30 Junho 2026
Um movimento internacional está emergindo em torno da ideia de que o atual crescimento econômico do planeta ameaça o bem-estar, a saúde e os recursos naturais dos quais dependemos. O capitalismo extremo, personificado nas corporações multinacionais gigantescas, cada vez mais poderosas, encontrou na tecnologia uma aliada que amplia ainda mais sua influência.
A entrevista é de Joan Lluís Ferrer, publicada por Información, 09-06-2026.
O Fórum Social para Além do Crescimento reúne, na Espanha, aqueles que defendem um decrescimento econômico, com o objetivo de que a economia se ajuste às necessidades da população e do planeta, em vez de utilizar os recursos como meras matérias-primas. No mês de fevereiro passado, 700 pessoas participaram de uma sessão desse fórum, entre elas a ex-prefeita de Barcelona, Ada Colau, e o pesquisador Fernando Valladares. Trata-se de um movimento que surge e se expande por toda a Europa. Hugo Abad é um de seus membros mais ativos e uma de suas vozes mais destacadas.
Eis a entrevista.
Por que há cada vez mais vozes que clamam por um decrescimento econômico e em que deve consistir exatamente esse decrescimento?
Há um consenso científico crescente em torno do decrescimento econômico como a melhor estratégia para deter a crise ecológica e as diversas crises sociais que vivemos (acesso à moradia e à alimentação digna, precariedade trabalhista, crise dos cuidados, saúde mental etc.), a fim de avançar rumo a sociedades justas e sustentáveis.
Os fatos mostram que uma redução democraticamente planejada da produção e do consumo, para alinhar as sociedades aos limites ecológicos, é a única via realmente sustentável nos países de alta renda.
A impossibilidade de um desacoplamento absoluto entre crescimento econômico e impactos ecológicos, no ritmo e na escala necessários para deter o colapso ecológico, evidencia a fantasia ou mito de um “crescimento verde”, ao qual as grandes corporações e poderes econômicos continuam se apegando.
Por que o capitalismo passou de ser o modo de produção que sempre conhecemos para se tornar um modelo de destruição ecológica em massa?
O capitalismo sempre se baseou na destruição ecológica e na exploração das pessoas, embora seja com os combustíveis fósseis e em sua fase neoliberal das últimas décadas que estamos assistindo a suas consequências mais destrutivas. Entre elas, inclui-se também a guinada autoritária, em que formas de controle e repressão que até agora tinham ocorrido apenas nas colônias e em Estados autocráticos passam a ocorrer nos centros imperiais da Europa e da América do Norte, com o objetivo de manter a acumulação das elites, em um contexto de guerras por recursos.
O problema não é apenas o nível agregado de produção e consumo, mas também o que se produz e quem controla as decisões sobre o que e como se produz. Hoje, continuam sendo produzidas inúmeras coisas que estão acabando com as bases da vida e da saúde planetária e humana (armas, carros a combustão, carne de grandes fazendas industriais, fast fashion etc.), respondendo a modelos empresariais extrativistas apoiados por uma indústria do marketing disposta a garantir que todo o valor do que é produzido se realize por meio da compra.
O decrescimento questiona tudo isso, defendendo a reorientação das capacidades coletivas para o que realmente sustenta a vida, desmantelando de forma justa os setores destrutivos e fortalecendo aqueles que são fundamentais para a transformação ecossocial, como a agroecologia, a reabilitação de edifícios, a regeneração ecológica, os serviços públicos, os cuidados e a instalação de energias renováveis em escala comunitária.
Quando se diz que existe uma alternativa ao capitalismo e ao crescimento, em que ela consiste?
A alternativa consiste em organizar a economia de forma democrática em torno de um enfoque público-comunitário que priorize o bem-estar ecossocial, com critérios de suficiência. Nesse modelo, a satisfação das necessidades fundamentais deve ficar fora do mercado e aqueles que existirem devem operar sob critérios sociais e ecológicos que impeçam a especulação e a exploração da vida em suas diversas dimensões. Por isso, nessa alternativa, é crucial o papel das comunidades para além do mercado e do Estado, já que são elas que habitam os territórios e tornam a sustentação cotidiana da vida possível.
Dado que o grande capital está cada vez mais concentrado em menos mãos e surgem oligopólios de proporções até então desconhecidas, há realmente possibilidades de escapar dessa dinâmica?
Há possibilidades reais que exigem mudanças profundas na propriedade e no controle do investimento. Setores-chave como energia, transporte e alimentação precisam sair das mãos de acionistas que buscam o lucro privado e passar a se colocar a favor da propriedade e gestão públicas ou coletivas. A isto deve se somar um planejamento democrático que envolva instituições, pessoas trabalhadoras e comunidades para orientar a economia à satisfação das necessidades reais, à redistribuição da riqueza e à proteção do planeta.
Muitas pessoas, ao ouvir críticas ao capitalismo, automaticamente pensam que está sendo feita uma defesa do comunismo. É possível superar esse dualismo?
Os socialismos realmente existentes, como o da URSS, reproduziram padrões produtivistas e acabaram fazendo com que o mesmo processo de acumulação, em vez de ocorrer em torno dos atores do mercado, se desse no âmbito do Estado. As correntes ecossocialistas vêm realizando uma crítica a esta realidade, apresentando propostas que convergem e alimentam o corpo teórico do decrescimento.
Não obstante, as influências que o decrescimento recebe são muito amplas, abrangendo críticas provenientes de visões ecofeministas, decoloniais e de defesa dos bens comuns. Esta é a riqueza de um projeto social e político que diz um “não” claro ao sistema capitalista e muitos “sins” às alternativas possíveis para libertar a trama da vida do imperativo do crescimento e do lucro privado.
As grandes corporações podem acabar governando o planeta, tendo os políticos como meros intermediários? É o que já está acontecendo?
Em grande medida, isso já está acontecendo, sobretudo se prestarmos atenção na dependência digital dos governos e instituições em relação às grandes corporações tecnológicas, em um cenário de expansão das formas de poder baseadas no controle de dados e da informação.
Diante desse cenário preocupante, é urgente criar formas de soberania tecnológica e digital, bem como regulações que impeçam, no curto prazo, que essa tendência prossiga, isolando, em última instância, as instituições democráticas da influência das grandes corporações. Para isso, é essencial o apoio em nível internacional entre territórios e países para resistir a essa tendência e buscar colocar alternativas em prática.
Em que consiste o Fórum Social para Além do Crescimento? Está surgindo uma nova consciência ou fica restrito apenas a círculos muito reduzidos?
O Fórum Social para Além do Crescimento é um espaço de deliberação democrática que tem como objetivo fortalecer e expandir alianças entre organizações e coletivos que compartilham um horizonte comum de superação do modelo econômico capitalista baseado no crescimento. O processo do Fórum Social surge da Conferência para Além do Crescimento, realizada em setembro de 2025, e que teve sua primeira sessão em fevereiro de 2026, na Universidade Autônoma de Madri.
Atualmente, mais de 140 entidades, redes e alianças aderiram ao processo. A diversidade de organizações e coletivos que participam do Fórum Social demonstra sua transversalidade e o potencial de articulação em torno de uma transição ecossocial justa. Perspectivas que vão além do crescimento e do capitalismo estão sendo disseminadas na sociedade civil, a partir de valores compartilhados de justiça social e sustentabilidade ecológica. O Acordo Ecossocial, no qual trabalharemos nos próximos 10 meses, busca alcançar um programa comum para uma transição ecossocial justa no Estado espanhol, articulável em todos os níveis territoriais.
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