02 Junho 2026
Tomada inicial, a despedida de Francisco: "O mundo está ferido, a Igreja dilacerada; naquele dia, a UNICEF havia denunciado a morte de quinze crianças em Gaza". Tomada final: Leão XIV no trono de Pedro: "Com a eleição de um Papa estadunidense, parte da batalha cultural está se deslocando dos EUA para Roma e sendo travada em centros de estudo, nas editoras e nas universidades". Ex-diretor do L'Espresso e apresentador do programa diário Il cavallo e la torre na Rai 3, Marco Damilano é um profundo analista das dinâmicas eclesiais e políticas. Seu livro mais recente, Noi siamo i tempi. La Chiesa di Francesco e Leone nel mondo a pezzi (Nós somos os tempos. A Igreja de Francisco e Leão no mundo em pedaços, Mondadori), narra e interpreta os aspectos menos evidentes da transição entre os dois pontificados. "Quando estive em Chicago, cidade natal de Prevost, a Trump Tower me pareceu como uma Babel contemporânea, imagem evocada no início da encíclica Magnifica Humanitas, contraposta a Jerusalém, cidade do homem sempre em construção."
A entrevista é com Marco Damilano, realizada por Giacomo Galeazzi, publicada por La Stampa, 30-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
No livro, você traça um paralelo surpreendente entre Jorge Mario Bergoglio e uma figura fundamental do catolicismo social: o padre Luigi Di Liegro. O que eles têm em comum?
Bergoglio foi o primeiro papa da história a nascer, crescer e viver em uma metrópole, não vindo de uma cidade pequena como os três últimos pontífices italianos ou o polonês Karol Wojtyla. Buenos Aires, com seu obelisco, seus cafés, seu porto, a cidade labiríntica de Borges, centro metafísico de uma nova releitura da piedade para o cardeal que visitava as 'villas miserias', onde vivem os invisíveis e os táxis se recusam a entrar. Ele chegava de transporte público, vestido como um simples padre, entre os 'cartoneros', catadores de lixo, os restos da opulência alheia. Não se limitava ao conforto e à caridade; construía alianças com movimentos, voluntários e hospitais pediátricos. Uma mudança de perspectiva do centro para as periferias: esse será o cerne da mensagem.
Uma revolução copernicana?
É a teologia da cidade sobre a qual o diretor da Cáritas, Dom Luigi Di Liegro, falava em Roma durante aqueles mesmos anos. Um padre dos pobres, filho de um pescador que emigrou para os EUA, que se tornou a voz da cidade oculta na capital da Itália e centro do catolicismo mundial, o primeiro aqui a estudar o fenômeno da imigração e a defender os migrantes sem moradia e sem visto de residência, mas também a abrir uma casa para portadores de AIDS no parque da Villa Glori, no bairro de Parioli, em Roma, provocando por isso um grande escândalo entre as pessoas conservadoras e convencionais de direita e de esquerda.
Eis a descoberta da "santidade da porta ao lado".
Somente após o Concílio a Igreja começou a desenvolver uma teologia da cidade que só com Francisco encontrou espaço nos documentos oficiais. 'Deus vive na cidade', lia-se no documento final da Conferência de Aparecida (2007), presidida pelo Cardeal Bergoglio. Um conceito reiterado na exortação apostólica Evangelii Gaudium: 'A Revelação nos diz que a plenitude da humanidade e da história se realiza numa cidade'. Sinal de uma Igreja capaz de ler os sinais dos tempos. A intuição, moderníssima, de que a cidade, a metrópole, não é o pesadelo da alienação, o inferno da secularização, mas pode até se tornar o lugar ideal de encontros entre pessoas, culturas e crenças religiosas.
A surpresa de um Papa estadunidense foi seguida por um primeiro ano de pontificado com pouca cobertura da mídia. E aí, o que aconteceu?
Em fevereiro de 2025, o magnata pede para ser filmado no Salão Oval enquanto os pregadores evangélicos impõem as mãos sobre seu corpo e rezam por Donald Trump. O presidente, apesar de sua biografia controversa, permite que a pastora Paula White, a telepregadora evangélica que ele nomeou como presidente do Escritório de Fé da Casa Branca, o compare a Jesus. Cenas transmitidas graças às mídias contemporâneas, mas com um toque antigo. O Imperador se legitima perante Deus. Mas diante dele estava o Papa de Roma, vindo dos Estados Unidos, 'o homem mais popular do mundo', como o define Christopher Hale. Robert Prevost se mostrou manso e determinado, apesar do risco de sua voz se perder no fragor das armas e dos exércitos. Em 11 de abril, durante uma vigília de oração na Basílica de São Pedro, Leão ataca 'quem deu as costas ao Deus vivo, para fazer de si mesmo e de seu poder o ídolo mudo, cego e surdo, a quem sacrificar todos os valores e pretender que o mundo inteiro se dobre de joelhos'. Ele adverte: 'Basta com a idolatria de si mesmos e do dinheiro! Basta com a exibição da força! Basta com a guerra!' Trump, evidentemente, sente-se implicado pelas palavras do Papa missionário.
Por que tal reação?
O que o enfureceu, mais do que qualquer outra coisa, foi a notícia do encontro em preparação entre Leão XIV e Obama. Em 12 de abril, Trump explodiu no Truth: 'Leão é fraco no combate ao crime e péssimo em política externa. Ele deveria ser grato a mim; se eu não estivesse na Casa Branca, ele não estaria no Vaticano.' A resposta do Papa é direta: 'Não tenho medo do governo Trump. Falo do Evangelho. Não sou um político, não tenho intenção de debater com ele'. Nunca antes houve um confronto como esse, especialmente um que tenha explodido hoje no coração do Ocidente.
Com que efeitos concretos?
Nem mesmo Stalin, durante a Guerra Fria, havia atacado um Papa dessa forma; havia se limitado a perguntar quantas divisões a Santa Sé poderia pôr em campo. Nem mesmo os comunistas poloneses reagiram com tamanha agressividade à eleição de Karol Wojtyla. No primeiro ano de seu pontificado, o Papa polonês pôde visitar seu país. O Papa estadunidense não poderá. Stalin, porém, errou ao subestimar o poder espiritual do Pontífice de Roma. Assim como erra Trump, o homem que queria ser Papa e agora Messias. Trump e Prevost são dois estadunidenses em lados opostos: pela primeira vez, Imperador e Papa são da mesma nação, o presidente dos EUA, nascido na liberdade religiosa e hoje líder de um fundamentalismo secular que encontra na Igreja de Roma uma barreira e um obstáculo. Isso já havia acontecido com Francisco, mas agora o Presidente e o Papa compartilham a mesma língua, o mesmo espaço.
No entanto, Trump e Leão estão em dois planos diferentes. Um representa um poder mundano que gostaria de ser sobrenatural, como tantos outros poderes ao longo da história se iludiram em pensar, apenas para se verem reduzidos a pó. O outro representa um poder universal e espiritual, herdeiro de dois milênios de história que obliteram o pequeno magnata. O Papa, que se anunciou ao mundo com o pedido de uma paz desarmada e desarmante, viu-se diante de um ataque violento, até mesmo pessoal. A 'paz esteja convosco' é a tarefa do missionário chamado a conduzir a Igreja nesta época atravessada por ódio e guerras de destruição. 'São tempos difíceis, dizem os homens. Vivamos bem, e os tempos serão bons. Nós somos os tempos', afirma Agostinho.
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