No Vaticano, os estadunidenses estão ampliando sua influência sobre a Igreja Católica

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30 Julho 2026

Eles ocupam cargos-chave na Santa Sé e estão criando grupos de reflexão, fundações e universidades em Roma. Seguindo os passos de seu compatriota Robert Prevost, que se tornou Leão XIV em maio de 2025 e cuja popularidade não para de crescer nos Estados Unidos, os católicos dos EUA exercem todo seu peso para moldar o catolicismo.

A reportagem é de Sarah Belouezzane, publicada por Le Monde, 23-07-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Com o quepe branco na cabeça e impecáveis jaquetas azuis, adornadas com listras vermelhas e botões dourados, os quatro militares, membros do prestigioso Corpo de Fuzileiros Navais, padecem o calor opressivo do fim de tarde romano, sem demonstrar qualquer sinal de desconforto. Com movimentos precisos, alguns ostentando a bandeira dos EUA presa às dragonas, outros com fuzis a tiracolo, os homens prestam saudação solenemente. Diante deles, no gramado da suntuosa Villa Richardson, no topo do monte Janículo, Brian Burch, embaixador dos EUA junto à Santa Sé, irradia satisfação.

No último 26 de junho o diplomata, um colaborador próximo do presidente estadunidense Donald Trump, celebra com grande pompa e alguma antecedência a cerimônia o 250º aniversário da independência dos Estados Unidos. Os cardeais, aqueles Príncipes da Igreja encarregados de auxiliar o Papa no governo do catolicismo, estão todos reunidos em Roma a convite de Leão XIV. São cinco os estadunidenses que fizeram a viagem para cortar o bolo em formato de bandeira e brindar à saúde de sua nação.

"O Say Can you...", as notas iniciais do hino estadunidense ecoam no silêncio da catedral. Na primeira fila, tomado pelo espírito patriótico, o cardeal Timothy Dolan, arcebispo de Nova York de 2009 a 2025, chega a retirar seu solidéu escarlate (o símbolo de sua hierarquia e do sangue do mártir) e acompanha a melodia cantarolando, sem perder uma única nota. "Esta noite, é importante ver e ser vistos", brinca um dos convidados. Tanto para o embaixador Burch quanto para seus hóspedes, como observa um participante habitual, trata-se de uma demonstração de poder. Toda a elite católica norte-americana de Roma está presente nessa noite. Reitores de universidades pontifícias, instituições acadêmicas sob a égide da Santa Sé, duas entre as mais prestigiadas (a Gregoriana e o Angelicum) são lideradas por estadunidenses; estão também presentes padres e outros membros do governo do Vaticano de certa relevância. Representantes de fundações e organizações beneficentes, jornalistas e até membros do Serviço Secreto, a agência dos EUA responsável pela proteção das personalidades, completam o grupo.

Um Papa vindo de Chicago

Os estadunidenses ocupam, há muito tempo, um lugar especial na Igreja. Embora não sejam tão numerosos na direção dos dicastérios, ocupam posições-chave, estão presentes em todas as administrações e financiam o aparato em níveis que outras nações, entre as quais a França e até mesmo a Itália, sequer conseguem imaginar. E, acima de tudo, acabaram de dar à Igreja um Papa.

Publicados em 30 de junho, os números anuais do Óbolo de São Pedro, o fundo por meio do qual os fiéis de todo o mundo apoiam o papado e suas missões, traduzem em dinheiro vivo a popularidade desse Papa estadunidense entre seus compatriotas. Em 2025, a Santa Sé arrecadou 54,5 milhões de euros em doações; 26,1% desses recursos vieram de fontes privadas e fundações dos EUA; a Itália, segunda maior doadora, fica muito atrás, com 5,7% das doações; ainda mais atrás está a França, outrora a "filha primogênita da Igreja", com modestos 2,4%...

Com a histórica eleição do Cardeal Robert Prevost em 8 de maio de 2025, os estadunidenses ampliaram ainda mais sua influência sobre o Vaticano e a Igreja. Eles assumem cargos importantes, abrem em Roma sedes locais de seus think tanks, fundações e até universidades. Como um Estado dentro do Estado. E se impõem como figuras indispensáveis, na esteira de um Papa cuja popularidade nos Estados Unidos não para de crescer.

Embora Robert Prevost tenha passado a maior parte de seu ministério no Peru, chegando a obter a cidadania peruana em 2015, para seus compatriotas estadunidenses, o nativo de Chicago continua sendo um deles. Isso fica evidente no uso do inglês, muito mais frequente do que o uso do espanhol por seu antecessor, o argentino Jorge Bergoglio (1936-2025), que preferia o italiano. Mas também em seus hábitos e preferências pessoais: o Papa não usa justamente tênis da Nike? E um Apple Watch no pulso? Leão XIV também fala frequentemente sobre o Chicago White Sox, seu time de beisebol favorito e um dos patrocinadores do evento de 26 de junho organizado pelo embaixador. Ao se opor às políticas agressivas de expulsão de imigrantes de Donald Trump e à sua guerra no Irã, Leão XIV assumiu um papel sem precedentes aos olhos de muitos cidadãos estadunidenses, aterrorizados pela ideia de que não exista mais ninguém para se opor ao seu presidente. E isso, bem além dos círculos católicos.

Um opositor de Trump que, no entanto, conquista o apoio dos bispos e dos fiéis católicos, apesar de muitos deles terem votado no magnata do setor imobiliário em novembro de 2024. Um papa católico popular entre os protestantes. O Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, está bem ciente desse paradoxo ao participar do evento noturno organizado por Brian Burch em 26 de junho. Em seu discurso naquela noite, ele se pergunta como os "Pais Fundadores" dos Estados Unidos, reunidos na Filadélfia, Pensilvânia, em 1776, teriam reagido se soubessem que o sucessor de Pedro, o primeiro papa da Igreja Católica, um dia teria sido um estadunidense. "Talvez não com grande alegria", responde ele mesmo. Risos entre os presentes.

"Muito próximos do poder"

Sentado à mesa de um café, à sombra na Piazza Apollinare, no centro de Roma, o Padre John Paul Wauck, professor da Pontifícia Universidade da Santa Cruz e natural também de Chicago, tenta explicar como uma nação de maioria protestante conseguiu exercer tamanha influência sobre o catolicismo mundial e sobre o Vaticano.

"Os europeus sempre se surpreendem ao ver a influência que os católicos estadunidenses exercem aqui, mas, considerando a importância que eles têm em seu país de origem, os Estados Unidos, na realidade não é tão surpreendente", explica ele. O religioso ressalta que os mais de 60 milhões de católicos nos EUA constituem a maior denominação cristã, de fato, 20% dos adultos se declaram como católicos, segundo um estudo de 2025 do Pew Research Center, enquanto os protestantes, embora muito mais numerosos, estão divididos em diversas igrejas, cada uma com sua própria organização e hierarquia.

Os católicos também estão "muito próximos do poder", observa John Paul Wauck. Além do vice-presidente J.D. Vance, um homem de grande fé que relata sua conversão ao catolicismo nos mínimos detalhes em suas memórias, Communion (Harper), publicadas em junho, e do secretário de Estado Marco Rubio, cuja grande cruz cinza marcada em sua testa na Quarta-Feira de Cinzas de 2025 ficou famosa, seis dos nove juízes da Suprema Corte desse grande país protestante são católicos. Dois deles, Brett Kavanaugh (2018) e Amy Coney Barrett (2020), foram nomeados por Donald Trump durante seu primeiro mandato. "O Judiciário e grande parte do Poder Executivo estão, portanto, nas mãos dos católicos", observa o Padre Wauck.

Segundo várias fontes ouvidas pelo Le Monde, esse peso das elites fiéis a Roma pode ser atribuído à vasta rede de escolas e universidades católicas de alto nível do país. Mais de 200 instituições de ensino superior, entre as quais a Georgetown, em Washington; a Villanova, na periferia da Filadélfia, onde o Papa estudou, e a Notre Dame du Lac, em South Bend, Indiana. Um contexto ideal para a formação de elites que, posteriormente, prosseguirão seus estudos em universidades de prestígio como Yale (Connecticut) ou Harvard (Massachusetts).

Durante sua estadia de seis meses na Notre Dame du Lac, o Padre Roberto Regoli, presidente da Fundação Joseph Ratzinger (que preserva o legado do Papa Bento XVI) e professor de história da Igreja na Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, teve bastante tempo para observar a importância que essas instituições conquistaram no mundo católico. Os laços com Roma são constantes, observa: a Notre Dame possui até mesmo um campus na Cidade Eterna, e a Villanova tem planos para abrir o seu. Outro sinal da importância assumida pelos estadunidenses: "Para onde irão estudar os sacerdotes dos vários países?", pergunta o Padre Regoli. "Em Roma e nos Estados Unidos." Os católicos estadunidenses ainda acreditam nas disciplinas humanísticas e, em suas universidades, que são de excelente nível, é possível estudar teologia, história ou medicina.

Também os dignitários da Santa Sé viajam regularmente aos Estados Unidos. Em 17 de maio, na cerimônia de formatura da turma de 2026 da Notre Dame, a oradora principal foi a Irmã Raffaella Petrini, presidente do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano e a mulher mais importante do Vaticano. Em abril, Barbara Jatta, diretora dos Museus do Vaticano, participou de uma importante conferência na mesma universidade sobre o tema "A Arte e o Museu como Instrumentos de Paz".

A EWTN, a "Fox News católica"

No âmbito da Igreja e do Vaticano, os estadunidenses dispõem de outra ferramenta de grande influência, a mídia. O país conta com numerosos jornalistas e correspondentes permanentes em Roma, que trabalham para agências de notícias especializadas e veículos de comunicação que abrangem todo o espectro político nacional. Uma presença considerável em comparação com aquela dos europeus, que na maioria das vezes contam com apenas um pequeno grupo de jornalistas credenciados junto à Santa Sé, com exceção, obviamente, dos italianos.

Entre esses meios de comunicação, se destaca principalmente um canal de televisão: a Eternal Word Television Network (EWTN). Fundada no coração do Alabama em 1981 por uma freira, Madre Angélica (1923-2016), cujo rosto sorridente, emoldurado por um véu, estampa as vans de suas equipes de televisão, essa rede cresceu ao longo de quarenta e cinco anos para se tornar a maior mídia audiovisual católica do mundo. Com suas filiais e ramificações, a emissora, abertamente conservadora e frequentemente comparada a uma "Fox News católica", transmite em 160 países e afirma alcançar 435 milhões de famílias.

Em seus escritórios em Roma, nada menos que trinta jornalistas dedicam seus dias a acompanhar de perto a vida no Vaticano e as atividades do Papa. Com uma perspectiva que nem sempre foi favorável ao papado, especialmente em relação a Francisco, percebido como demasiado progressista para os gostos da EWTN. Sem nunca citar a rede diretamente, o pontífice argentino chegou a definir sua cobertura midiática, em 2021, como "obra do diabo".

No entanto, a situação mudou. O Papa Leão XIV certamente segue os passos de seu antecessor em muitos aspectos, especialmente no que diz respeito às questões migratórias e à justiça social, às quais escolheu dar voz sempre que possível. Ainda assim, em 2 de junho, é justamente a uma executiva da emissora que ele decidiu confiar a liderança de seu Dicastério para a Comunicação: a mexicana-estadunidense Maria Montserrat Alvarado. Ela assumirá o cargo em 1º de novembro. A era dos italianos, o jornalista Paolo Ruffini que ocupava o posto até então, parece ter chegado definitivamente ao fim. Está começando a era dos estadunidenses.

Se esses meios de comunicação se tornaram tão importantes ao longo dos anos, é porque dispõem da considerável generosidade dos doadores. A filantropia é, afinal, uma tradição nacional, e os católicos dos EUA inundam a Igreja e suas obras de caridade com recursos, ansiosos por moldar a religião à sua própria imagem.

Que momento melhor do que a primavera para fazer uma peregrinação a Roma? A temporada turística ainda não está a pleno vapor, o sol brilha de forma agradável e o jasmim que adorna os muros dos bairros do Aventino e de Trastevere está prestes a florescer. É precisamente nesta época do ano que os membros das fundações que abastecem a Santa Sé com dólares realizam suas viagens, todos os anos. Na agenda: um passeio pela Roma antiga, visitas às igrejas barrocas e uma breve etapa no Palácio Apostólico, a residência papal, onde uma audiência privada com o Pontífice é quase invariavelmente concedida. Afinal, sua agenda do mês de maio parece uma verdadeira lista dessas organizações católicas estadunidenses, sem as quais bem pouco seria possível: The Papal Foundation, Catholic Charities, Vatican Observatory Foundation... "Hoje, nos Estados Unidos, existe um certo entusiasmo em torno desse Papa. E esse entusiasmo se traduz em apoio financeiro", analisa Anthony Ligato, vice-reitor do Pontifício Colégio Norte-americano, sentado em um sofá de couro branco diante das amplas janelas que oferecem uma vista panorâmica de Roma.

O Padre Ligato supervisiona a formação pastoral desse seminário, onde estudam os padres vindos dos Estados Unidos. O edifício, construído na década de 1950 nas partes altas da cidade, a poucos passos do Vaticano, também hospeda todos os Príncipes da Igreja em visita. Nas semanas que antecederam o conclave de 2025 que elegeu Leão XIV, era ali que os cardeais estadunidenses se hospedaram, e era ali que, todas as noites, no famoso Salão vermelho, se reuniam diante de um prato típico de sua terra natal, para discutir suas preferências quanto ao futuro da Igreja e quem deveria liderá-la. Todos os cardeais... exceto Robert Prevost: o futuro papa sempre havia preservado zelosamente sua independência e havia preferido permanecer com sua própria ordem dos Agostinianos.

Festa de gala de batinas e colarinhos romanos

Poucos dias após sua eleição, plenamente consciente dos problemas financeiros estruturais do Vaticano (a Santa Sé luta há anos contra um déficit e teve que enfrentar inúmeros escândalos ligados às suas finanças), Leão XIV deixou claro que essa questão não seria um obstáculo para ele. Ele conhece a fundo os doadores, seus métodos e sua mentalidade. E fala a mesma língua. De fato, os recursos que pareciam estar faltando para a Santa Sé durante o pontificado de Francisco, cujas ideias eram consideradas demasiado progressistas por alguns doadores, agora parecem voltar a fluir. É o efeito Leão. Essa "onda" está por toda parte, especialmente no prestigioso jantar anual oferecido pelo reitor do Pontifício Colégio Norte-americano, Thomas W. Powers.

O clima está perfeito nesse 16 de abril, quase um ano após a eleição do primeiro papa estadunidense da história. As taças de champanhe e os coquetéis não têm tempo de esquentar nas mãos dos muitos convidados reunidos no peristilo do colégio. Colunas modernas cercam um pátio que abriga uma fonte central coroada por estrelas. Os convidados, ricos benfeitores da Santa Sé e do colégio, podem desfrutar das quarenta e oito laranjeiras cujo perfume inebria o ambiente; uma para cada estado estadunidense (o Havaí e o Alasca foram admitidos apenas em 1959, após a construção do edifício). Quem desejar pode subir ao terraço para admirar a vista de Roma. Em seguida, os convidados serão conduzidos ao grande salão do refeitório, especialmente preparado e decorado para a ocasião.

Com 450 mesas, o salão de recepção nunca esteve tão concorrido. Essas mesas são adquiridas mediante pagamento: particulares ou fundações compram uma mesa e escolhem seus convidados. É um evento de gala para doadores que não se compara a nenhum outro em Roma: aqui, nada de trajes ou maquiagens extravagantes, mas batinas pretas e colarinhos romanos. O colégio também convida os cardeais para o jantar, que se sentam às mesas dos convidados. "Os doadores querem garantir que a Igreja tenha padres para o futuro; por isso, desejam apoiar, por todos os meios possíveis, a formação dos futuros sacerdotes a serviço dos Estados Unidos", explica o Padre Ligato. "Sua fé profunda lhes permite sustentar a Igreja e sua missão." Os jovens seminaristas, entre outras coisas, servem as mesas, conta o Padre Ligato. Os fundos arrecadados serão destinados à formação deles. Tudo aqui é pensado para recriar uma atmosfera de "homeland", a pátria.

Ward Fitzgerald, presidente do conselho de administração da famosa Papal Foundation, uma das organizações mais generosas dos Estados Unidos, não pôde vir da Filadélfia como faz todos os anos; outros compromissos o impediram de comparecer. Seu encontro com o Papa, mesmo assim, acabou ocorrendo alguns dias depois, em maio. Sua fundação, que conta entre seus copresidentes o Cardeal Dolan, figura próxima aos ambientes republicanos, decidiu doar, este ano, 15 milhões de dólares (13,1 milhões de euros) para as diversas obras de caridade da Santa Sé.

"Uma mudança de clima"

Para Ward Fitzgerald, a chegada de Robert Prevost à Cátedra de Pedro torna as coisas significativamente mais fáceis para os benfeitores estadunidenses. "Leão nos compreende; entende a importância da coleta de fundos e, acima de tudo, o funcionamento do capitalismo", explica ele. "Ele é estadunidense; sabe como as coisas funcionam. Já esteve no Peru e viu o que fundações como a nossa podem fazer para ajudar os países em dificuldades."

A compreensão do novo Papa dos costumes estadunidenses e do uso do inglês representam, para o empresário da Filadélfia, uma mudança radical que o incentiva, assim como a outros, a querer assumir um papel ainda mais importante no futuro. "Esperamos poder expandir as nossas atividades para que possamos nos tornar, quem sabe, um intermediário", afirma Ward Fitzgerald. "A Papal Foundation poderia atuar como um intermediário entre a Santa Sé e católicos abastados e filantropos. Se o Santo Padre ou a Igreja universal precisarem de algo que esteja fora do nosso escopo de atuação, eu não posso financiar isso pessoalmente, mas posso colocá-los em contato com dez católicos ricos de Los Angeles, Chicago, Dallas, Miami, Nova York e Filadélfia que, por sua vez, poderiam contribuir economicamente."

O responsável pela organização sediada na Filadélfia chega a imaginar até mesmo poder participar das viagens do Papa a países do Sul. "Por que não? Dessa forma, poderíamos prestar assistência direta a alguns projetos locais", explica Ward Fitzgerald, sorrindo. Por meio do Vaticano, sua organização sustenta comunidades locais, orfanatos e hospitais. Dioceses e organizações católicas locais enviam seus pedidos à Santa Sé; em seguida, uma decisão conjunta é tomada entre a fundação, que decide onde cada centavo é alocado, e a Secretaria de Estado do Vaticano.

O Acton Institute também saúda "uma mudança de clima e atmosfera" que teria ocorrido "da noite para o dia" com a chegada do novo papa. A organização não esconde seu desejo de "estender o trabalho que desempenha em Roma". "Estamos até nos mudando para novos escritórios", afirma seu presidente emérito, o Padre Robert Sirico, com entusiasmo. A organização, abertamente alinhada aos círculos republicanos, não desfrutava de boa reputação sob o pontificado do Papa Francisco; ele criticava suas posições por serem muito liberais no campo econômico, motivo de orgulho para a entidade, e muito conservadoras no plano moral. Hoje, Maria Montserrat Alvarado, diretora de comunicações do Vaticano, faz até parte do conselho de administração do instituto.

O Acton Institute, que há algum tempo já nem participava mais do jantar do reitor do Pontifício Colégio Norte-americano, retornou ao evento este ano. Leão XIV não recebeu seus representantes em audiência privada, mas conversou com o Padre Sirico e Kris Alan Mauren, presidente da organização, enquanto estavam sentados na primeira fila durante uma audiência papal em 20 de maio. Os assentos dessa "primeira fila" são cuidadosamente reservados pelo Vaticano para poucos privilegiados, pois permitem uma interação direta com o Pontífice.

Ideias "compatíveis com Trump"

O instituto, sediado em Grand Rapids, Michigan, não financia obras de caridade, mas sim bolsas de estudo individuais, especialmente para padres de todo o mundo que desejam prosseguir nos estudos.

Também organiza um seminário e financia livros e documentários. O Padre Sirico e Kris Alan Mauren não escondem suas ambições: "Queremos influenciar o futuro da Igreja e do mundo, e fazer ouvir nossa voz sobre nossa visão do catolicismo e da economia, uma visão que, atualmente, não parece estar suficientemente difundida", declara Kris Alan Mauren.

Trata-se de ideias liberais que, segundo eles próprios admitem, em muitos aspectos são compatíveis com as políticas de Donald Trump. O fato do Papa ter criticado o presidente estadunidense? Não é um problema. "Muitos católicos republicanos estadunidenses estão decepcionados com esse presidente, mas não encontram alternativas", explica o Padre Sirico.

No outro extremo do espectro, fundações mais progressistas, como a GHR Foundation e a Hilton Foundation, também financiam as obras da Santa Sé. A GHR explica que fornece seu apoio "flexível" e de "longo prazo" ao Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, um ministério do Vaticano criado por Francisco em 2016 para tratar de questões econômicas e sociais.

A fundação também financia iniciativas ligadas ao Sínodo, um secretariado também criado pelo Papa argentino, e cujo escopo é repensar as modalidades de governo da Igreja em todo o mundo e torná-las mais inclusivas. Dois âmbitos também apoiados pela Hilton Foundation.

Certamente, essas organizações desempenham um papel importante, mas o Papa, afirma um membro da Cúria, "tem o cuidado de evitar entrar em debates ideológicos que poderiam, na realidade, corromper uma doutrina social que é muito importante para ele". Assim, segundo ele, Leão XIV saberia se destrinchar habilidosamente entre a imperiosa necessidade de receber os fundos desses doadores e a linha radicalmente social e a favor dos migrantes que escolheu definir para o seu pontificado.

Qualquer que seja a orientação desse papado estadunidense, seus compatriotas pretendem tirar vantagem de maneira histórica.

O próprio Leão XIV nunca esquece de onde vem. No sábado, 4 de julho, após uma visita à ilha italiana de Lampedusa, onde prestou homenagem aos migrantes que morreram no mar, o Papa jantou com o embaixador dos EUA, Brian Burch, para celebrar o Dia da Independência dos EUA. Um gesto inédito.

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