"Diálogo com o Islã e um olhar sobre os migrantes": primeira visita de um Papa à Argélia. Entrevista com Jean-Paul Vesco

Foto: Vatican Media

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15 Abril 2026

"Monsenhor Pierre Claverie repetia frequentemente que todos deveríamos ter um amigo muçulmano." O Cardeal Jean-Paul Vesco cita o bispo mártir de Oran. Francês, dominicano e pastor na Argélia, assim como ele. Foi assassinado há trinta anos e beatificado em 2018. "Devo a ele a minha presença aqui no Magreb", confidencia o religioso, que é Arcebispo de Argel desde 2021, após ter liderado a diocese de Claverie. Ele o lembra para falar sobre o desafio de "construir a fraternidade: cristãos e muçulmanos juntos". Desafio que está no centro da etapa inicial da viagem apostólica de Leão XIV à África: de segunda-feira, 13 de abril, a quarta-feira, dia 15. Esta é a primeira vez que um Papa visita o país onde o deserto e o Mediterrâneo se encontram.

A entrevista é de Giacomo Gambassi, publicada por Avvenire, 13-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Duas dimensões caracterizarão a etapa: a necessidade de "continuar o diálogo com o mundo muçulmano", como o próprio Papa anunciou ao concluir sua visita à Turquia e ao Líbano; e o encontro com a terra de Agostinho, o santo bispo de Hipona, de quem o Pontífice é filho. "Esta é realmente a sua primeira viagem, uma que não herda do passado e que ele organizou levando em conta suas sensibilidades e prioridades", explica Vesco ao jornal Avvenire. Onze dias em que Leão XIV visitará quatro países: além da Argélia, passara por Camarões, Angola e Guiné Equatorial. "Gosto de definir a visita como uma iniciativa de paz que o Papa está lançando a partir da África", afirma o cardeal de 64 anos. "Porque o continente é um púlpito privilegiado para testemunhar que a reconciliação entre os povos é possível; aliás, é a única opção. Como diz a Argélia: passou por anos de conflitos internos, mas conseguiu alcançar uma convivência pacífica."

Nomeado cardeal pelo Papa Francisco, Vesco participou do Conclave que elegeu Leão XIV. "Hoje ele é o único líder mundial que clama pela paz", enfatiza. "Uma paz que é uma aposta no futuro, mas não se pode deixar de olhar para o passado para que seja construída. A África, onde muitos países lidam com as feridas da história, é testemunha disso. É por isso que a paz, que implica a justiça, também requer uma memória reconciliada.

Eis a entrevista.

Eminência, o Papa entrará na Grande Mesquita de Argel, a terceira maior do mundo, e se encontrará com as autoridades de um país totalmente islâmico. Qual contribuição trará para o diálogo entre cristãos e muçulmanos?

Eu diria que aqui vivenciamos o diálogo da vida. E esse será o ponto principal da viagem de Leão XIV. Na Argélia, como Igreja, demonstramos que a convivência das diferenças é realidade. E anunciamos o Evangelho dando prova de que podemos viver como irmãos e irmãs com aqueles que seguem outra fé. O respeito pelo outro e o respeito pela diversidade, inclusive a religiosa, é o que testemunham.

O elemento religioso entrou nas guerras que hoje assolam o mundo.

O motor da guerra não reside nas diferenças entre as crenças. Isso é revelado, por exemplo, pelo que acontece na Palestina: trata-se de uma guerra colonial, cujo objetivo é confiscar a terra de um povo e aniquilá-lo. O Papa enfatizou que a guerra voltou à moda. E o que é a guerra senão a sede de poder e controle de territórios e povos? Talvez devido à loucura de um só homem que quer impor sua lei por liderar uma superpotência. Os fatos destes últimos anos confirmam que as religiões não são parte do problema; aliás, podem contribuir para a solução. E precisamos de fiéis autênticos que não distorçam a face de Deus.

Leão XIV visitará os lugares de Agostinho, ícone da Argélia. O diálogo também passa pelo santo bispo?

Santo Agostinho é uma ponte, como o Papa o definiu. Filho dessa terra, ele atravessou séculos de história. Em primeiro lugar, ele nos lembra que a Igreja dos primeiros séculos também era norte-africana, uma costa que foi laboratório de pensamento teológico. E depois nos conta que sua figura permaneceu viva e luminosa mesmo em uma sociedade muçulmana. Além disso, hoje assistimos a uma espécie de reapropriação argelina de Agostinho, com estudiosos do país dedicando reflexões e ensaios ao santo.

Por que os muçulmanos causam medo no Ocidente?

Porque não os conhecemos. E quando temos medo, cerramos as fileiras para nos defender. E para nos defender, atacamos. Assim que as barreiras que nos mantêm distantes dos outros caem, toda forma de aversão desaparece. Amizade e fraternidade são precisamente os antídotos para o medo do próximo.

Como são vistas do Norte da África as viagens de esperança dos migrantes?

A Argélia é tanto uma terra de trânsito para aqueles que chegam da África subsaariana e querem alcançar a Europa, quanto uma terra de imigração porque é escolhida como nova pátria por aqueles que vivem no continente e também uma terra de emigração porque muitos argelinos olham para o Ocidente. Cada vez que encontro migrantes, vidas jovens marcadas por condições opressivas, penso que estamos diante de um grave pecado. Eu me pergunto: o que os impede de realizar os seus sonhos nos seus países de origem? Países que possuem recursos naturais e potencialidades extraordinárias... O escândalo da migração não é apenas aquele da falta de acolhimento, mas sobretudo aquele das razões que os obrigam a deixar tudo para trás. Razões essencialmente políticas que alimentam mentiras e não permitem que as novas gerações tenham uma vida digna no lugar onde nasceram.

O Papa denunciou as injustiças e as escolhas econômicas que oprimem os povos. Quem são aqueles que querem pôr as mãos sobre a África?

A África está a ser explorada não só pelos países ocidentais, mas agora também pelos asiáticos. Um novo colonialismo que chama em causa o Ocidente. Porque não ajudou as nações do continente a realizar os progressos necessários e a alcançar aquela maturidade essencial para um salto qualitativo. Assim, está jogando a África nos braços de outros atores que certamente não são mais caridosos nem visionários.

O Papa chega à Argélia no trigésimo aniversário do martírio dos monges de Tibhirine e do bispo Claverie, durante a "década negra", também marcada pelo extremismo islamista. O que dizem as suas mortes trinta anos depois?

Os dezenove beatos assassinados entre 1994 e 1996 falam de uma Igreja que se manteve fiel ao povo, bem consciente dos riscos que enfrentava, e que foi alvo de violência que fez vítimas, sobretudo entre os muçulmanos. O Papa não irá a Tibhirine, mas visitará a casa das freiras agostinianas em Argel, duas das quais, Ester e Caridad, foram assassinadas no bairro de Bab el Oued há 32 anos. Hoje, a sua casa é um centro de formação e abrigo para mulheres: será um gesto simbólico do Pontífice para prestar homenagem aos mártires beatos.

Os católicos são uma pequena minoria: 9 mil entre 47 milhões de habitantes. Como é a vida numa nação onde o Islã é a religião oficial?

Não somos uma Igreja de silêncio, mas de encontro. E diaconal, isto é, ao serviço de todo o povo argelino. Queremos ser um sinal, e não uma presença numérica. Claro, não é fácil ser cristãos e argelinos ao mesmo tempo. E uma questão importante é que as conversões não são aceitas. Não se trata apenas de restrições normativas, mas de mentalidade.

Um ano de pontificado de Leão XIV, o que mais lhe marcou?

É o Papa da paz: uma paz que a Igreja precisa. E gosto de pensar nele como um Papa que combina confiança e ousadia. Acrescentaria que ele está se tornando cada vez mais ousado com o passar dos meses, como demonstram suas palavras, que tenho visto progredir. Quando Leão XIV foi eleito, eu estava convencido de que ele era o Papa certo para o nosso tempo. Um ano depois, essa convicção se fortaleceu ainda mais.

Durante a viagem à África, será comemorado o primeiro aniversário da morte do Papa Francisco, em 21 de abril. Qual é o seu legado?

O Papa Francisco deu uma sacudida na ordem estabelecida, se me permitem dizer. E o fez com grande liberdade de espírito. Tudo isso permite que seu sucessor aja com um estilo pacato e livre para restabelecer as urgências eclesiais. Penso que uma delas seja a presença feminina em posições-chave da Igreja: é hora de avançar nessa direção. Vejo uma sintonia entre os dois Papas, especialmente no que diz respeito à relação da Igreja com o mundo, na minha opinião a contribuição mais significativa do magistério de Francisco.

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