"Os lefebvrianos são antagônicos à modernidade". Entrevista com Daniele Menozzi

Foto: Vatican Media

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06 Julho 2026

O historiador da Igreja comenta a excomunhão imposta ao grupo católico ultratradicionalista após a ordenação de quatro bispos sem o mandato papal: "A interpretação da mensagem cristã feita pela FSSPX torna-a incompreensível para a vasta maioria das pessoas hoje. No entanto, possui uma forte capacidade de impacto midiático."

"A Fraternidade de São Pio X não tem muitas cartas na manga no mundo atual: sua interpretação da mensagem cristã a torna incompreensível para a vasta maioria das pessoas de hoje. No entanto, possui uma forte capacidade de impacto midiático, uma vez que são canalizados para esse âmbito os substanciais recursos de que dispõem." É o que explica ao jornal Domani Daniele Menozzi, especialista em história da Igreja e professor emérito de história contemporânea na Scuola Normale Superiore de Pisa.

A entrevista é de Francesco Peloso, publicada por Domani, 03-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Professor, a excomunhão decretada pelo Vaticano representa mais um capítulo de um conflito que se arrasta há anos, sempre seguindo a mesma modalidade. De fato, não parece haver, por parte dos lefebvrianos, qualquer disposição para chegar a alguma forma de mediação...

A excomunhão de 1988, promulgada por João Paulo II, fora precedida por longas negociações entre o então cardeal Joseph Ratzinger e monsenhor Marcel Lefebvre. Elas haviam resultado em uma minuta de acordo. Dois dias após assiná-la, Lefebvre repudiou o texto. O ponto de impasse, sobre o qual os colaboradores do idoso arcebispo haviam chamado sua atenção, dizia respeito à interpretação dos documentos do Concílio Vaticano II. Na visão deles, tal autoridade não poderia ser deixada a cargo da Santa , pois Roma estava contaminada pelo "modernismo". A questão é insolúvel porque toca em um aspecto central do catolicismo: a atribuição ao Papa de uma suprema autoridade em matéria doutrinal. Os lefebvrianos não podem reconhecê-la, pois acreditam que o Papa, ao aceitar o Vaticano II, teria caído na heresia modernista.

Além disso, o Papa não parece ter muita pressa em abordar as questões mais caras à Fraternidade, a começar pela liturgia...

O motu proprio Traditionis custodes, do Papa Francisco, esclareceu o jogo que os lefebvrianos travam ao invocar a liturgia pré-conciliar: recorrer ao rito tradicional é apenas um pretexto para buscar o que realmente lhes importa: colocar em discussão as conquistas da atualização conciliar, particularmente o direito à liberdade religiosa, o diálogo ecumênico e inter-religioso e a colegialidade episcopal. De fato, após esse motu proprio, os bispos podem autorizar a celebração do rito pré-conciliar, desde que isso não seja instrumentalizado para travar uma batalha contra o Vaticano II. O Papa Leão herdou uma posição que torna mais simples a gestão da questão litúrgica, uma vez que ela está despojada das implicações "políticas" que os lefebvrianos lhe atribuem. Ele ainda não especificou como pretende lidar com o assunto, mas a Traditionis custodes serve como ponto de partida.

Por sua vez, a Fraternidade tem tentado de todas as formas provocar uma reação do Vaticano que amplifique ainda mais a atenção da mídia em torno das consagrações...

A Fraternidade não tem muitas cartas na manga no mundo atual: sua interpretação da mensagem cristã a torna incompreensível para a vasta maioria das pessoas hoje. No entanto, eles possuem uma forte capacidade de impacto midiático, uma vez que canalizam para esse âmbito os vastos recursos de que dispõem. Assim, investiram na comunicação de uma imagem: a representação de uma comunidade religiosa radicalmente antagônica à modernidade. Ao utilizar os instrumentos dessa modernidade que eles condenam, buscam angariar apoio daqueles que sofrem todos seus muitos revezes. Naturalmente, essa estratégia comunicativa revela uma total falta de entendimento sobre as relações complexas que no passado ligaram, e continuam a ligar, cristianismo e modernidade. Contudo, a cultura teológica não é um campo muito cultivado pelos tradicionalistas.

Para além das declarações de fachada, parece que a ruptura seja muito mais ampla e profunda do que no passado; afinal, ao contrário de seus antecessores, Prevost não ofereceu nada em troca à Fraternidade São Pio X...

De fato, todas as ofertas feitas pela Santa Sé (prelatura pessoal, sociedade de vida apostólica, ordinariato, etc.) condicionadas ao reconhecimento do Concílio Vaticano II conforme interpretado pelo Pontífice, foram rejeitadas. A este ponto, a aberta desobediência ao Pontífice só pode comportar a excomunhão, de acordo com o direito canônico. Essa penalidade aplica-se aos bispos (tanto os consagrantes quanto os consagrados) que participaram da cerimônia com que quatro novos indivíduos foram investidos do munus episcopale, bem como a todos os sacerdotes em comunhão com eles. Esse ato também revoga os gestos de misericórdia realizados por Francisco para ajudar fiéis enredados pela ideologia tradicionalista: os sacramentos da confissão e do matrimônio administrados por sacerdotes da Fraternidade não são mais válidos. Além disso, como todas as suas atividades representam um perigo para a fé, os católicos foram exortados a evitar participar delas.

Os lefebvrianos precisavam injetar nova linfa em sua hierarquia que havia sido reduzida ao mínimo; no entanto, é possível que o grupo cismático tenha visto na atual situação política internacional a oportunidade para tentar se tornar um ponto de referência global para um catolicismo reacionário?

Parece-me que a exigência de autopreservação seja a principal força motriz por trás da consagração de novos bispos. Dessa forma, os lefebvrianos podem reivindicar a continuidade com a sucessão apostólica: as consagrações são, de fato, válidas, tendo sido realizadas de acordo com as regras prescritas pela Igreja, ainda que ilícitas devido à ausência de mandato do pontífice.

Tal continuidade constitui um argumento de peso na propaganda de uma comunidade que faz da tradição a sua marca identitária. Além disso, não se deve esquecer a concorrência com as franjas mais extremistas da galáxia tradicionalista (particularmente os sedevacantistas), que também se apresentam com uma estrutura episcopal. Isso não altera o fato de que a comunidade lefebvriana - que desde a sua origem manteve fortes laços com as correntes da direita política do catolicismo, especialmente aquelas nacionalistas e antissemitas - enxergue na onda conservadora-reacionária que varre a nossa época uma oportunidade de crescimento.

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