“Jovem” é a forma descolada de dizer “precário”. Entrevista com Alicia Valdés

Fonte: Pexels

19 Junho 2026

Após publicar Política del malestar, há dois anos, a cientista política e doutora em Humanidades Alicia Valdés (Astúrias, 1992) retorna com Auge (Debate, 2026), no qual disseca o crescimento da extrema-direita e sua suposta relação com a juventude. Suas conclusões são claras: quando se fala de juventude, estamos evitando falar de precariedade trabalhista e pobreza. A culpa de tudo não pode recair sobre os adolescentes.

A entrevista é de Pedro Silverio, publicada por Ethic, 18-06-2026.

Eis a entrevista.

No livro, você sustenta que quando falamos de juventude, estamos nos referindo a outras coisas. Você considera que isto é usado como um eufemismo para camuflar a precariedade e a exploração do trabalho sob um rótulo geracional?

Essa é uma ideia que comecei a esboçar há alguns anos, em uma coluna, e que desenvolvo com muito mais profundidade no livro. Para mim, juventude é o que chamamos de um significante ambíguo; uma palavra que supostamente remete à idade biológica, mas cujo significado real na nossa sociedade está incompleto. Na prática, quando o sistema fala de juventude, está, na verdade, referindo-se a um estado precário a nível social e trabalhista.

Tive essa compreensão de forma muito clara durante minha carreira acadêmica. Eu era constantemente convidada para mesas-redondas e congressos rotulados como “para jovens”, mas, ao chegar lá, encontrava pessoas que já tinham 40 anos. O que nos unia naquele espaço não era uma data de nascimento semelhante, mas o fato de nenhum de nós ter um contrato de trabalho justo. Estávamos todos sob condições de extrema precariedade.

Por isso, afirmo que jovem é a forma descolada de dizer precário e, por sua vez, precário é a forma descolada de dizer pobre. A linguagem é utilizada, aqui, como uma ferramenta do sistema para não nomear diretamente as condições materiais de existência e a falta de recursos das pessoas.

Falando dessas condições materiais, você aponta a moradia como um ponto de ruptura fundamental. O acesso à moradia é o problema mais determinante que define nossa desigualdade atual?

Absolutamente. O acesso à moradia e, de modo muito específico, o acesso à moradia própria, constitui hoje uma das marcas mais profundas do que chamo de “rupturas sociais”. Não é algo que eu tenha descoberto, mas é fundamental analisá-lo, pois é o terreno onde melhor se percebe o efeito da crise de contração do sistema capitalista em que estamos inseridos.

O que me parece mais interessante na questão da moradia é que, por ser uma problemática muito disseminada, gera uma dimensão comum da experiência. Todos estamos atravessados por esse conflito, e essa base comum é a que pode nos permitir gerar novas alianças políticas para confrontar o sistema.

No entanto, há um viés de classe muito claro na forma como esse tema é tratado. Os problemas de acesso, de documentação, e a impossibilidade de alugar são realidades que há décadas asfixiam pessoas migrantes, famílias monoparentais e trabalhadores autônomos. O sintomático é que isto só se tornou uma conversa nacional urgente agora que a crise começou a atingir setores que se acreditavam estar salvos, como universitários ou servidores.

Existe um discurso muito difundido que aponta a internet e as redes sociais como o principal perigo para os adolescentes, vinculando-os à radicalização da extrema-direita. Você considera que este pânico moral é real ou é uma cortina de fumaça?

Há duas dimensões que devemos abordar aqui. Por um lado, há esse discurso de pânico moral que apresenta a internet como um território selvagem, um demônio abstrato completamente alheio ao olhar adulto. Projeta-se a ideia de que a internet, por si só, gera riscos que devem ser evitados a todo custo, concentrando aí toda a responsabilidade pela guinada fascista ou pela direitização de muitos homens jovens. Esta narrativa é muito útil ao sistema porque permite ignorar as causas reais e estruturais da ascensão da extrema-direita. Em vez de analisar o colapso das expectativas de vida, preferimos culpar o algoritmo ou certos personagens da rede.

Por outro lado, há a hipocrisia em relação ao vício tecnológico. Critica-se ferozmente o apego dos jovens ao celular, mas, se você entra no Facebook, vê boomers e millennials sendo enganados em massa por imagens falsas e informações manipuladas por inteligência artificial. Existe um olhar carregado de superioridade moral e adultocentrismo, que sustenta a ideia de que “só eu soube ser um bom jovem” e que os jovens de hoje não sabem habitar seu tempo. É uma forma de desacreditar as novas gerações para manter o controle sobre a narrativa social.

Você propõe a necessidade de “habitar a internet de outra maneira”. É realmente possível romper o monopólio das grandes plataformas tecnológicas e seus algoritmos?

Não só é possível, como é necessário. Devemos entender que o online e o offline não são mundos separados, mas dimensões de uma mesma realidade. É preciso habitar a internet de outra forma, assim como precisamos habitar de outra maneira nossos bairros, nossas escolas e nossos espaços naturais. O monopólio das grandes empresas existe no digital, mas também no espaço físico.

Como ativista que busca mudança, me recuso a dar uma resposta negativa a essa pergunta. Não quero ocupar o lugar da vítima - “ah, pobrezinha de mim que quis mudar o mundo e não consegui” - porque essa posição não é politicamente operativa. Já existem projetos que estão abrindo caminhos, como a plataforma Pantube, o trabalho das companheiras do Proyecto Una ou as migrações coletivas para espaços como Mastodon ou Bluesky, quando o controle em outras redes se torna insuportável.

O sistema sempre irá penalizar os espaços alternativos, dizendo que neles você não terá seguidores ou sucesso, mas é possível habitar o mundo de uma forma diferente, se deixarmos de medir tudo em termos de rentabilidade algorítmica.

Você se refere frequentemente ao feminismo e à teoria queer como elementos que desestabilizaram uma ordem muito concreta. Esse “caos” era a única forma de avançar rumo à igualdade?

É fundamental fazer esta ponderação: o feminismo não gerou desordem, ele introduziu uma mudança estrutural. O fato de essa mudança ser percebida como caos é uma visão subjetiva de quem se sentia confortável na ordem anterior. O sistema capitalista foi historicamente construído e organizado em torno do que chamo de “dois animais mitológicos”: a dona de casa e o homem provedor que traz o pão para casa.

É importante lembrar que esses modelos não surgiram de forma natural; foram implantados por meio de processos políticos extremamente violentos e sangrentos, como a caça às bruxas, que buscava disciplinar as mulheres e forçá-las a ocupar um papel econômico específico. Se esses arquétipos estão ruindo hoje, não é culpa da teoria queer, mas porque são mentiras mitológicas que já não refletem a realidade das pessoas.

O gênero é uma categoria político-econômica que responde a interesses muito claros. Quando essa mentira se rompe, surge uma nostalgia perigosa em setores que não conseguem sustentar a mudança, como as chamadas tradwives ou os discursos excludentes, mas a ruptura desses arquétipos é, em essência, um processo emancipatório e libertador.

Você diz que o capitalismo está se transformando e já não busca o “homem operário” tradicional. O que é esse novo “homem empreendedor” que você aborda?

Estamos em um momento de contração econômica em que o capitalismo está redefinindo suas necessidades. O modelo do “homem com H maiúsculo”, esse provedor estável, já não é útil ao sistema. Agora, o mercado busca um homem empreendedor. Não no sentido de inovação criativa, mas no sentido de autoexploração radical. Já não se trata de vender sua força de trabalho em troca de um salário digno; agora, o objetivo é que cada indivíduo seja o rentista de si mesmo, transformando sua própria vida e seu próprio corpo em capital.

Vemos esse fenômeno na manosfera, onde se romantiza acordar às cinco da manhã e se submeter a rotinas extenuantes, sob a promessa de um sucesso que é puramente ilusório. É a capitalização absoluta do eu. E isso é crucial: se o modelo de masculinidade tradicional está em crise, não é porque as feministas o estejam atacando, mas porque o capitalismo já não precisa dele e o penaliza para o substituir por outro mais rentável e precário.

Sobre a ascensão da extrema-direita, você afirma que a responsabilidade não está distribuída de forma equitativa. A quem devemos realmente responsabilizar?

A conversa política atual está muito concentrada na culpa, um exercício que costuma ser sádico, para punir o outro, ou narcisista, para nos sentirmos melhores do que o culpado. Mas, quando falamos de responsabilidade real, é inegável que figuras políticas que governam de mãos dadas com a extrema-direita ou dirigentes que compram seus discursos têm uma responsabilidade muito maior do que um adolescente de 15 anos.

Fico indignada que o foco da opinião pública recaia sobre um jovem que não fez os deveres sociais, enquanto temos meios de comunicação colocando negacionistas em seus estúdios ou programas como o de Iker Jiménez dando asas a discursos de ódio. Quando compramos a ideia de que os culpados são os jovens ou o feminismo, estamos fazendo o trabalho sujo da extrema-direita. Não podemos continuar engolindo suas mentiras, nem aceitando seus dispositivos de controle.

Em sua opinião, falta uma “revolução masculina” ou referências positivas para homens que não se encaixam no modelo da manosfera?

Já existem muitos modelos e muito debate sobre novas masculinidades, mas o problema é que essas vozes estão sendo hegemonizadas pelo pensamento liberal e conservador. Os discursos dos “homens de alto valor” ou dos red-pillers [em alusão a Matrix] são os que estão marcando o caminho porque oferecem itinerários claros, ainda que tóxicos.

Como mulher feminista, não posso dizer aos homens como deve ser sua conversa interna, mas, sim, posso dizer que essa crise da masculinidade é uma oportunidade para gerar itinerários emancipatórios e anticapitalistas. Temos que deixar claro que se um homem não consegue sustentar sua família com um único salário, a culpa não é da mulher que trabalha fora, mas do capitalismo que destruiu o poder aquisitivo da classe trabalhadora. A libertação dos homens também passa por romper com esses animais mitológicos que o sistema lhes impôs.

Você é bastante crítica em relação aos partidos de esquerda. Qual é, na sua opinião, o erro que estão cometendo diante desse cenário?

O erro fundamental é que a análise dos problemas sociais não pode ser feita a partir de produtos culturais da Netflix, nem aceitando o diagnóstico da direita. O centro é uma posição política contingente; se o tabuleiro se move para a direita, o centro também se desloca. Se a esquerda assume posições de direita ou adota seus marcos discursivos na esperança vazia de conquistar mais votos, está condenada ao fracasso.

A esquerda precisa “esquerdear”, simples assim. Precisa ser capaz de fazer seus próprios diagnósticos e propor suas próprias soluções. Aos diagnósticos da extrema-direita, apenas a extrema-direita pode oferecer uma solução. Portanto, se a esquerda quer ser uma alternativa real, deve começar criticando os meios que normalizam o fascismo e defender com orgulho as condições materiais da classe trabalhadora, sem medo de ser criticada.

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