Pesquisador analisa o poder da extrema-direita nas redes digitais à luz da atuação do seu líder informal e de cenários políticos de instabilidade, estagnação e frustração social
As oscilações na fortuna de Elon Musk nos últimos dias são um exemplo de como funciona o mercado financeiro. Num curto intervalo, o sul-africano, naturalizado canadense e estadunidense, passou de bilionário a trilionário e a bilionário novamente. A expectativa é de que recupere o status de primeiro trilionário da história no início do próximo mês, segundo estimativas da Bloomberg, empresa de mídia e dados financeiros que atualiza diariamente as informações sobre o patrimônio dos ultrarricos.
Musk foi a primeira pessoa do mundo a atingir este nível de riqueza depois que as ações da SpaceX passaram a ser negociadas na Nasdaq, bolsa de valores de tecnologia dos EUA. A acumulação desse valor está gerando inúmeras especulações sobre a ampliação do poder e da influência política e econômica do magnata. Ao mesmo tempo, isto é uma “evidência de que vivemos um tipo de capitalismo extremo e distópico” e “a coroação de uma das maiores bolhas financeiras da história humana”, observa João Magalhães, nesta entrevista concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail. “Vemos recordes de desigualdade sendo repetidamente batidos e, ao mesmo tempo, um completo desinteresse em brecar esse processo”, pontua.
O pesquisador estudou as transformações do Twitter em X sob o comando do empresário. O poder político de Musk com a plataforma, diz, consiste em “manejar o que a extrema-direita vê e como ela pode ser vista”, com ele “no centro, direcionando esses processos de acordo com sua visão e interesses”. Apesar da intensa exposição nas redes sociais, acrescenta o entrevistado, isso não basta para explicar a guinada à extrema-direita na América Latina e o fim da onda rosa na região. “Na vida real, a pessoa só passa a confiar num outsider quando ela sabe, por experiência e reflexão próprias, que o sistema não funciona para ela”, destaca.
A seguir, João Magalhães explica a relação entre as big techs e a ascensão da extrema-direita em vários países do mundo, comenta os vínculos entre poder e criação de riqueza e o “paradoxo de instabilidade e estagnação", que tem gerado novos outsiders na política e aumentado a frustração social.

João Magalhães (Foto: Reprodução Institut Für Internet Und Gesellschaft)
João Magalhães é mestre pelo Departamento de Mídia e Comunicação da London School of Economics and Political Science (LSE) e doutor pela mesma instituição. É professor na Universidade de Manchester, onde integra o grupo de pesquisa em Confiança e Segurança em Inteligência Artificial. É pesquisador associado no Instituto Weizenbaum, de Berlim, foi professor assistente na Universidade de Groningen, nos Países Baixos, e pesquisador de pós-doutorado no Instituto Humboldt para Internet e Sociedade.
IHU – Elon Musk tornou-se o primeiro trilionário da história, sendo mais rico que 46% da população mundial. Como você interpreta a acumulação dessa fortuna?
João Magalhães – É uma evidência de que vivemos um tipo de capitalismo extremo e distópico. Vemos recordes de desigualdade sendo repetidamente batidos e, ao mesmo tempo, um completo desinteresse em brecar esse processo. O maior escândalo moral não é que ele tenha se tornado trilionário e sim que tenhamos permitido – e mesmo comemorado, admirado e invejado – isso.
É também a coroação de uma das maiores bolhas financeiras da história humana, a que foi criada em torno da fantasia de que a Inteligência Artificial (IA) vai elevar exponencialmente a produtividade e a inovação e, consequentemente, fazer explodir o lucro das empresas que controlarem essa tecnologia. Ainda que a oferta pública de ações que levou ele a se tornar trilionário tenha sido da SpaceX, focada em desenvolvimento de foguetes, o que alguns investidores esperam é que as empresas de Musk, como um todo, vão agora liderar os diferentes estágios de desenvolvimento de IAs.
IHU – Para muitos bilionários, tornar-se trilionário era algo praticamente inimaginável até poucos anos atrás. O que o marco do primeiro trilhão de dólares revela sobre a relação entre poder e criação de riqueza?
João Magalhães – Há muito a se falar sobre a falta de regulação e o sistema tributário norte-americano, assim como a escala global dos negócios dele, mas o mais interessante para mim tem a ver com o indivíduo Elon Musk.
O que explica toda a trajetória dele é algo relativamente simples: muita gente, desde grandes investidores até pessoas comuns, há anos acredita que suas empresas vão em algum momento futuro gerar um retorno financeiro fabuloso, e que, portanto, faz sentido pagar caro para ter ações delas. É uma fortuna especulativa. E, como qualquer fortuna especulativa, a dele se baseia mais em poder simbólico do que em recursos materiais.
Para entender esse poder, precisamos pensar em duas coisas. Uma delas é como Musk mistura cultura pop, ficção científica e mitos sobre ele próprio para se comunicar – e aqui recomendo um novo livro que comenta esses aspectos, chamado “Muskism: A Guide for the Perplexed” [de Ben Tarnoff e Quinn Slobodian]. A ideia de que vamos colonizar Marte, o mito fundador da SpaceX, ou a possibilidade de desenvolver data centers para IA no espaço, uma das principais promessas que ele faz agora, são altamente improváveis e talvez tecnicamente impossíveis. Mas a fantasia de que talvez essas coisas possam de fato acontecer é altamente sedutora, porque remete a narrativas que aprendemos a adorar, histórias em que heróis, quase todos homens, usam tecnologias quase que mágicas para promover o avanço da humanidade, espaço sideral afora.
Muita gente entendia Musk como sendo uma espécie de versão real de Tony Stark, o Homem de Ferro da Marvel: um engenheiro com uma inteligência sobre-humana que é, ao mesmo tempo, autêntico, acessível e profundamente moral. Acho que a parte dele ser “moral” foi abalada pela transformação dele numa espécie de líder global da extrema-direita e pela associação com Donald Trump nos últimos anos. Mas o mito dele como alguém que usa seu suposto gênio científico para criar tecnologias que podem gerar lucro estratosférico continua intacto para muita gente – apesar de Musk nunca ter inventado nada de significante.
Segundo, Musk tem controle total sobre uma das mais importantes redes sociais do mundo, o X, e usa esse controle para influenciar diretamente o discurso público de acordo com os interesses dele. Sem o X, o poder simbólico do Musk seria muito menor. As pessoas caçoaram dele por ter pago US$ 44 bilhões pelo Twitter em 2022, dizendo que era muito caro. Ficou claro que na verdade foi um tremendo investimento.
IHU – O senhor estudou a transformação do Twitter em X. Quais são as principais mudanças que ocorreram na plataforma sob o comando de Elon Musk? Ainda nesse sentido, em que consiste a noção de “iliberalismo de plataforma”, que tem explorado em suas pesquisas, e qual sua influência na política?
João Magalhães – O nosso estudo foca na maneira como Musk mudou as estruturas de controle da liberdade de expressão da plataforma entre 2022 e 2025, e demonstra que ele fez três coisas, essencialmente.
Primeiro, ele promove uma simplificação brutal do ecossistema de governança da plataforma, limando o poder de atores, internos ou externos, que poderiam opor qualquer resistência aos seus planos – desde organizações da sociedade civil, que há muitos anos eram consultadas pela plataforma, até anunciantes, que nos EUA tinham uma oposição militante contra discursos de ódio online.
Segundo, ele constrói, no lugar desse ecossistema, um jeito de governar que é completamente individualizado, centrado nele mesmo. Não apenas ele passa a decretar novas regras do dia para a noite sem consultar ninguém da empresa como determina que a visibilidade de sua própria conta seja artificialmente multiplicada de tal maneira que ela se torna um mecanismo central de promoção de conteúdo: o que ele diz, comenta, ou retuita se torna visível para quase todos os usuários.
E, terceiro, Musk passa a usar essa nova estrutura de controle da liberdade de expressão para realizar e impor a ideologia dele – que é obviamente de extrema-direita. Aos inimigos, como jornalistas e pessoas de centro-esquerda, censura; aos aliados, como a AfD [Alternativa para a Alemanha] na Alemanha, dá visibilidade.
Neste sentido, a ideia de que Musk é um libertário que irresponsavelmente aboliu a moderação de conteúdo no Twitter é falsa. Ele, na verdade, instrumentalizou as estruturas que já existiam para criar um jeito novo e autoritário de controle dos usuários, e fez tudo isso dizendo que agia em nome da liberdade de expressão. Devido a essa ambiguidade, argumentamos que as ações dele têm muito a ver como a maneira como governos iliberais modernos destroem a democracia por dentro – o X representa um tipo de iliberalismo de plataforma.
IHU – Segundo seu estudo, o Twitter era uma plataforma de grande alcance enquanto o X se tornou um espaço alinhado à extrema-direita. Quais os efeitos disso na política? O que suas pesquisas têm demonstrado sobre a influência dos algoritmos nas escolhas políticas das pessoas?
João Magalhães – O X não é mais a rede social das elites progressistas globais – ainda que parte dessas elites ainda esteja lá. Mas é sem sombra de dúvida o habitat natural do conservadorismo online. Este é o poder político mais concreto do Musk com o X: manejar o que a extrema-direita vê e como ela pode ser vista. E, de novo, com ele no centro, direcionando esses processos de acordo com sua visão e interesses.
É nesse sentido que podemos entendê-lo como o líder informal da extrema-direita mundial. Por exemplo, no Reino Unido existe um partido de extrema-direita chamado Reform UK, com o qual o Musk rompeu. Ele passou então a dar mais visibilidade no X para um novo partido que está ainda mais à direita do Reform, chamado Restore UK – e esse novo partido já está dividindo os votos desse eleitorado. O que o Musk faz ou diz na plataforma se torna crucial para esses grupos. Eles sabem que ele pode usar o X contra ou a favor deles.
IHU – A guinada à extrema-direita na América Latina, por exemplo, observada nas eleições de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, Keiko Fujimori, no Peru, Kast, no Chile, Daniel Noboa, no Equador, e Milei, na Argentina, pode ser lida como uma consequência da influência dos algoritmos nas escolhas políticas da população ou outros fatores também ajudam a explicar essa virada na região?
João Magalhães – Eu sou bastante cético da ideia de que a mera exposição a certos tipos de informação e discursos leva automaticamente as pessoas a mudarem suas crenças e atitudes. Temos mais de 50 anos de pesquisa mostrando que é muito mais complexo do que isso. Lavagem cerebral só existe na ficção. Na vida real, a pessoa só passa a confiar num outsider quando ela sabe, por experiência e reflexão próprias, que o sistema não funciona para ela.
Outsiders versus establishment
Se quisermos entender o papel relativo das plataformas na ascensão da extrema-direita, o mais importante é também o mais óbvio: essas empresas diluíram profundamente o poder que jornalistas profissionais tinham sobre o que é ou não visível, normal e possível. As pessoas sempre foram suscetíveis a outsiders carismáticos que usam minorias sociais como bodes expiatórios. Mas parte considerável do jornalismo tendia a funcionar como um cordão sanitário contra esses atores – menos por ideologia do que por autopreservação. Afinal de contas, os jornalistas eram o establishment.
A diluição dessa barreira criou consequências ambíguas. Ela não apenas permite que atores que antes seriam barrados da esfera pública falem diretamente com as pessoas (e esses atores podem facilmente ser de esquerda, veja, por exemplo, o que ocorre na França) como também permite a introdução da política em todas as esferas da vida social – sem, no entanto, dar às pessoas um canal concreto para mudar o mundo, como Anton Jager diz no livro “Hyperpolitics: Extreme Politicization Without Political Consequences”. O resultado é um paradoxo de instabilidade e estagnação, no qual políticos são constantemente escrutinados, mas esse escrutínio raramente se traduz em governos melhores, o que incentiva a busca de líderes ainda mais extremos, alguém que finalmente vai mudar tudo magicamente. Essa pessoa obviamente não existe, aumentando a frustração.
Mas esses processos midiáticos só tiveram as consequências que eles tiveram por que as democracias liberais falharam miseravelmente em resolver os problemas básicos da população.
IHU – Pode explicar em que consiste o “autoritarismo de baixo para cima” que tem observado nas redes sociais?
João Magalhães – Na minha tese de doutorado estudei a participação política de pessoas comuns durante a crise política brasileira que começa em 2013 e termina (ou se renova) em 2018, com a eleição de Jair Bolsonaro. Foi um momento de extraordinária politização. Não apenas pela quantidade de pessoas que passaram a falar de política pela primeira vez como também pelo espaço onde isso estava acontecendo, as redes sociais, e em especial o Facebook. Eu queria entender o que significava se tornar um cidadão, um agente político, num espaço público cujas regras de visibilidade são regidas por sistemas algorítmicos privados.
O que percebi, entrevistando essas pessoas, foi que, para controlar a visibilidade delas (serem mais ou menos vistos), elas agiam de maneira autoritária: ou calavam a si mesmas ou tentavam calar outras ou, quase sempre, ambos. Mas elas faziam isso não para se adequar a um grupo, partido ou movimento, mas para tentar suprir a necessidade básica individual de serem reconhecidas, de serem ouvidas – ou de ao menos não sofrerem abusos, não terem suas vozes distorcidas.
É, portanto, uma forma de autoritarismo que emerge de baixo para cima, orgânica e de difícil trato, tornada possível por uma tecnologia comercial que não tinha um objetivo ideológico.
IHU – As big techs contribuem para o aperfeiçoamento da democracia ou agravam ainda mais a crise democrática? Qual é a concepção de mundo e de organização política orienta os projetos delas?
João Magalhães – Essas organizações são, acima de tudo, empresas cujo objetivo central é expandir seus negócios e lucratividade. A concepção de mundo delas é qualquer uma que sirva esse objetivo. Em 2017, após o Facebook ser acusado de ter permitido a primeira eleição de Trump, Mark Zuckerberg escreve um manifesto em que defende a democracia liberal, talvez esperando que a ascensão da extrema-direita nos EUA fosse passageira; em 2025, quando Trump é reeleito e aquela expectativa desaparece, ele aparece num podcast adotando diversos aspectos do discurso da extrema-direita, masculinista e hierárquico.
Musk um dia apoiou o partido Democrata; hoje é um extremista de direita. Vimos algo parecido acontecendo com outros fundadores de big techs, como Jeff Bezos, da Amazon, e Sergey Brin, da Google. Não significa dizer que eles estão ou estavam mentindo sobre o que acreditam ou acreditavam. Muito provavelmente o que aconteceu foi que o que eles acreditam mudou conforme a democracia liberal – e o governo de Joe Biden, nos EUA, que tentou impor alguns controles a eles, foi o principal gatilho – se tornou um empecilho para seus negócios.
Ao mesmo tempo, os produtos deles continuam profundamente contraditórios. Permitem formas de liberdade de expressão e informação nunca vistos, mas com um custo enorme – a destruição da privacidade, a concentração sem precedentes de poder econômico e político, e a possibilidade de que, a qualquer momento, esses oligarcas podem usar seus produtos para impor suas visões, como aconteceu com o Musk no Twitter.
Em tese, essas empresas podem voltar a ver a democracia liberal como atrativa, um sistema que as beneficia. Mas isso não vai acontecer naturalmente. Será necessária uma mobilização política capaz de forçar governos a impor limites estruturais a essas organizações. Há sinais encorajadores em países como o Brasil sob Lula. Mas estamos muito, muito distantes de uma democratização real do poder das big techs.