20 Junho 2026
"A grande pergunta que emerge de seu pontificado até agora dentro dessa temática é tão simples quanto desconcertante: que tipo de humanidade estamos construindo quando normalizamos o sofrimento dos migrantes e refugiados? Essa pergunta não pertence apenas ao campo político ou pastoral. Ela toca diretamente a consciência cristã. Interpela a Igreja. Interpela a sociedade", escreve Alan Matheus Gloss, graduado em Filosofia, candidato à Companhia de Jesus e pesquisador nas áreas de teologia pastoral, mobilidade humana, migração e refúgio.
Eis o artigo.
Em um mundo que multiplica muros, criminaliza deslocamentos e transforma fronteiras em espaços de exclusão, a recente viagem apostólica do Papa Leão XIV à Espanha e às Ilhas Canárias emerge como um gesto de notável densidade pastoral, teológica e política. Não se tratou simplesmente de mais uma visita internacional inscrita na agenda diplomática da Santa Sé.
Houve ali um gesto profundamente simbólico: ao dirigir seu olhar para uma das fronteiras mais tensas da Europa contemporânea, o Papa recolocou no centro da consciência eclesial uma das questões mais decisivas do nosso tempo, a mobilidade humana. As Ilhas Canárias tornaram-se, nos últimos anos, um dos rostos mais dramáticos da crise migratória global. Suas águas carregam histórias de travessia, desespero e esperança. São rotas marcadas por sofrimento, por naufrágios invisibilizados e por milhares de vidas suspensas entre a fuga e a sobrevivência. Escolher estar ali não foi, portanto, um gesto neutro. Foi uma tomada de posição.
Desde o início de seu pontificado, Leão XIV tem demonstrado sensibilidade particular para os grandes deslocamentos humanos que marcam o século XXI. Sua visita às Canárias torna evidente que a questão migratória não ocupa um lugar marginal em sua visão pastoral, ao contrário, constitui um dos eixos centrais de seu magistério nascente. Nesse aspecto, torna-se impossível não reconhecer a profunda continuidade com o caminho aberto pelo Papa Francisco.
Se Francisco fez de Lampedusa, em 2013, um símbolo de seu pontificado, em coerência com o horizonte que posteriormente amadureceria na Fratelli Tutti, Leão XIV parece retomar e aprofundar essa intuição. A continuidade, contudo, não se dá por mera repetição. O que se percebe é uma recepção criativa do legado de Francisco, agora articulada com linguagem própria, forte densidade antropológica e teológica e acentuada ênfase sinodal. Talvez uma das afirmações mais emblemáticas desta viagem tenha sido a insistência do Papa de que a dignidade humana não pode ser condicionada por fronteiras, documentos ou status jurídicos. Em uma formulação ao mesmo tempo simples e teologicamente poderosa, ele recorda que a dignidade da pessoa não é concedida pelo Estado, pela nacionalidade ou pela condição social. Ela precede qualquer reconhecimento institucional porque está enraizada no próprio mistério da criação.
Essa convicção toca o coração da antropologia cristã. A tradição bíblica está atravessada pela experiência do deslocamento. Abraão parte sem saber para onde vai. Israel conhece o êxodo, o deserto e o exílio. O mistério da Encarnação está marcado por diversos movimentos de mobilidade humana. A Sagrada Família experimenta a condição do refúgio. O próprio Cristo se identifica como migrante. A revelação bíblica, em muitos aspectos, é uma história de travessias.
Talvez por isso a questão migratória tenha hoje um significado que vai além da sociologia, da política internacional ou da gestão de fronteiras. Ela se tornou um espelho espiritual da nossa época. A forma como tratamos as pessoas em mobilidade revela, em profundidade, o tipo de humanidade que nos tornamos.
Nesse sentido, a fala de Leão XIV de que “todos somos, de algum modo, migrantes” adquire densidade que ultrapassa a leitura social imediata. Há nela uma intuição profundamente teológica. A condição cristã é, em si mesma, peregrina. A Igreja é um povo em caminho, nunca plenamente instalado, sempre em travessia rumo à plenitude do Reino. Essa perspectiva desloca radicalmente o modo de olhar para migrantes e refugiados. Eles deixam de aparecer apenas como destinatários de assistência, sujeitos de políticas públicas ou números em relatórios internacionais e tornam-se rostos concretos e histórias vivas através dos quais a própria Igreja é chamada a discernir sua fidelidade ao Evangelho.
Aqui reside uma das dimensões mais profundas do atual pontificado. Leão XIV parece compreender que os migrantes não são apenas destinatários da ação pastoral mas são eles que interpelam, desafiam e evangelizam a Igreja. Não se trata apenas de acolhê-los, mas também de permitir que sua experiência transforme nossas categorias, desinstale nossas seguranças e converta nossos horizontes eclesiais.
Os deslocados de nosso tempo carregam, sem dúvida, marcas de sofrimento, mas carregam também testemunhos extraordinários de resistência, esperança, solidariedade e fé. Em sociedades frequentemente marcadas pelo individualismo, pela lógica da descartabilidade e pelo fechamento identitário, a experiência dos migrantes expõe tanto as feridas de nosso tempo quanto a possibilidade concreta de refundar nossa vida comum sobre bases mais humanas, fraternas e solidárias.
Seria ingênuo, entretanto, interpretar a viagem à Espanha e Ilhas Canárias apenas em chave pastoral ou espiritual. Os discursos de Leão XIV tiveram forte reverberação política, precisamente porque tocaram em uma das fraturas mais sensíveis do cenário contemporâneo. A Europa vive hoje uma profunda tensão em torno das políticas migratórias. Em diversos países, a migração tornou-se eixo central de disputas eleitorais, alimentando discursos nacionalistas deturpados, políticas de endurecimento de fronteiras e narrativas que associam mobilidade humana a uma ameaça cultural, social, econômica ou securitária. O migrante e refugiado, em muitos contextos, passou a ser instrumentalizado como símbolo do medo.
É nesse contexto que a voz do Papa adquire particular força. Ainda que não atue em chave partidária, sua fala possui inevitáveis consequências políticas. Isso não decorre de interferência ideológica, mas da própria radicalidade do Evangelho quando confrontado com estruturas de exclusão, e da qual é missão do sucessor de Pedro defender e propagar.
Ao denunciar a normalização das mortes nas rotas migratórias, Leão XIV confronta diretamente uma lógica global na qual a proteção de fronteiras frequentemente vale mais do que a proteção da vida. Sua crítica não se dirige apenas a governos específicos, mas a uma racionalidade política mais ampla, marcada pela naturalização da indiferença. Essa posição inevitavelmente gera desconforto. Para setores humanitários, sociais e eclesiais comprometidos com a dignidade humana, o Papa reafirma a função profética da Igreja. Para setores mais conservadores, inclusive dentro do próprio catolicismo, suas palavras podem soar excessivamente políticas ou excessivamente incisivas em
debates complexos.
Mas talvez a questão decisiva seja outra: pode a Igreja permanecer neutra diante do sofrimento humano?
A tradição da Doutrina Social da Igreja oferece uma resposta clara. Sempre que a dignidade humana é ameaçada, o testemunho cristão é inevitavelmente convocado a assumir relevância pública. Não porque a Igreja deva substituir a política, mas porque o Evangelho possui consequências concretas para a organização da vida social. O silêncio, diante da desumanização, nunca é neutro. Como recorda a tradição da Doutrina Social da Igreja desde Pacem in Terris até Gaudium et Spes, a dignidade humana possui implicações inevitavelmente públicas.
Essa chave de leitura ganha ainda mais profundidade com a recente encíclica Magnifica Humanitas, documento que já se apresenta como uma das referências centrais para compreender o pontificado de Leão XIV. Se Francisco ofereceu ao mundo, em Fratelli Tutti, uma vigorosa reflexão sobre fraternidade e amizade social, Leão XIV parece avançar em direção a uma antropologia integral centrada na dignidade humana como fundamento de toda convivência autêntica. O próprio título da encíclica é eloquente. Magnifica Humanitas propõe uma releitura da grandeza humana não a partir da lógica do poder, da técnica ou da eficiência, mas a partir da dignidade divinamente intrínseca de cada pessoa. Em um mundo fascinado por desempenho, produtividade e controle, traços amplamente analisados por Byung-Chul Han em sua crítica à sociedade contemporânea, a encíclica reconduz ao centro a pessoa humana.
O texto articula uma convicção fundamental: nenhuma condição política, econômica, cultural ou jurídica pode relativizar o valor de uma vida. A dignidade humana precede todas as categorias e deve permanecer inviolável, inclusive, e talvez sobretudo, nas situações de maior vulnerabilidade. Esse princípio possui consequências profundas para o debate migratório. Significa reconhecer que migrantes, refugiados e deslocados não perdem sua dignidade em razão da precariedade de sua condição legal. O ser humano jamais pode ser reduzido à lógica burocrática que o classifica. Outro ponto central da encíclica é a leitura das periferias como lugar hermenêutico privilegiado. Leão XIV retoma aqui uma intuição decisiva de Francisco: as margens não são espaços secundários da história, mas lugares onde as crises centrais da civilização contemporânea se manifestam com maior nitidez.
As Canárias tornam-se, sob essa perspectiva, mais do que uma fronteira geográfica. Tornam-se uma chave de leitura do próprio tempo. Aquilo que acontece ali não diz respeito apenas à Europa. Revela, em escala concentrada, os dilemas éticos, políticos, econômicos, sociais e espirituais de toda a humanidade.
Talvez o elemento mais original de Magnifica Humanitas, contudo, esteja em sua profunda articulação entre dignidade humana e sinodalidade. Leão XIV parece compreender que a sinodalidade corre o risco de ser esvaziada quando reduzida a método, estrutura ou reorganização institucional.
Em sua perspectiva, sinodalidade é antes de tudo uma forma eclesial de habitar o mundo. Uma Igreja sinodal é uma Igreja que escuta de verdade. Uma Igreja que acolhe de verdade. Uma Igreja que caminha com os outros, especialmente com aqueles que permanecem nas fronteiras humanas, sociais e existenciais. Essa compreensão possui implicações decisivas. Uma Igreja fechada em si mesma, autorreferencial ou incapaz de escutar aquele que chega contradiz a própria lógica sinodal que afirma desejar viver. A acolhida concreta do outro torna-se, assim, critério de autenticidade eclesial.
Talvez seja precisamente aqui que se encontra uma das contribuições mais significativas de Leão XIV ao atual momento da Igreja. Seu pontificado parece recordar, com clareza incomum, que a credibilidade do testemunho cristão será cada vez mais medida pela capacidade eclesial de permanecer próxima das feridas humanas. Em um tempo de polarizações, endurecimentos ideológicos e crescente desumanização, o Papa insiste em recentrar a Igreja naquilo que é essencial: a dignidade inviolável da pessoa, a centralidade do encontro e a urgência evangélica da acolhida.
A grande pergunta que emerge de seu pontificado até agora dentro dessa temática é tão simples quanto desconcertante: que tipo de humanidade estamos construindo quando normalizamos o sofrimento dos migrantes e refugiados? Essa pergunta não pertence apenas ao campo político ou pastoral. Ela toca diretamente a consciência cristã. Interpela a Igreja. Interpela a sociedade. Interpela cada um de nós.
Em um mundo que insiste em erguer muros para proteger medos, privilégios e identidades fragilizadas, Leão XIV recorda que o Evangelho continua sendo, essencialmente, uma espiritualidade de travessias, sem fronteiras e livre. O cristianismo nasceu no caminho, amadureceu nas fronteiras e reconhece Cristo precisamente naquele que bate à porta, que está nas margens. Nas águas que cercam as Ilhas Canárias, onde tantos sonhos naufragam e tantas vidas continuam a buscar esperança, talvez esteja também uma das perguntas mais decisivas para o futuro da Igreja. Não apenas que tipo de instituição desejamos ser, mas sobretudo de que lado queremos estar. Porque, em última análise, o futuro do testemunho cristão talvez seja discernido justamente ali: nas fronteiras onde a humanidade continua clamando, com urgência, por dignidade, acolhida e esperança.
Referências
CONCÍLIO VATICANO II. Gaudium et Spes. Vaticano, 1965.
FRANCISCO. Fratelli Tutti. Vaticano, 2020.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
JOÃO XXIII. Pacem in Terris. Vaticano, 1963.
LEÃO XIV. Magnifica Humanitas. Vaticano, 2026.
LEÃO XIV. Discursos da Viagem Apostólica à Espanha e às Ilhas Canárias. Vaticano, 2026.
SÍNODO DOS BISPOS. Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo sobre a Sinodalidade. Vaticano, 2024.
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