Leão voa alto, mas a política não presta atenção. Artigo de Marco Damilano

Foto: Vatican Media

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27 Outubro 2025

"Nesse pântano, uma voz se ergue do Vaticano, olhando para o mundo e convidando a voar alto. A correr riscos, a ser proféticos e, por que não, alegres", escreve Marco Damilano, jornalista, em artigo publicado por Domani, 26-10-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

"Contem comigo!", disse o Papa à multidão multicolorida que compareceu à Sala Paulo VI para um evento muito incentivado pelo Papa Francisco e retomado por Leão (os pálidos teóricos da descontinuidade entre os dois pontificados estão servidos). Mas ninguém retomou as palavras de Leão no pequeno debate político italiano.

Era preciso estar lá, quinta-feira, na grande Sala Paulo VI do Vaticano, e vê-los chegar para a audiência com o Papa Leão, todos juntos. Uma multidão multicolorida. Ativistas, sindicalistas, padres, freiras, mulheres do Congo como Micheline Mwendike Kamate, fundadora da associação Lucha, e a mexicana Gloria Morales Palo; o cardeal luxemburguês Jean-Claude Hollerich; e os cartoneros argentinos, os catadores de papelão, o keffiyeh e a bandeira de Guadalupana; a Madona, padroeira dos povos de língua espanhola e do continente americano; os Sem Terra brasileiros, e David Yambio, de Refugees in Libya, calorosamente recebidos pelo Papa ao final do encontro.

Aliás, Yambio está entre os interceptados pelo Paragon (escuta ilegal), juntamente com o Padre Mattia Ferrari, o jovem padre que foi a força motriz indiscutível por trás do encontro dos movimentos, ou melhor, seu líder relutante. De fato, coube a ele a tarefa de discursar antes do Papa Leão.

No conjunto, um mundo alternativo ao dos "muito ricos e poderosos" que tanto agradam a Donald Trump e seus aliados, os mesmos que o cercavam durante sua posse em Washington, mas também em Sharm el-Sheikh. Estavam em Roma para o quinto encontro mundial dos movimentos populares, realizado no Spin Time, um edifício ocupado no coração de Roma, citado pelo Papa, e para seu Jubileu.

Um evento religioso, mas também social e político, muito incentivado pelo Papa Francisco e retomado por Leão (os pálidos teóricos da descontinuidade entre os dois pontificados estão servidos). Robert Francis Prevost proferiu um longo discurso aos movimentos, que é um programa para seu pontificado e seu empenho mais pessoal. "A Igreja deve estar com vocês", mas também: "Quero que me ouçam dizer: ‘Contem comigo!'" "Estou com você!" "Terra, casa e trabalho são direitos sagrados. Vale a pena lutar por eles", foi a manchete do L'Osservatore Romano. Os três Ts em espanhol — Tierra, Techo e Trabajo — já caros a Francisco, são princípios não negociáveis para quem se preocupa com a dignidade do ser humano.

Leão falou de exclusão, "a nova face da injustiça social", e de questões menos exploradas, desde as grandes empresas que saqueiam os povos extraindo lítio de suas terras até o fentanil que está matando jovens nos Estados Unidos. Sobre o controle das imigrações, ele usou palavras mais duras até que seu antecessor: "Não estamos assistindo ao exercício legítimo da soberania nacional, mas a graves crimes cometidos ou tolerados pelo Estado. Medidas cada vez mais desumanas — até mesmo politicamente celebradas — estão sendo adotadas para tratar esses 'indesejáveis' como se fossem lixo e não seres humanos." Mas Prevost também vinculou inextricavelmente a escolha de seu nome às questões sociais do século XXI. Leão XIII, com a Rerum Novarum, havia tratado das condições de exploração dos trabalhadores de sua época. Hoje, Leão XIV aborda as novas realidades do nosso tempo, com instrumentos ainda a serem inventados, porque os antigos, por si só, não se sustentam mais.

"Os sindicatos típicos do século XX representam uma porcentagem cada vez menor de trabalhadores, e os sistemas de seguridade social estão em crise em muitos países; nem sindicatos, nem associações patronais, nem Estados, nem organizações internacionais parecem em condições de lidar com esses problemas... Mais uma vez, nos encontramos diante de um vazio ético, no qual o mal facilmente entra. Portanto, os movimentos populares, juntamente com pessoas de boa vontade, cristãos, crentes e governos, são chamados com urgência a preencher esse vazio."

A velha Igreja, uma instituição milenar, demorou a descobrir a questão social, a democracia. Mas ela se revela à frente dos governantes narcisistas na compreensão da crise da democracia, do vácuo ético que envenena as sociedades ocidentais. Os "muito ricos" são, ao contrário, expressão da "globalização da impotência", mas não adianta reclamar ou se refugiar na antipolítica. Leão XIV pede uma política diferente, mais política, instrumentos inéditos e criativos, porque os antigos não bastam mais.

Entre esses, estão os movimentos populares. E a partir de hoje e nos próximos dias, os Povos da Paz estarão reunidos em Roma pela Comunidade de Santo Egídio.

Algo sobre o que valeria a pena discutir. No entanto, ninguém retomou as palavras de Leão XIV no pequeno debate político italiano. Nem a direita, que enche os discursos de mensagem cristã e a reduz a uma cruzada ideológica, com os neoclérigos à caça dos votos católicos nos encontros de verão e ignorados no resto do ano, nem a esquerda, dispersa em seus próprios esquemas: o campo amplo e estreito, o pacto federal e as primárias, o centro Parioli, ou seja, "o novo que avança, que é apenas o velho que tenta novamente" e agora, até os regadores reformistas no Partido Democrata, não faltava mais nada.

Nesse pântano, uma voz se ergue do Vaticano, olhando para o mundo e convidando a voar alto. A correr riscos, a ser proféticos e, por que não, alegres.

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