O papa Leão XIV enfurece os bispos pró-Trump com suas críticas às políticas anti-imigração dos EUA

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27 Outubro 2025

  • O primeiro pontífice norte-americano da história pede aos bispos dos Estados Unidos maior firmeza contra as políticas anti-imigração do governo Trump e questiona os pró-vida que condenam o aborto, mas não defendem os migrantes. Em duas semanas haverá eleições na Conferência Episcopal dos EUA.

  • O papa Leão XIV assume o legado de Francisco em seu “programa” de governo e pede que se lute “contra os efeitos destrutivos do império do dinheiro”.

A informação é de Jesús Bastante, publicada por Religión Digital, 26-10-2025.

“Acabou-se a lua de mel.” Apenas seis meses após a nomeação do primeiro papa norte-americano da história, os setores ultratradicionalistas ligados ao movimento MAGA (Make America Great Again) e ao segundo governo de Donald Trump, que celebraram a eleição de Francis Robert Prevost como pontífice, viram duas de suas principais iniciativas políticas serem questionadas: as deportações em massa de migrantes e a defesa da pena de morte.

O papa critica a perseguição de Trump aos migrantes: “Não sei se isso é ser pró-vida”

Foi o próprio Leão XIV quem, em uma declaração improvisada ao sair de Castel Gandolfo, atacou os autoproclamados “pró-vida” nos EUA, que condenam o aborto, mas promovem a expulsão de estrangeiros e a ampliação da pena de morte. “Quem diz ser contra o aborto, mas a favor da pena de morte, não é realmente pró-vida. E quem diz ser contra o aborto, mas apoia o tratamento desumano dado aos imigrantes nos Estados Unidos, não sei se isso é ser pró-vida”, afirmou de forma categórica Prevost.

As palavras do papa foram duramente criticadas por alguns prelados ultraconservadores, como o cardeal Leo Burke, que anteriormente havia elogiado Prevost por permitir-lhe celebrar, naquele fim de semana, uma missa em latim no altar da Basílica de São Pedro, ou pelo ex-bispo de Tyler (Texas), Joseph Strickland, destituído por Francisco, que acusou Prevost de ter “causado muita confusão” com suas palavras.

“Oremos juntos pelo papa Leão XIV, por nossos bispos e por todos os líderes da Igreja, para que nunca fraquejem na defesa da verdade que Cristo nos confiou. E, com fé inabalável, continuemos dando testemunho de que a vida é sagrada e que o Evangelho é o verdadeiro caminho a seguir”, declarou Strickland, um dos clérigos mais ligados ao movimento MAGA.

Mas o papa não parou por aí. Nas últimas semanas, Prevost recebeu o bispo de El Paso, Mark Seitz, e membros da organização Hope Border, que trabalha com migrantes perseguidos em seus locais de trabalho, nas escolas de seus filhos, nos centros de saúde e até nos templos — que, durante o governo Trump, deixaram de ser “refúgios santuário” protegidos. Nessa reunião, Leão XIV recebeu várias cartas e vídeos de migrantes relatando suas experiências. “Eles temem as deportações em massa de Trump”, declarou o presidente da ONG, Dylan Corbett.

As imagens mostravam um papa visivelmente emocionado. “A Igreja não pode permanecer em silêncio diante da injustiça. Vocês estão comigo. E eu estou com vocês”, afirmou Leão XIV, incentivando os bispos a enfrentarem as políticas de ódio ao estrangeiro promovidas pela administração republicana.

“Não queremos entrar em disputas políticas, não somos políticos, mas precisamos ensinar a fé”, declarou após a audiência o bispo de El Paso. “Nosso Santo Padre está pessoalmente muito preocupado com essas questões”, acrescentou Seitz, que afirmou que Leão “expressou seu desejo de que a Conferência Episcopal dos Estados Unidos fale com firmeza sobre o assunto”. “Significa muito para todos nós saber de seu desejo pessoal de que continuemos a falar com clareza”, acrescentou o bispo.

Dito e feito. Um dos principais colaboradores de Prevost nos EUA (e no Vaticano, já que ele acaba de ser nomeado membro da Comissão Pontifícia para o Estado da Cidade do Vaticano), o cardeal de Chicago Blase Cupich, denunciou com veemência as “batidas e detenções migratórias”. “As famílias estão sendo destruídas, as crianças vivem com medo (...). Essas ações ferem a alma de nossa cidade. Permitam-me ser claro: a Igreja apoia os migrantes”, afirmou após retornar de uma audiência que Leão XIV manteve com a cúpula da Igreja norte-americana, que em novembro deverá eleger um novo presidente.

Nesse sentido, embora ciente de que a maioria do episcopado norte-americano é fortemente conservadora, o Vaticano busca apoiar um candidato que estabeleça “linhas vermelhas” contra a perseguição aos migrantes. E, nesse ponto, Leão XIV mantém a mesma posição de Francisco, que em fevereiro de 2025, em um de seus últimos textos antes de ser internado no Hospital Gemelli, escreveu uma carta aberta aos católicos dos EUA, encorajando-os a defender os migrantes diante da hostilidade manifestada por Trump. Um Trump que, até o momento, não se atreveu a criticar abertamente Prevost (com quem, aliás, ainda não se reuniu — embora já tenha se encontrado com seu vice-presidente, o católico J. D. Vance).

Cupich, junto com o arcebispo de Washington Robert McElroy, tornou-se um dos líderes religiosos mais críticos da política migratória do presidente norte-americano. Assim, ao regressar de Roma, com o total apoio de Leão XIV, classificou como “agressiva”, “desnecessária e intolerável” a perseguição aos estrangeiros promovida pelo líder republicano.

“Nossos sacerdotes nos dizem que a frequência à missa, especialmente nas comunidades latinas, diminuiu porque as pessoas têm medo de sair. É muito triste. Também têm medo de ir ao supermercado e de buscar ajuda médica”, ressaltou o cardeal de Chicago. McElroy, por sua vez, denunciou o fato de que “muitas pessoas de fé profunda foram detidas e deportadas”. “Como cidadãos, não podemos permanecer em silêncio diante da profunda injustiça que está sendo cometida em nosso nome”, acrescentou. Afinal, não se pode esquecer que a grande maioria dos deportados por Trump são, além de estrangeiros, católicos.

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