27 Junho 2026
Um visionário capaz de embarcar em empreendimentos extraordinários, ou um adivinho que aproveita oportunidades e impulsos políticos? O historiador Quinn Slobodian discute o muskismo.
A reportagem é de Francesco Manacorda, publicada por La Repubblica, 25-06-2026.
Todos conhecemos Elon Musk. O bilionário dos foguetes que retornam à Terra, dos carros elétricos transformados em símbolos de status, dos satélites que levam a internet a lugares onde as redes não chegam, da rede social comprada e moldada à imagem de seu dono, da inteligência artificial que se deleita em conversar como um colega de classe grosseiro e politicamente incorreto.
Mas o que menos sabemos — ou preferimos não saber — é o Musk dentro de nós: a tentação, diante de um mundo que parece estar se desfazendo, de nos refugiarmos atrás de arame farpado, talvez até mesmo digital. Uma casa autossuficiente graças à energia armazenada em uma bateria na garagem, uma caminhonete blindada para enfrentar o mundo, uma conexão via satélite que nunca nos falha, um algoritmo que nos diz quem está dentro e quem está fora.
Até mesmo a perspectiva — se as coisas dessem muito errado — de escapar para planetas distantes, talvez Marte. Em resumo, todo o catálogo de produtos oferecidos ou mesmo apenas imaginados — no fim das contas, não importa — por Musk. E, ao mesmo tempo, a manifestação de algo diferente e muito mais abrangente: o muskismo. "Usamos esse termo principalmente para descrever uma fase do capitalismo", explica Quinn Slobodian, historiador da Universidade de Boston, que, juntamente com o escritor Ben Tarnoff, publicou um livro com esse título, lançado recentemente na Itália pela editora Einaudi.
A melhor comparação é com Henry Ford e o fordismo, entendido como um sistema de produção baseado na linha de montagem. Em torno desse sistema, a família, a nação, o contrato social e os sindicatos precisavam ser reorganizados. De forma semelhante, consideramos Musk e o muskismo como uma maneira de organizar a sociedade sob o domínio do capitalismo digital.
O livro é um "guia para os perplexos", como sugere o subtítulo, que busca explicar não apenas como Musk influenciou e influenciará o nosso mundo, mas também o que a sua ascensão revela sobre nós. Por que confiamos em Musk? Por que nos tornamos o exército de consumidores, usuários, eleitores, fãs, clientes públicos e privados sem os quais seu monopólio global não existiria? Que medos ele desperta e que ansiedades ele acalma, que esperanças ele inspira e que extingue? Seu trabalho parece um feitiço. E Musk de fato possui algumas das características precisas de um vidente — se não de um mágico.
Muskismo: "Um Guia para os Perplexos", livro de Quinn Slobodian e Ben Tarnoff. (Harper, 2026)
Ele certamente é um empreendedor "visionário" se considerarmos a quantidade (e a qualidade) das invenções que lançou no mercado: coisas reais e tangíveis, feitas de metal, baterias, circuitos, como satélites, foguetes ou carros. Mas, ao mesmo tempo, ele também possui o dom de um adivinho para captar — e aproveitar — os movimentos políticos da sociedade, os impulsos e desejos do mundo globalizado.
Um exercício que se torna mais fácil à medida que ele adiciona uma estrutura de software cada vez mais complexa à base de hardware: X, a inteligência artificial do Grok, dados, atenção, conversa pública. É aqui que o muskismo deixa de ser apenas uma indústria e se torna um ecossistema no qual, mais ou menos conscientemente, todos nós nos movemos.
"Além de carros e foguetes", acrescenta Slobodian, "existe esse novo reino online de imersão nas mídias sociais e, cada vez mais, o uso de chatbots e inteligência artificial generativa como porta de entrada para a internet. Nossas ideias sobre nós mesmos e os outros agora são mediadas por infraestruturas computacionais colossais." Voltando a Ford, então, ele não é mais apenas o dono da fábrica, mas um homem com uma influência cada vez maior sobre tudo ao seu redor.
Não é coincidência que o livro se concentre na infância e juventude de Musk na África do Sul para explicar o mundo ao qual ele aspira. A África do Sul do apartheid tornou-se o berço do futurismo de fortaleza: tecnologia avançada e comunidade fechada, modernidade e separação, eficiência e hierarquia. Uma imagem que hoje retorna de forma mais lúcida, comercializável e globalizada.
Não mais a fortaleza branca do apartheid, mas a comunidade global fechada: aqueles que podem pagar a entrada ficam sob a cúpula, o resto permanece na poeira. "Se você pode comprar seus produtos, é bem-vindo dentro do abrigo", diz Slobodian. "Se não pode, se critica ou parece pertencer a uma população desnecessária, então você é essencialmente definido como não humano." Daí o léxico de bots, vampiros, "NPCs" ou "Personagens Não Jogáveis" (aqueles personagens de videogame que não são os protagonistas da ação, mas meros figurantes) e o uso de "memes" para desumanizar adversários.
Daí a ideia da política como um código a ser limpo, da sociedade a ser depurada e da dissidência a ser tratada como um vírus. "Musk vê a sociedade como uma base de código que precisa ser purificada", continua Slobodian. "Tudo o que não funciona como o programador pretendia se torna um vírus de computador a ser contido e expulso."
Um fenômeno que está atingindo seu apogeu nas últimas semanas, com a estreia da SpaceX na Bolsa de Valores. Não se trata de uma simples listagem, mas sim do que já foi anunciado como a maior oferta pública inicial (IPO) da história: uma avaliação esperada de até US$ 1,75 trilhão, com potencial de arrecadação na casa das dezenas de bilhões. Talvez já estejamos em um novo estágio: do muskismo ao muskaverso. um universo industrial e político no qual foguetes, satélites, baterias, carros, inteligência artificial, mídias sociais, dados, defesa, energia e compras públicas estão interligados, prometendo controle e interconectividade máximos.
É uma contradição flagrante, mas Musk, continua Slobodian, "não quer se desconectar da economia global. Ele quer as duas coisas: ser global e ter controle absoluto sobre um império interconectado." É por isso também que, segundo Slobodian e Tarnoff, é errado interpretar Musk como uma espécie de anarquista antiestatal. "Muitos ainda o veem como um libertário que despreza o governo. Acreditamos que seja exatamente o oposto: Musk construiu seu império se fundindo com o Estado."
De fato, a SpaceX prospera com contratos públicos, a Tesla cresceu dentro de políticas industriais e créditos ambientais, a Starlink é infraestrutura tanto civil quanto militar. A questão é que o equilíbrio pode ser invertido: quando o fornecedor se torna indispensável, o Estado ainda dita as condições? A resposta é óbvia e nada animadora, assim como a busca incessante de Musk por uma concentração de poder cada vez maior — político, econômico, midiático, cultural — parece óbvia. Em seus produtos, no mundo que afirma oferecer, reside a promessa de soberania portátil, comprável e proprietária. O problema é que — se e quando tentarmos viver sem ela — perceberemos que o vírus chamado Elon já está dentro de nós.
Quinn Slobodian é professor associado de história no Wellesley College. Ele escreve para o New York Times, New Statesman, Foreign Policy e Jacobin. Com Ben Tarnoff, é coautor de Muskism: A Guide for the Perplexed.
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