09 Julho 2026
"Pode-se dizer que a oportunidade de refletir sobre a independência dos Estados Unidos proporcionou ao Papa americano a chance de atualizar a postura do magistério católico em relação a esse artefato político e cultural – o Estado-nação – que, do século XIX até os dias atuais, tem estado na origem de muitos conflitos e imensas tragédias", escreve Daniele Menozzi, em artigo publicado por Settimana News, 08-07-2026.
Daniele Menozzi é especialista em história da Igreja e professor emérito de história contemporânea na Scuola Normale Superiore de Pisa.
Eis o artigo.
No dia 4 de julho, Leão XIV aproveitou a ocasião do ducentésimo quinquagésimo aniversário da fundação dos Estados Unidos da América – seu país de origem – para destacar algumas das posições da Santa Sé no mundo atual.
Como é sabido, ele recusou o convite para participar das comemorações organizadas pelo atual governo dos EUA, optando por visitar Lampedusa. Lá, propôs que a União Europeia adotasse uma política de imigração alternativa à americana, a qual, se adotada, restauraria ao Velho Continente um papel de liderança política e moral em escala global.
Então, à noite, ele concordou em discursar no jantar oferecido pela Embaixada dos EUA no Vaticano. Dessa forma, demonstrou que a rejeição das políticas do atual presidente — reiterada no discurso oficial de aniversário com tamanha ênfase retórica que sugeria uma consciência de um declínio irreversível — não tem qualquer influência nas relações diplomáticas entre os dois países.
No dia anterior, Prevost havia proferido um discurso ao aceitar a Medalha da Liberdade, concedida pelo Centro Nacional da Constituição na Filadélfia — uma instituição dedicada à promoção da educação nos valores constitucionais dos Estados Unidos. Ele havia se concentrado no tema subjacente à fundação dos Estados Unidos: a proteção da dignidade humana por meio da garantia dos direitos fundamentais.
Ele indicou como premissa inevitável o respeito pela vida humana, que, estendendo-se da concepção à morte natural, deve manifestar-se, obviamente, antes de mais nada, na proteção dos migrantes e na rejeição da guerra.
Essa identificação do caráter distintivo da identidade americana já havia encontrado expressão na carta que Leão XIV dirigiu a todos os americanos em 25 de junho, para comemorar a fundação da nação. Como que para sublinhar sua importância, o site oficial da Santa Sé a republicou em 4 de julho.
De fato, o documento, se lido sob uma perspectiva histórica, adquire um valor muito significativo. O Papa, aliás, baseia seu argumento em uma referência à encíclica Sapientiae christianae, publicada por Leão XIII em janeiro de 1890. O documento de seu antecessor marcou um ponto de virada na posição da Igreja, precisamente no que diz respeito à formação dos Estados-nação.
Anteriormente, após os eventos da unificação italiana – que, como se sabe, ocorreram em detrimento do Estado Papal – mas também por uma evidente preocupação em assegurar o universalismo da mensagem cristã, o papado havia sublinhado a antítese entre o catolicismo e a construção do Estado-nação. A sexagésima quarta proposição do Syllabus (1864) foi um testemunho inequívoco disso.
O conflito também teve origem em uma importante questão ética. O Estado-nação diferia das organizações políticas comunitárias anteriores por ter passado de exércitos voluntários para o recrutamento em massa. Seu governo tornou-se, assim, o único árbitro do uso da força militar, uma medida sem precedentes.
Leão XIII resolveu o conflito recordando que o Estado-nação fazia parte da lei natural desejada pelo Criador para organizar a sociedade humana. Sobre a questão do exército, Leão XIII deu uma resposta detalhada e complexa.
Primeiramente, ele argumentou que "um bom cidadão não pode duvidar que deve dar a vida por seu país", reconhecendo assim a organização do serviço militar imposto pelo Estado-nação como uma forma de autodefesa. Em seguida, ao especificar que o amor à pátria era subordinado ao amor à Igreja, ele atribuiu, por fim, a esta última o juízo final sobre a moralidade das decisões tomadas em relação ao exercício da violência militar.
Mas a intervenção de Leão XIII foi coerente, dadas as condições culturais da época, com a doutrina da guerra justa. Esta concedia aos governantes o poder inquestionável de decidir se deveriam ou não iniciar hostilidades. Assim, a aceitação do Estado-nação também se traduzia na justificação de qualquer guerra decidida pelos seus líderes, cabendo à Igreja apenas fazer julgamentos morais posteriores.
Agora, Leão XIV reitera o texto de seu predecessor de mesmo nome para reafirmar que o Estado-nação se enquadra na lei natural, conforme interpretada pela Igreja. Mas a consequência que ele extrai disso não é a legitimidade do serviço militar. Ele afirma, na verdade, que o crente é um bom cidadão não porque pega em armas para defender seu país, mas porque sua fé "dá novo vigor à busca da justiça, da paz e do bem comum, levando à perfeição todos os dons naturais concedidos pelo Criador".
Esta declaração faz parte de uma série anterior de reflexões em que o Papa Prevost relacionou identidade nacional e paz. Recordarei simplesmente o seu discurso durante a visita ao monumento aos mártires de Maqam Echahid, durante a sua viagem à Argélia (13 de abril de 2026); a sua homilia na missa de 29 de novembro de 2025, em Istambul; e a sua saudação à Fraternidade Monsenhor Courtney do Burundi (22 de outubro de 2025).
Assim, pode-se dizer que a oportunidade de refletir sobre a independência dos Estados Unidos proporcionou ao Papa americano a chance de atualizar a postura do magistério católico em relação a esse artefato político e cultural – o Estado-nação – que, do século XIX até os dias atuais, tem estado na origem de muitos conflitos e imensas tragédias.
A afirmação da identidade nacional continua a representar um dos elementos do desenvolvimento histórico da época contemporânea, que a Igreja elogia. Mas, ao mesmo tempo, Leão XIV sublinha que esta encontra expressão adequada no seio do Estado, não tanto porque este constitui um exército de massas para a defender, mas porque promove a dignidade humana cuja própria existência se assenta no compromisso com a construção da paz.
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