A missão.

- Homens e Mulheres Unidos e Enviados pelo Espírito.

- A Promessa é para Todos.

Enfim, um título resume e antecipa. Sintetiza e fixa.

O suposto Lucas deixou o ‘seu retrato’ do Mestre de Nazaré e do nascimento da Igreja diante do que chegou a conhecer pela sua pesquisa.

Hoje isso nos permite atualizar, pelo mesmo Espírito, a missão do Corpo de Cristo no século XXI.

Pois a promessa é também para nós, que ouvimos de longe, a Palavra do Senhor.

Referências

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulus, 2002

CASALEGNO, Alberto. A ação do Espírito Santo na assembleia de Jerusalém (At 15). PERSPECTIVA TEOLÓGICA, [S. l.], v. 37, n. 103, p. 367, 2005. Disponível aqui.  Acesso em 31 maio 2026

FALQUETO, Emanuelly Silva. O Retrato Das Mulheres Nas Comunidades Cristãs Primitivas No Livro Atos Dos Apóstolos. Revista Pistis & Praxis, vol. 15, nº 3, dezembro de 2023. Disponível aqui . Acesso em 31 maio 2026

RABUSKE, Irineu José. A Igreja em suas origens: revisitando os Atos dos Apóstolos. TEOCOMUNICAÇÃO, Porto Alegre, v. 42, n. 1, p. 5-18, jan./jun. 2012. Disponível aqui.  Acesso em 31 maio 2026

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