Entre a pressa e o vazio: por que nossos jovens estão cada vez mais tristes? Artigo de Robson Ribeiro

Foto: Jakub Kriz/Unsplash

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12 Mai 2026

"Não estamos diante de uma tristeza passageira, de um “momento difícil” típico da adolescência. Estamos diante de um estado emocional persistente, que revela um mal-estar estrutural. Quando um jovem começa a questionar o valor da própria vida, não é apenas o indivíduo que está em crise: é o mundo que ele habita", escreve Robson Ribeiro, teólogo, filósofo e professor. É formado em História, Filosofia e Teologia, áreas nas quais trabalha como professor em Juiz de Fora (MG).

Eis o artigo.

Viver a juventude hoje não é simplesmente atravessar uma fase da vida marcada por descobertas e possibilidades. É, antes de tudo, enfrentar uma realidade marcada pela aceleração, pela exposição constante e por uma pressão silenciosa de corresponder às expectativas que muitas vezes nem são compreendidas. Os adolescentes e jovens estão inseridos em um mundo que exige respostas rápidas, posicionamentos imediatos e uma presença constante, sobretudo no ambiente digital. Não há tempo para o silêncio, para a dúvida ou para o amadurecimento lento das experiências.

Ao mesmo tempo, essa geração cresceu cercada por promessas de autonomia e liberdade, mas sem a devida sustentação de vínculos sólidos. A família, a escola e as instituições, que antes funcionavam como referências estruturantes, hoje enfrentam dificuldades para exercer esse papel. O resultado é uma juventude que, embora conectada a tudo, muitas vezes não se sente pertencente a nada. Vivemos um paradoxo: há acesso à informação, mas escassez de sentido; há comunicação em excesso, mas falta de escuta verdadeira.

É nesse contexto que os dados recentes sobre a saúde emocional dos adolescentes precisam ser compreendidos. Eles não surgem do acaso, nem podem ser interpretados como uma simples fragilidade individual. Eles são, na verdade, a expressão de um modo de vida que tem falhado em oferecer sustentação humana para aqueles que estão em processo de formação.

Dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE 2024), divulgada pelo IBGE, revelam que três em cada dez (cerca de 30%) adolescentes de 13 a 17 anos no Brasil relatam sentimentos frequentes de tristeza, irritabilidade ou desamparo. Quando nos deparamos com essas informações, não é apenas um número, é um sintoma, um alerta. Mas o quadro se aprofunda quando observamos outros indicadores que aparecem associados a essa realidade. Aproximadamente 43% afirmam sentir irritação constante, e cerca de 1 em cada 5 adolescentes já declarou que, em algum momento, sentiu que a vida não valia a pena. Isso não é um detalhe estatístico. Isso é um diagnóstico social.

Não estamos diante de uma tristeza passageira, de um “momento difícil” típico da adolescência. Estamos diante de um estado emocional persistente, que revela um mal-estar estrutural. Quando um jovem começa a questionar o valor da própria vida, não é apenas o indivíduo que está em crise: é o mundo que ele habita.

E aqui está o ponto central: esses dados não falam apenas sobre adolescentes. Eles falam sobre nós. Sobre a sociedade que construímos, sobre as relações que fragilizamos, sobre os vínculos que deixamos de sustentar. Há algo profundamente

errado quando tantos jovens se sentem sozinhos mesmo estando cercados por pessoas. Há algo desordenado quando a irritação se torna permanente e a tristeza deixa de ser exceção para se tornar rotina. E há algo ainda mais grave quando a vida perde valor na percepção de quem mal começou a vivê-la.

O cenário que se descortina não pode ser analisado sem reconhecer o impacto direto da cultura contemporânea. Vivemos em uma lógica de exposição constante, comparação permanente e validação imediata. Os adolescentes são pressionados a existir publicamente o tempo todo: a mostrar, a performar e a corresponder. Mas onde está o espaço para o silêncio? Para a interioridade? Para a construção lenta do sentido?

As próprias dinâmicas digitais contribuem para esse quadro. O ambiente das redes sociais, embora conecte, também expõe, compara e, muitas vezes, fragiliza. Jovens inseridos nesse contexto estão mais suscetíveis a sentimentos de inadequação, irritabilidade e esgotamento emocional. Estamos diante de uma geração que tem acesso a tudo, mas que não encontra estabilidade em nada. O que esses dados escancaram é uma crise de sentido.

Estamos formando jovens em uma realidade marcada pela pressa, pelo desempenho e pela ausência de referências sólidas. Falta tempo, falta presença, falta escuta. Sobram estímulos, cobranças e expectativas. E o resultado é esse: uma geração cansada, irritada e profundamente triste.

Se quisermos realmente responder a esse cenário, precisamos ir além da lógica técnica. Precisamos recuperar aquilo que sustenta o humano: o vínculo, o cuidado, a convivência, o tempo compartilhado. Precisamos devolver aos jovens a possibilidade de construir sentido, não apenas de produzir resultados.

Porque, no fundo, essa tristeza que aparece nos dados não é apenas deles. Ela é o reflexo de uma sociedade que perdeu a capacidade de orientar, de cuidar e de dar direção. E enquanto continuarmos tratando isso como um problema secundário, os números continuarão crescendo e o silêncio desses jovens continuará gritando.

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