06 Agosto 2026
A jovem, que jogava no clube Maghreb Atlético Tetuán, morreu quando tentava alcançar a nado a costa espanhola na quinta-feira, em uma tragédia que já tirou a vida de dezenas de pessoas. O elDiario.es conversou com a mãe, o time e os amigos dela, na cidade que a viu crescer
A reportagem é de Soraya Aybar Laafou, publicada por El Diario, 04-08-2026.
A casa de Faten Ben Omar El Azizi está repleta de mulheres: primas, tias, amigas e Jamilla, uma mãe com os olhos carregados de dor. Não há um único canto desse lar, na cidade de Tetuão, a menos de 35 quilômetros de Castillejos, que não lembre a jovem.
Alguns fazem isso a partir da alegria, como seu priminho pequeno, que sorri enquanto mostra a última fotografia da jovem de 26 anos. "Jogavam futebol juntos", explica a mãe de Faten ao elDiario.es. Suas vizinhas, que aguardam em um canto da sala de sua casa, têm o rosto apagado. A jovem, que jogava futebol no clube Maghreb Atlético Tetuán, perdeu a vida na última quinta-feira, quando tentava alcançar a nado a costa de Ceuta em busca de um futuro melhor, em uma tragédia que já custou cerca de 90 vidas, segundo as autoridades espanholas.
Em frente à sala, há um pequeno quarto vazio: não há cama, escrivaninha, nem sequer objetos pessoais. O silêncio emana dessas quatro paredes, que também são uma lembrança. "Este ia ser o quarto dela. Ela nos pediu que já queria dormir sozinha, sem os dois irmãos. Estávamos preparando o quarto e, até então, ela preferia dormir aqui", conta, enquanto aponta para o sofá sobre o qual ocorre esta entrevista.
Faten cresceu em Tetuão. Admirava todos os grandes jogadores de futebol, tanto marroquinos quanto internacionais. Jamilla conta que era uma menina alegre, que tinha boas amigas e uma mãe que a amava acima de todas as coisas. "Juro por Deus", afirma.
"Sonhava em continuar treinando"
"Eu sabia que minha filha queria ir para a Europa, estava tentando por meio de sua paixão, o futebol. Jogava desde os sete anos", lamenta. "Isso precisa ficar claro: eu não enviei minha filha para atravessar a fronteira. Você acha que todas as mães que choram a perda ou o desaparecimento de suas filhas as mandaram morrer? Faten não era só minha filha, também era minha amiga."
Isso precisa ficar claro: eu não enviei minha filha para atravessar a fronteira. Você acha que todas as mães que choram a perda ou o desaparecimento de suas filhas as mandaram morrer? Faten não era só minha filha, também era minha amiga — Jamilla, Mãe de Faten
Jamilla trabalhou muitos anos como carregadora na alfândega entre Ceuta e Castillejos. Sua única fonte de renda foi interrompida quando, em 2020, as autoridades marroquinas fecharam a passagem de mercadorias por Tarajal para reduzir o comércio informal e a situação de vulnerabilidade de mulheres como Jamilla. "Não tínhamos nada e Faten sonhava em continuar treinando e se formando em seu esporte, mas não podíamos pagar por isso. No Marrocos, se você não tem dinheiro, nunca pode se dedicar profissionalmente ao futebol", explica. "Só pagavam algo a ela quando ganhavam alguma partida. Se perdiam, nada. Isso a deixava muito triste", acrescenta.
Tudo isso mudou no mesmo dia em que Faten morreu no mar. Sua mãe conta que não sabia que a jovem estava tramitando o visto para a Espanha pelo consulado de Tânger e recebeu uma ligação pela manhã. "A senhora é Faten Ben Omar El Azizi?", perguntaram do outro lado da linha telefônica. "Não, sou a mãe dela", respondeu Jamilla. "O visto foi concedido à sua filha", responderam. "A senhora precisa ir a Tânger com seu documento de identidade." Jamilla desconhece exatamente como o visto foi tramitado.
A busca foi angustiante. "Ninguém me ajudou a encontrar nem a trazer o corpo da minha filha. Veio um rapaz até nossa casa perguntando se Faten usava um agasalho e me disse que ela havia batido a cabeça ao tentar atravessar para Ceuta, mas eu já sabia que ela tinha morrido. Eu sentia isso", explica. Depois da notícia, o rapaz explicou que precisavam ir a Rincón. Nada. Em Tetuão também não havia notícias sobre a filha dela. Das 22h de sexta-feira até as 8h de sábado, não pararam de procurá-la um único momento, segundo seu depoimento.
"Em Castillejos, minha irmã pediu que abrissem as portas para verificar se ela estava lá. Então perguntaram se minha filha usava um colar com corações. Eu não quis entrar. Não queria gravar essa imagem na minha memória", conta. "Foi minha irmã que entrou. Ali, ela encontrou o amor do meu coração, minha menina Faten", acrescenta a mãe. Explica que o corpo apresentava hematomas no rosto e que ela morreu afogada.
A história migratória da família não se resume à jovem Faten. "Todos os irmãos foram para Ceuta. O mais velho dos três conseguiu falar comigo por telefone. Ele atravessou a fronteira a pé. Da caçula não sabemos nada, mas ela sabia nadar. Tem 14 anos", explica, enquanto mostra uma fotografia da menina, pendurada em uma moldura em uma das paredes da casa.
"Meu marido faleceu quando Faten tinha 12 anos, e agora estou sozinha, sem meus filhos", aponta. Nesse momento, a casa está lotada, mas o que Jamilla teme é o futuro. "Não consigo viver sem eles", acrescenta. Baixa a cabeça e desbloqueia o celular. Uma foto de Faten jogando futebol, outra da jovem comendo com as amigas e uma terceira sentada nas escadas que sobem da rua até o primeiro andar de sua casa.
"Uma boa companheira"
A morte da jovem circulou nas redes sociais e na imprensa quando o Maghreb Atlético Tetuán, seu clube, a confirmou. Oumar, o técnico, está sentado no meio-fio, cercado por uma dezena de jovens, entre 15 e 26 anos. São as companheiras do time de futebol onde Faten jogou na liga regional até falecer.
Uma delas está sentada no banco enquanto o restante começa o treino. Tem 16 anos e, embora houvesse dez anos de diferença com Faten, compartilhavam risadas e passes de futebol. "Treinamos dois dias por semana, terças e quintas-feiras. Às vezes aqui e, outras vezes, na praia", conta, apontando para o campo de futebol cercado por grades.
Oumar lembra de Faten como "uma boa companheira, com um espírito futebolístico marcante". Explica que ela sempre manteve uma atitude positiva dentro do grupo e que era muito querida no time. Ao olhar para as garotas, diz: "Elas estão passando por um momento difícil. Muitas não conseguiram vir treinar porque viram o corpo de Faten durante o enterro e estão abaladas."
"Éramos como irmãs, compartilhávamos tudo, até a comida e o dinheiro. Ela vinha trabalhar conosco quatro dias por semana. Nos divertíamos e ela sempre me falava sobre futebol. Era muito importante para ela", conta Malika, amiga de Faten.
Éramos como irmãs, compartilhávamos tudo, até a comida e o dinheiro. Ela vinha trabalhar conosco quatro dias por semana. Nos divertíamos e ela sempre me falava sobre futebol. Era muito importante para ela — Jamilla, Mãe de Faten
Duas das jovens do time também atravessaram para Ceuta, embora ambas tenham voltado a um campo de futebol onde, hoje, e por muito tempo ainda, a bola rola em memória de Faten.
Rayhan em memória de Faten
Além de jogar futebol, a jovem trabalhava desde os 14 anos para levar dinheiro para casa. Ao sair do portão do prédio onde morava, o cemitério mais antigo de Tetuão se estende pelas encostas do monte Dersa. Entre os túmulos, duas jovens, Malika e Youssef, carregam, em uma mão, galões de plástico cheios de água e, na outra, um punhado de rayhan, ou ervas aromáticas que representam a bênção em contextos religiosos muçulmanos. Faten trabalhou com os dois limpando túmulos e vendendo buquês.
Durante os quatro anos em que trabalharam juntas, compartilharam a vida em meio à morte. Malika é uma jovem de Ouarzazate, órfã de pai e mãe, que decidiu se mudar para Tetuão em busca de trabalho. A jovem começa a chorar ao falar de Faten. "Éramos como irmãs, compartilhávamos tudo, até a comida e o dinheiro. Ela vinha trabalhar conosco quatro dias por semana. Nos divertíamos e ela sempre me falava sobre futebol. Era muito importante para ela", explica entre lágrimas.
O túmulo de Faten está nesse recanto da cidade e, embora a cor branca dele ainda brilhe, Malika decide jogar mais água sobre a superfície. Recolhe um pedaço de tecido do chão e o estende sobre as lajes. No centro, plantaram rayhan, o mesmo que ela vendia. Também o rega, para continuar honrando sua memória. "Sinto ela perto, imagino ela subindo a colina até aqui", diz.
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