O regime de Ortega exibe o bispo Abelardo Mata na televisão após 40 dias desaparecido na Nicarágua

Abelardo Mata. (Foto: Religión Digital)

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15 Agosto 2026

O reaparecimento do prelado na mídia pró-governo ocorre 24 horas depois de a CIDH ter exigido medidas urgentes devido ao risco à sua saúde e segurança.

A reportagem é de Wilfredo Miranda Aburto, publicada por El País, 14-08-2026.

O bispo emérito da Nicarágua, Abelardo Mata — um dos críticos mais ferrenhos do regime de Daniel Ortega e Rosario Murillo — foi destaque na quarta-feira na máquina de propaganda de Ortega, mais de quarenta dias após sua prisão e um dia depois de a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) ter solicitado medidas urgentes à Corte Interamericana de Direitos Humanos devido à falta de informações sobre seu paradeiro. Em entrevista ao deputado e jornalista pró-governo Adolfo Pastrán, o regime tentou retratar Mata como estando "bem cuidado" e permanecendo pacificamente em sua casa.

O prelado foi detido pela primeira vez em 28 de junho em Estelí, uma das principais cidades do norte da Nicarágua. A Polícia Nacional o interceptou após ele celebrar uma missa na Igreja Cruz do Calvário, onde pediu aos fiéis que orassem pela Igreja Católica, que está sendo perseguida pelo regime. Essa primeira detenção durou apenas algumas horas, e ele foi colocado em prisão domiciliar, mas dois dias depois os policiais voltaram para buscá-lo.

A partir desse momento, fontes católicas começaram a se preocupar com a situação do prelado de 80 anos, que estava aposentado de suas funções religiosas desde 2021. Depois que a denúncia chegou à mídia e os Estados Unidos exigiram sua libertação “imediata e incondicional”, o Ministério do Interior (MINT) reagiu em 4 de julho, admitindo que Mata estava sob “investigação” em relação a “diversos episódios que violam as leis nacionais” — sem especificar quais — e à origem de seus bens e laços familiares “incompatíveis com seu status sacerdotal”.

No entanto, esclareceram que, após o "investigatório", o padre já havia retornado para casa. Mas fontes próximas à sua família e à Igreja Católica alertaram que não conseguiram verificar o paradeiro de Mata, nem mesmo se ele estava em casa, como afirmava o Ministério do Interior (MINT).

A este respeito, em 11 de agosto, a CIDH alertou que, embora o MINT tenha noticiado que ele estava sob “investigação”, até então não havia informações independentes que permitissem verificar seu paradeiro ou estado de saúde, o que é de particular “gravidade devido à sua idade e condições de saúde preexistentes”.

Entretanto, a CIDH decidiu apresentar um pedido de medidas provisórias à Corte Interamericana de Direitos Humanos, observando que “isto reflete uma situação excepcional baseada no risco extremo, urgente e irreparável aos direitos do líder religioso”. Um dia após essas ações no âmbito do sistema interamericano, o regime copresidencial exibiu o bispo Mata na mídia estatal e, ao fazê-lo, utilizou outros propagandistas para atacar os jornalistas e organizações que vinham pressionando as autoridades a revelar o paradeiro e a condição do bispo.

Na entrevista transmitida pelo governo, Mata disse que permanece recluso e em oração em sua propriedade, e que usa o tempo para ler, cuidar do jardim e dos animais. “Estou no meu pequeno canto do mundo levando uma vida monástica, que é o que estou fazendo aqui: oração e trabalho intelectual”, disse ele em um programa no qual Pastrán destacou o “agradável” encontro.

O bispo Mata foi uma das vozes mais vibrantes da Conferência Episcopal da Nicarágua contra o regime de Ortega-Murillo. Embora já estivesse aposentado, após o Papa Francisco aceitar sua renúncia, ele continuou a celebrar algumas missas em Estelí. Em fevereiro de 2022, o regime sandinista confiscou a Universidade Católica dos Trópicos Secos (UCATSE), que ele havia restabelecido e onde atuou como reitor por vários anos.

23 presos políticos desaparecidos

Horas antes da entrevista com o Bispo Mata ser transmitida em Manágua, a Associação Memória e Justiça (AMJ) e o Coletivo de Direitos Humanos Nicarágua Nunca Mais elevaram para 23 o número de presos políticos em estado de desaparecimento forçado, durante uma coletiva de imprensa em San José, Costa Rica.

“O sistema de repressão atualmente em vigor na Nicarágua funciona através de uma ampla rede de prisões arbitrárias, desaparecimentos forçados, tortura e vigilância. Qualquer pessoa, simplesmente por ser considerada uma ameaça ao regime, pode ser presa, desaparecer ou ser assassinada”, denunciou Claudia Pineda, diretora da AMJ. “Como já afirmamos anteriormente, a prisão política é um instrumento de criminalização contra qualquer dissidência, real ou imaginária.”

Segundo Pineda, como defensores dos direitos humanos, eles não podem "deixar de reiterar que as prisões são realizadas sem ordem judicial, por meio de batidas irregulares e com o uso de forças policiais e paramilitares". "E que, uma vez detidas, as pessoas são mantidas incomunicáveis, sem acesso a assistência jurídica, sem informações sobre sua situação legal e submetidas a julgamentos sem o devido processo legal", explicou ela.

A exposição pública de Mata não é um incidente isolado. Segue a mesma lógica de opacidade que as organizações de direitos humanos denunciaram em San José, embora o relatório delas não tenha mencionado explicitamente o bispo: é o regime que decide quando e como uma pessoa sob seu controle reaparece. As organizações documentaram que, dos presos políticos que permanecem desaparecidos à força, oito são idosos. No último ano, quatro morreram sob custódia, incluindo Mauricio Alonzo, Carlos Cárdenas e o líder indígena Brooklyn Rivera. “Todas (essas mortes) foram precedidas por desaparecimentos, detenção em regime de incomunicabilidade e falta de assistência médica”, alertou Pineda.

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